A Memória materializada pela Arquitetura de Informação

Lorena Risse

A palestra “A Memória materializada pela Arquitetura de Informação: Controle e Audiovisualidades em interfaces digitais” abriu os trabalhos da 13º Semana da Imagem na Comunicação na segunda-feira, 17/08. A fala feita no Labtics da Unisinos, São Leopoldo, foi presidida pelo Jornalista e Mestre em Comunicação, Ricardo Machado. Com um currículo diversificado, com seis prêmios de Jornalismo distribuídos ao longo de sua carreira e com a participação no time atual de jornalistas do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o convidado convive com o desafio de mesclar debates teóricos com Jornalismo e nos convidou a pensar e questionar práticas comunicacionais naturalizadas, presentes no nosso cotidiano, que fazem parte de um universo onde o controle, a técnica e a memória são a tônica.

 

TCAV – Sua participação na Semana da Imagem foi muito relacionada pesquisa desenvolvida no curso de mestrado em Comunicação da Unisinos, correto? Como essa ligação se deu?

Ricardo Machado – Parece interessante e contraditória, em alguma medida, a ligação que há entre a minha pesquisa e a Semana da Imagem. Isso porque o aspecto que eu mais me debruço em minha pesquisa, ao observar o objeto empírico, a home page do jornal Zero Hora, é justamente a invisibilidade da Técnica. Então, nesse sentido, o meu grande interesse nesta pesquisa não é simplesmente a emergência “visível” de um tipo de audiovisualidade específica, home pages, mas algo que lhes é fundamental e opera no subsolo do sensível aos olhos, na construção técnica. Penso que esse modo de pensar as imagens pode ser interessante e complementar aos demais tipos de análise, pois desloca o foco de observação e faz a gente enxergar as imagens desde outro lugar.

 

TCAV – Lendo suas produções fica claro que um dos seus interesses são os modos de emergência da técnica e sua relação com a estética e suas formas de funcionamento na contemporaneidade. Na dissertação, o objeto empírico trabalhado era a interface de um site, do jornal Zero Hora (ZH), um produto de natureza digital e com especificidades técnicas, mas como ver essa dimensão estética em outros territórios, como na imagem, sendo modificada ou repensada por conta das relações diretas com a técnica?

Ricardo Machado – Vou dividir esta resposta em dois momentos: 1) a técnica e sua relação com a estética; e 2) como estas duas coisas se relacionam a outros territórios das imagens.

Primeiramente insisto no seguinte ponto: pensar sobre a técnica é pensar menos sobre os aparatos tecnológicos e pensar mais sobre o ser humano. Veja, pelo menos desde o homo-habilis, já havia relação entre seres vivos e a técnica. Mas, nesses casos, o que perdurou por séculos e séculos, a técnica servia ao homem e não o contrário. Entretanto, a modernidade radicalizou esta relação entre o ser humano e a técnica, tendo a Segunda Guerra mundial como o ápice negativo da potência da racionalidade tecnicista.

Mas o que isso tem a ver com a estética? Entendo estética como a manifestação ética e política dentro de um determinado contexto. A partir disso explico a relação com a técnica. A produção em série – enquanto técnica que está ligada racionalidade linear – compartimentou o espaço do ser humano e, em alguma medida, as pessoas perderam um pouco a noção da complexidade de suas ações, o que leva crise da experiência, denunciada por Benjamin ainda na primeira metade de 1930, culminando com os regimes totalitários típicos do século XX. Veja, mais tarde o Projeto Manhattan, que envolveu uma mistura perigosíssima – um grupo de pesquisadores universitários, indústria armamentista, militares e a alta cúpula dos Aliados e daquilo que viria a se tornar a Organização do Tratado do Atlântico Norte – Otan – resultou nas bombas atômicas. Os impactos disso são décadas e décadas de radiação na vida dos japoneses das cidades de Hiroshima e Nagasaki, locais onde muito recentemente completou 70 anos do lançamento dos explosivos. Àquela altura a guerra estava vencida pelos aliados, era só uma questão de tempo, mas a bomba foi usada, porque havia sido construída e só foi construída porque era tecnicamente possível, ainda que eticamente inaceitável. É nesse sentido que a técnica me interessa. Por que fazemos o que fazemos de determinado jeito e não de outro?

Assim chego ao segundo ponto da resposta. Busquei investigar por que um modo hegemônico de se construir audiovisualidades em home pages de jornais – a linguagem textual, baseada no HTML – se tornou mais expressivo tecnicamente que outros. Nesse processo de pesquisa, fui atrás do surgimento da Internet desde a ARPANet, que era um projeto do Departamento de Defesa dos EUA, na década de 1970, que visava descentralizar as informações do Pentágono, que envolvia mais ou menos os mesmos tipos de atores do Projeto Manhattan. Aí tentei entender que rastros dessa lógica permaneceram na Internet de superfície, a WWW, e verifiquei a forma pela qual o modo hegemônico de construção dos sites é do jeito que é, e percebi que essa forma técnica deriva justamente da possibilidade de controle que tais interfaces oferecem. Por um lado há a capacidade de tais audiovisualidades serem monitoráveis pelos mecanismos de busca e por outro há possibilidade destas mesmas interfaces produzirem relatórios detalhados sobre os internautas e com isso produzir bancos de dados, portanto uma memória. A dimensão mais óbvia que justifica a razão pela qual os sites são construídos em linguagem textual, fundamentada no HTML, é que esse modo técnico é altamente rentável s grandes corporações de nosso tempo, também conhecidas como GAFA – Google, Amazon, Facebook e Apple. Observe que há um processo sofisticadíssimo de controle na construção das audiovisualidades, que permite a construção de dossiês detalhados sobre cada um de nós. O que tento provocar são as nossas reflexões sobre as dimensões nem tão óbvias desses processos.

Por isso é interessante pensar como essa lógica se atualiza em distintos territórios, talvez menos de composição técnica das imagens (as cinematográficas, por exemplo) e mais no processo de publicização dessas imagens com os procedimentos de catalogação, seja no YouTube ou no Facebook, por exemplo.

TCAV – Outra vertente que pulsa nas suas produções é a perspectiva sobre os agenciamentos e os modos de controle presentes na sociedade contemporânea. Como você vê esses processos hegemônicos de organização, captação e geração de informação? Até onde a falta de informações sobre esse controle é fundamental para a sua alimentação e até onde nós o nutrimos porque fazemos parte de uma espécie de vigilância concedida?

Ricardo Machado – Esse parece um paradoxo sem saída. Se navegamos na internet de superfície, produzimos memória (a do banco de dados). Se produzimos memória, produzimos riqueza, por meio de um trabalho imaterial e gratuito de bilhões de pessoas, para as grandes corporações em troca do serviço dos algoritmos de busca e das redes sociais, que jamais foram construídos para aproximar pessoas, embora a gente, desobedientemente, invente essas funcionalidades para estes aparatos tecnológicos. A pergunta é: deveríamos abandonar os dispositivos audiovisuais porque eles nos vigiam? Evidentemente, não. Não se trata de abandonar tais dispositivos, mas de compreendê-los na complexidade em que são constituídos.

 

TCAV – Parece-me que o tema da memória entra como um avanço pós pesquisa de mestrado, correto? Que tipo de memórias, de rastros estão sendo constituídos nestes espaços? Memórias das nossas vidas, dos nossos gostos ou simplesmente uma memória do que nos ensinaram a guardar?

Ricardo Machado – Esta reflexão mais objetiva sobre memória, sim, aparece em um movimento pós pesquisa, ao mesmo tempo em que permeia toda a reflexão da investigação. É importante destacar que essa memória produzida pelos bancos de dados é só uma parte daquilo que constitui uma memória sobre nós mesmos – enquanto sujeitos singulares e sujeitos dentro de uma comunidade. Há toda uma dimensão da memória de nossas vidas (os fracassos, por exemplo) que não faz parte dos processos de monitoramento executado pelas redes sociais, ainda que sejamos cada vez mais seduzidos pelos apelos em divulgar nossas ações do ambiente off line.

 

Há outra questão importante nesse processo. Nossa memória digital, por assim dizer, é formada não somente por nossos processos de navegação, mas pela interação com outras contas (prefiro usar esse termo, pois um mesmo usuário pode ter várias contas – pessoal, corporativa, temas afins etc.) e mesmo com uma comunidade. Isso tem várias implicações bacanas, como as comunidades de fãs, por exemplo, mas há algumas lamentáveis. Lembro o caso de uma senhora que foi linchada e, consequentemente, assassinada por um grupo de moradores no Guarujá, litoral paulista, porque foi construída uma imagem/memória digital dela, a partir de narrativas de outras pessoas, que associava esta senhora magia negra com crianças. Com a propagação destas informações, gerou-se uma memória equivocada e preconceituosa, associando imagens e informações ao seu perfil no Facebook que serviu de “justificativa” para o brutal assassinato. Além disso temos a indignação seletiva, que parece ser outro sintoma dessa construção de memórias sobre as pessoas.

 

Ainda há um outro tipo de memória das pessoas construída pelos algoritmos. Em 2014, quando houve eleições no Brasil, o Buzz Feed divulgou um aplicativo que continha um sistema em que colocávamos o link do perfil de nossos amigos do Facebook e podíamos verificar quem “curtia” quem. Isso gerou desconexões, inimizades e toda a sorte de mal entendido, porque o resultado que o Buzz Feed apresentava era de um reducionismo assustador. Veja, esse caso apresenta nitidamente como somos condicionados pela técnica, pois se desejamos acompanhar o que o Bolsonaro, por exemplo, divulga em sua conta do Facebook devemos “Curtir” sua página, mas isso não implica que concordemos ou que realmente gostemos do que ele fala. Mas a memória (para ficarmos no rigor do termo) que esse algoritmo gera agencia esse tipo de sentido. A menos que entremos diariamente na página do Bolsonaro, para continuar nesse exemplo, não há outra forma técnica de acompanhar as coisas que ele publica – ainda que discordemos – senão “curtindo” sua página. Isso criou uma confusão danada porque rolou aquele climão “se curte o fulano, eu te odeio”, o que é um reducionismo do reducionismo do aparato técnico. Esses são alguns exemplos do por que me interesso pelos aspectos não visuais das audiovisualidades.

 

TCAV – Por fim, seria interessante entender melhor como a perspectiva das audiovisualidades é pensada por meio da arquitetura da informação? Como este conceito é de suma importância para o TCAv, pergunto: por meio de que manifestações ela dura, em um espaço em que a linguagem computacional é tão forte?

Ricardo Machado – A arquitetura de informação se constitui como um conjunto de regras que determina um tipo de tratamento da informação. No caso da minha pesquisa, isso diz respeito forma pela qual se hegemonizou um tipo de construção audiovisual nas interfaces das home pages de sites noticiosos, mesma lógica vista nas redes sociais, por exemplo. Eu compreendo o conceito de audiovisualidades como algo que não se reduz materialidade ou visualidade dos fenômenos comunicacionais contemporâneos. Como bem defendeu Einsestein, havia cinema antes mesmo do cinema, o que também está expresso formalmente no Manifesto Audiovisualidades (2009). É a partir deste olhar que eu investiguei as audiovisualidades desde a perspectiva da tecnocultura – relacionando técnica e estética. Não penso as audiovisualidades como um processo alheio s linguagens computacionais, mas como manifestações tecnoculturais que se desenvolvem em uma estética que permeia tudo e todos.

De um lado temos as audiovisualidades da arquitetura de informação, que são construídas pelas possibilidades técnicas de construção de sites fundados no controle, o que parece ser uma herança do surgimento da Internet com a ARPANet e tudo o que isso implica. Um exemplo para visualizarmos melhor essa relação é o da ocupação dos EUA ao Iraque, na qual tivemos o episódio de uma van com crianças sendo alvejada por um míssil lançado por um helicóptero da Força Aérea. O único contato visual que os soldados tinham de dentro da aeronave com o alvo era feito por meio de uma tela que reproduzia imagens de uma câmera de longo alcance. Esta mesma câmera registrou todo este trágico episódio e o vídeo pôde ser visto no YouTube. Em ambos os casos há relação entre linguagens computacionais e audiovisualidades, ainda que sejam de naturezas absolutamente distintas.

Enfim, como quase tudo na vida, as audiovisualidades podem se atualizar, ou durar para usar o termo da pergunta, em arte – quando nos emocionamos vendo um filme dirigido por Chaplin ou mesmo na coleção de imagens que o Facebook faz no final do ano – ou em barbárie – quando os recursos audiovisuais são usados para assassinar pessoas. Daí, pensar sobre a técnica permite que compreendamos melhor nosso espaço no mundo e a que e a quem servimos. Em um mundo complexo e tecnocrático, minha pesquisa é apenas um grão de areia, uma faísca em dia ensolarado, que busca retomar a dimensão ética de nossas ações a partir das reflexões sobre a invisibilidade da técnica.

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