Metodologia carto-cerebral: atualizações de memória no Youtube

William Mayer voltou sua atenção para o maior repositório audiovisual, o Youtube, em parte por também ser realizador audiovisual. Graduado em Realização Audiovisual pela Unisinos e mestre em Comunicação, com orientação do professor Dr. Gustavo Fischer, é também roteirista, produtor e diretor de cinema e TV. O título da sua dissertação nos coloca uma pergunta: “Que audiovisual emerge dos bancos de dados?, nos convidando para uma experiência de afecção para com a já corriqueira mídia. Para tentar responder a essa pergunta, percorre conceitos tais como memória, imagem-corpo, youtubidade. A entrevista concedida por email que se segue instiga e antecipa a fala de William Mayer na primeira noite da 12a Semana da Imagem.

 

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Trabalhando com análise do Youtube, um arquivo em constante atualização, quais foram as dificuldades que tu encontrou na tua pesquisa?

Atualmente (na época da dissertação), são inseridas 48 horas de material audiovisual por minuto no YouTube[1]. Como seria impossível assistir a todos os vídeos, torna-se necessário um trabalho de seleção de materiais que, de algum modo, forneça a possibilidade de análise, de acordo com as proposições deste trabalho. Trata-se de vídeos que foram buscados e selecionados conduzidos por uma busca que ambicionava encontrar materiais audiovisuais que, de algum modo, exemplificassem as potencialidades da estrutura e do Banco de Dados do site e escolhidos devido a uma primeira impressão de que ali estavam contidas algumas características do Banco de Dados. Dentre estes vídeos, temos o show da Banda Radiohead[1], gravado com câmeras digitais da plateia e editado posteriormente pelas próprias pessoas. Há também um longa-metragem, realizado por um usuário do YouTube, feito com imagens do jogo de computadorGrand Theft Auto[2]. Há o caso do clipe da cantora Lilly Allen[3], com a música Fuck You, que teve um videoclipe feito por fãs e obteve tantas visualizações quanto o videoclipe original. Há os vídeos feitos com fotografias do flickr[4], disponibilizadas em Creative Commonspara os demais usuários. Há alguns observáveis mais simples, mas muito recorrentes no YouTube, como os fanmade vídeos, que são vídeos feitos pelos fãs. Há aqueles realizados por diversos fãs, como no caso da banda Paramore, onde há um clipe da música Only Exception, cantado por diversas pessoas. Já no caso do vídeo feito da música Born To Be Someone, de Justin Bieber, uma única fã fez uma coleta de imagens na Internet, de onde baixou as imagens disponíveis e editou seu próprio videoclipe, criando uma obra que nos apresenta alusões ao que seria um videoclipe. Uma informação importante no processo de coleta de materiais no site é que a própria estrutura de Banco de Dados demanda que a pesquisa acabe tendo de descobrir métodos de encontrar os vídeos. Através da barra de procura, do uso de tags, de vídeos relacionados, de busca por canais é que foram surgindo aos poucos os vídeos selecionados. É preciso assistir a diversos vídeos, deixar-se levar pelo fluxo de Banco de Dados, observando as imagens, procurando entender de que modo elas nos instigam enquanto espectadores/pesquisadores para descobrir quais os vídeos que destacam-se na procura. Com o surgimento constante de novos materiais, uma das dificuldades foi reduzir o número de vídeos para uma quantidade possível de ser analisada, e seleciona-los em categorias. Inicialmente, somos na maioria das vezes conduzidos pelos vídeos de maior acesso, que são os mais facilmente encontrados no processo, mas ainda assim revelam uma característica interessante para o trabalho. Porém, é na imersão e na descoberta de termos e tags usadas pelos usuários que começamos a descobrir esta nova linguagem que nos conduz a diferentes objetos. Termos como creative commons[1], collab (colaboração), fanmade (feito por fãs), databases (bases de dados), digital art (arte digital),foram importantes para o trabalho de busca dos vídeos. Trata-se de uma busca árdua e que demanda diversas horas de pesquisa, assistindo a inúmeros materiais que, na sua maioria, são descartáveis, mas uma procura intuitiva que requer em diversos momentos a incessante procura no Banco de Dados, descobrindo aos poucos como este se organiza. Cabe perceber em cada um dos observáveis como eles estão agindo diretamente sobre os demais audiovisuais. Como estes shows, longas-metragens e videoclipes podem alterar a estrutura dos audiovisuais dentro do YouTube. Portanto, nos interessa descobrir como é este Banco de Dados dentro do YouTube e como ele se atualiza nos audiovisuais inseridos no site. Interessa-nos identificar vídeos do YouTube capazes de representar nessa pesquisa a configuração de um diferente audiovisual dentro desta plataforma.

Fale um pouco sobre a metodologia carto-cerebral: como tu chegou até ela, quais procedimentos implica.

Ao iniciarmos uma pesquisa, aquilo que nos perturba, o nosso problema é o que realmente nos move até o nosso objeto. De algum modo, poderíamos dizer que escolhemos nosso objeto, pois ele nos instiga, parece querer nos dizer algo que, talvez, antes de nos debruçarmos sobre ele, não seríamos capazes de explicar. Talvez possamos chamar essa perturbação, esse sentimento de inquietude, de intuição, segundo conceito de Bergson (2006). É isso mesmo, uma sensação, uma impressão de que nosso objeto de estudo tem mais a dizer do que é possível ver em sua superfície. Foi necessário criar estratégias que fossem provenientes da relação entre memória e Banco de Dados e perceber na ação do site os observáveis que se destacavam. Foi através das tags que tivemos a chance de iniciar a procura dos observáveis, realizando inferências entre essas palavras-chave e o funcionamento do pensamento por associação do cérebro, pois, a partir desse movimento de troca entre memória e Banco de Dados, poderíamos perceber os movimentos entre usuário e máquina, inferindo sobre as distintas experiências audiovisuais que têm surgido no YouTube. Portanto, optamos por usar a cartografia como método intuitivo, a partir das proposições de Gilles Deleuze (1988), para identificar no site diversos audiovisuais que, de algum modo, estejam abarcados pela estrutura de Banco de Dados do site. É uma ação diferenciada, pois, ao optarmos por certos objetos a partir de uma ideia pré-estabelecida do que imaginamos ser o virtual, podemos nos debater com uma coleção de imagens que pouco acrescente ao trabalho. Contudo, não é esta a ideia. Nosso interesse é ter uma vasta gama de materiais diferenciados, onde possamos perceber as diversas maneiras que o Banco de Dados possui para se atualizar nesses audiovisuais.O YouTube é material potente neste sentido, pois é um objeto novo que se caracteriza por não estar finalizado, posto que é atualizado constantemente. O audiovisual no site também está sempre se renovando. Qualquer novo material inserido no site já é uma nova imagem dentro de um novo Banco de Dados. Trata-se de um processo de produção inacabado. Por outro lado, a cartografia não surgiu por si só na ideia de construir a metodologia desta pesquisa. Inicialmente, este conceito veio imbricado pela tentativa de compreender o YouTube como uma espécie de cérebro/memória capaz de armazenar diversas imagens, nem todas ativas constantemente, mas, ainda assim, armazenadas em um Banco de Dados. Foi nessa direção que encaminhamos os conceitos sobre Imagem-Corpo e de onde também mencionamos, segundo as proposições de McLuhan, que o Banco de Dados tornou-se uma extensão do cérebro humano. Extensão que permite ao homem armazenar mais informações do que o cérebro seria capaz, no entanto, utilizando ferramentas que se assemelham ao modo de trabalhar do próprio cérebro.A extensão cerebral, por outro lado, apresenta-nos um modo mais metafísico de intuir os objetos. Estamos associando aqui o cérebro ao computador, as nossas lembranças s memórias, ao Banco de Dados do YouTube. No dia-a-dia, socialmente, quando nos comunicamos, estamos acessando constantemente nossas lembranças de modo quase automático para qualquer tipo de ação, seja para escovar os dentes ou fazer uma prova. E é somente através do acesso a diversas lembranças e o modo como o cérebro as interconecta que conseguimos tirar uma boa nota em uma prova ou lembrarmos que é necessário escovar os dentes e, até mesmo, como devemos escová-los. “Existem tendências cujo estado se negligenciou e que se explicam simplesmente pela necessidade que temos de viver, ou seja, em realidade, de agir” (BÉRGSON, 1999:232). Por isso, é preciso apreender o cérebro não tão somente como um hardware, mas também como software, como corpo social que não armazena simplesmente a imagem, mas que a significa.Deste modo, acredita-se que assim como o nosso corpo (cérebro) dá sentidos imagem, como nosso cérebro corporifica esse novo audiovisual sem referencial, já mencionado na introdução; esta imagem do YouTube (Banco de Dados) disponível em códigos binários também é responsável por novos conceitos. A partir do acesso ao YouTube e do reconhecimento de aspectos do site que apresentam características próprias do Banco de Dados, temos compreendido o YouTube como uma extensão do modo como as imagens organizam-se em nossa memória.

Em quê os repositórios audiovisuais atualizam o conceito de memória?

Acredito que os repositórios audiovisuais atualizam o banco de dados e o próprio realizar audiovisual. Eu não chego a construir um conceito de memória. Faço relações entre banco de dados e memória (humana), memória coletiva. Ou seja, na verdade a construção é um pouco mais filosófica. Pois, assim como a nossa memória, a qual estamos sempre acrescentando novas informações e reformulando/atualizando nossas impressões sobre os ambientes. No banco de dados virtual, com o surgimento de novos materiais, há uma atualização constante de um audiovisual diferente que emerge do banco de dados. Seja através do usuário, do site, das potencialidades do software.
Como dialogam e como acontecem as relações entre imagem-corpo e experiência audiovisual no Youtube?
Parece inevitável que essas constantes atualizações, dentro ou fora do YouTube, estejam ocorrendo movimentadas pelo Banco de Dados e, mesmo que acabem saindo do aparelho, terminam por retornar, pois, ainda que as referências de cada meio ainda se mantenham, o Banco de Dados parece estar acima da ação de agir como meio de comunicação. Ele é o próprio meio ambiente onde tudo ocorre, onde as informações se atravessam e se modificam. O Banco de Dados, diferente dos demais meios que são extensões de ações físicas do homem, estende o pensamento, o cérebro. O objeto já não pode mais ser desligado do seu usuário. Não há somente uma imagem, mas uma Imagem-Corpo. O YouTube possui uma grande quantidade de materiais que são produzidos por usuários que acessam o site e aproveitam-se da estrutura de Banco de Dados. Usufruindo dos materiais disponíveis, do diálogo com outros usuários e das demais funcionalidades que o site oferece, esses usuários produzem vídeos que evidenciam que a estrutura do site influencia na maneira como esses vídeos vêm sendo realizados. Por exemplo, digamos que um usuário decida criar um vídeo com imagens dos últimos desastres ecológicos que ocorreram no mundo. Ele acessa o site através da barra de procura, assiste aos vídeos que contenham essas imagens, faz uma seleção dos vídeos que mais lhe interessa, baixa-os, edita-os em sequência e retorna a inserir o vídeo no site, podendo acrescê-lo de trilha, de textos, de narração, etc. Trata-se de um processo semelhante ao do nosso cérebro. Digamos que este mesmo usuário esteja comprando um presente de aniversário para sua mãe. Na hora de escolher, ele terá de acessar em sua memória inúmeras imagens/lembranças que irão auxiliá-lo a construir a imagem do presente mais adequado. Todavia, importa menos o presente de aniversário e muito mais a compreensão de que a maneira como o YouTube se organiza se assemelha ao modo como pensamos.

As lembranças, de acordo com Halbwachs (2004); Sepúlveda (2003); Bartlett (apud SEPÚLVEDA, 2003); Casalegno (2006), entre outros, são possíveis não apenas com fragmentos de memória individual, ou seja, estes autores afirmam que a memória é sempre coletiva, na medida em que o homem é um ser social, que mantém experiências com outros homens e que assim sua memória é formada em conjunto com memórias alheias. (AQUINO, 2007, p.3)

Portanto, mesmo que tentássemos referir que há uma distância entre a memória individual pessoal e a memória coletiva doYouTube, seria equivocado, se não levássemos em conta que construímos nossa memória tão somente através da comunicação, do diálogo, da experiência conjunta com outras pessoas/memórias. Desse modo, ao invés de acessar o YouTube através das referências do meu próprio corpo, aceito o computador como sua extensão, para ali encontrar através das tags disponíveis a imagem que estou procurando. Ainda que Hansen (2004) enfatize outros objetos empíricos para essa discussão, o que nos interessa nesta pesquisa é observar como essa dependência do corpo-memória se reflete nos audiovisuais-Banco de Dados, percebendo que essas imagens agora se atualizam em nossos próprios corpos e que o movimento se dá através de uma espécie de sinapse nervosa que une nossos cérebros ao emaranhado de números que compõe a estrutura tecnológica computacional.

Ou seja, não chego a fazer esta relação propriamente, pois a experiência do Banco de Dados, ou da criação de novos audiovisuais é intrínseca ao próprio processo, não se trata de um diálogo, mas de uma intersecção entre o conceito de imagem corpo totalmente ligado a própria experiência audiovisual no YouTube. Pois o modo como o YouTube é formatado, e os modos que são produzidos os vídeos, como assistimos, como interagimos, como o software influencia, todas estas questões fazem parte da experiência audiovisual, e esta experiência é compreendida através da ideia de que a imagem só se atualiza em função do próprio corpo, ou seja, ela só acontece pois há um ser capaz de experimentar e modificar o audiovisual. Sendo ao mesmo tempo, também modificado, e portanto, tendo em seguida uma nova experiência.

O que é Youtubidade?

A Youtubidade não é algo especificamente, ela é um conjunto de todas as inferências realizadas nos objetos de análise. Este verdadeiro audiovisual surge na própria maneira como o site é organizado, como cada ferramenta exerce uma função e, também, como cada usuário age dentro do site. Ou seja, emerge um audiovisual distinto que interdepende de ações do usuário, do Banco de Dados, da interface e, principalmente, de como cada um desses está modificando a experiência dentro do site, desde já selecionando quais materiais são potentes para constituir este audiovisual que emerge através da relação entre memória e Banco de Dados, dando a ver uma youtubidade que pode ser identificada nos movimentos de atualização do audiovisual no Banco de Dados, criando uma espécie de audiovisual-dado. Ou seja, não se trata de algo estanque, pronto, a Youtubidade é um conjunto de percepções que foram observadas no processo de escolha e análise dos vídeos.

 

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