A efemeridade do audiovisual locativo

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A pesquisa de tese tratou dos novos regimes de visualidade que comparecem no campo dos formatos audiovisuais que empregam tecnologias móveis de telecomunicação e geolocalização em seus processos formais e estéticos. No mais das vezes, trata-se de propostas de experimentação com mídias móveis que dão origem a projetos artísticos, turísticos, publicitários, dentre outros, os quais atualizam o cinema e outras formas audiovisuais em experiências nas quais o ambiente de recepção e a performance corporal do espectador ganham centralidade.

Em tais projetos nem sempre nos deparamos com uma configuração da imagem tal como estamos habituados a encontrar nas mídias audiovisuais “tradicionais” (como no cinema e na televisão) e, por conta disso, uma das principais dificuldades da pesquisa foi justamente encontrar uma maneira de viabilizar a análise dos materiais, seja em termos de como abordá-los teoricamente, seja em termos de como observá-los empiricamente. Do ponto de vista de uma abordagem teórica, as dificuldades apareceram, antes de tudo, porque os fenômenos em questão não se deixam circunscrever a nenhum domínio em específico, estando posicionados em zonas difusas de interseção entre diversos campos midiáticos e artísticos. Assim, a questão de “partida” para um estudo aprofundado dos objetos tornou-se constantemente recorrente: onde situá-los primeiramente? No campo de estudos do cinema, da imagem eletrônica, da web, das artes do espaço (arquitetura, escultura, instalação, performance)?

A questão se tornava então como desenvolver um método de investigação que não privilegiasse por demais uma das áreas a ponto de obscurecer as relações com todas as outras. Como solução, foi desenvolvido, com base nas cartografias benjaminianas, um método de invenção de constelações de afinidades, a partir do qual as observação se deram através de um duplo movimento: por um lado, os esforços de análise ocorreram no sentido de traçar conexões com outros fenômenos contemporâneos que tomam forma no campo da produção estética e experimental com mídias locativas e, por outro lado, de estabelecer movimentos genealógicos de recuperação, comparação, filiação e ruptura das tendências percebidas nos objetos analisados com aquelas percebidas em formas culturais de outras épocas. Dessa maneira, ao situar as observações dos objetos em “zonas de contágio” com outras formas culturais, a preocupação em torno de estabelecer uma especificidade (sobretudo estética) dos materiais deixou de ser central, dando lugar a especulações que conduziram o olhar analítico em termos de encontrar devires audiovisuais e de cultura atuantes nos casos observados.

Além do problema de lidar com os objetos em nível teórico-epistemológico, ao longo da pesquisa nos deparamos ainda um outro problema, mais elementar até que o primeiro, que era como proceder em relação ao tratamento formal dos observáveis, visto que os casos investigados se mostravam, de certa maneira, “incapturáveis”, principalmente quando comparados a outros objetos comunicacionais, tais como filmes, músicas, programas de TV etc., que, para fins de investigação, permitem que sejam deslocados de seus contextos de origem, principalmente através de cópias em outras matrizes de registro que não aquelas que os originaram.

No contexto da minha pesquisa a intangibilidade e a efemeridade são características inerentes aos objetos analisados: como sugere Beiguelman (2010), as estruturas em macroescala produzidas com mídias móveis (pensemos nos projetos de mapeamento que recobrem uma cidade inteira), ainda que não possam existir sem a prerrogativa dos espaços físicos e geográficos, só se realizam, de fato, em territórios imaginários. São geografias temporárias, marcadas pelo dinamismo e inconstância dos dados informacionais, que, não raro, dificultam o acesso ao fenômeno em si ou a seus registros: seja porque são produzidos para acontecerem uma única vez ou durante um período de tempo, como nos casos de projetos de intervenção realizados durante festivais, mostras e eventos; seja em decorrência de fatores contingenciais, referentes a questões de registro e armazenamento que muitas vezes fogem ao controle do pesquisador, como, por exemplo, a obsolescência a que os materiais se submetem toda vez que mudam os hardwares, sistemas operacionais, plugins etc.

É claro que esses problemas que tive de enfrentar são semelhantes queles que outros pesquisadores se deparam em diferentes contextos. Por exemplo, o problema da efemeridade dos materiais constitui também uma dificuldade para aqueles que estudam fenômenos como a arte de rua ou a performance artística. Já as questões de registro e armazenamento dos materiais acaba sendo um problema comum queles que estudam a web, que sabem muito bem dos riscos de que seus objetos de observação sejam radicalmente alterados por terceiros ou que simplesmente “desapareçam” da noite para o dia, quase sempre por iniciativa dos próprios detentores do material, falhas no sistema de hospedagem do site ou até mesmo por causa de eventuais invasões de hackers.

No caso da minha pesquisa, na maioria das vezes eu conseguia ter acesso ao software do projeto (por exemplo, uma determinada aplicação de telefone celular), no entanto, o lugar, isto é, o território físico e geográfico em que a experiência de uso do software efetivamente deveria acontecer, estava situado a milhares de quilômetros de onde eu estava. A solução encontrada foi basear parte das observações a partir de materiais de registro (em sua maioria vídeos promocionais ou conceituais) que mostravam o funcionamento dos softwares em condições ideais. Evidentemente, o problema de assistir vídeos conceituais e promocionais é que não há como garantir que o que está sendo exibido ali corresponde experiência empírica, que é quase sempre menos empolgante do que aquela representada nesse tipo de material. Em todo o caso, não consideramos este como um problema, visto que, ao longo da pesquisa, a questão dos discursos em torno dos objetos se mostrou bastante interessante para apontarmos os fluxos de desejo que moldam o imaginário sobre um certo tipo de experiência audiovisual que coincide com o momento em que as mídias computacionais móveis despontam como um dos principais meios ambientais de nossa época.

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