Autor de Amateur e hyperactive fala sobre sua relação com o YouTube

Entrevista com Lasse Gjertsen

Músico, animador e videomaker norueguês, Lasse Gjertsen nasceu em 1984 e é considerado por muitos usuários do YouTube que comentam seus vídeos um dos grandes realizadores do momento. Seu vídeo hyperactive já teve 7.060.843 exibições, e Amateur 12.902.289. Na extensa autobiografia (extensa para os padrões dos perfis do YouTube) feita por ele próprio em seu canal, Lasse afirma ser alguém que constantemente tenta descobrir por que as coisas existem, inclusive por que existe o cérebro humano, ao mesmo tempo em que tenta usá-lo. Manifesta-se favorável s práticas ecológicas e é radicalmente contra a existência da propaganda. Diz acreditar no poder que o ser humano tem de moldar o mundo exatamente como ele quer e se revolta contra o poder nos modos em que é usado na religião e no consumismo. A conversa a seguir, que foi ocorrendo em troca de e-mails, mostra aspectos do perfil e do imaginário de um realizador autodidata que foi se programando pelo exercício audiovisual para estar sempre atento a novas ideias. Com uma visão de mundo positiva e atravessada de humor e de ironia, Lasse encerra seu perfil com uma lista de interesses: “minha mão direita, meu computador, filosofar, fazer vídeos, direção de cinema, compor música, animar, ser criativo, filmes, jogos, conhecimento, documentários, pornografia, dormir, sonhar, cair, beber, fumar, amar, odiar, ser um ser humano”.

Você é inteiramente autodidata ou tem também alguns “mestres” de referência do audiovisual e da música?

Eu sempre fui viciado em cartoon e animação e comecei a fazer pequenas animações de Lego quando tinha sete anos. Desde então, sou autodidata. Fui para escola, mas só aprendi uma lição de “como ser mal compreendido”. A única professora que realmente entendeu meu devaneio foi Tiina Mand, que lecionava no curso de animação na Møre Folk Highschool, na Noruega. Somos ainda bons amigos, apesar de não nos vermos há um ano.

Entre sua produção no YouTube, há dois vídeos que foram mais vistos que os outros: Amateur e hyperactive. A que acha que se deve esse “sucesso”?

Hyperactive foi apenas um pequeno experimento que fiz para ver o quão facilmente eu poderia editar beats a partir da gravação de vídeos. Um amigo subiu o trabalho na Internet e ele acabou no YouTube antes da Páscoa de 2006. Fiz Amateur para “finalizar o trabalho”, para realizar um vídeo que fosse um pouco mais completo. Acho que eles são populares porque são super simples

Como se dá o processo de criação de vídeos?

Depois de anos de trabalho criativo, eu, de alguma forma, programei meu cérebro para estar sempre atento a ideias. Então, de qualquer experiência ou aprendizado pode nascer uma ideia. Às vezes, me sinto como um rádio que assimila uma transmissão em forma de uma ideia. É bastante singular, porque parece que outras pessoas estão tendo as mesmas ideias ao mesmo tempo! Às vezes, uma ideia parece que está me fazendo lembrar algo do passado, só que, ao invés disso, essa memória vem do futuro. Eu escrevo todas as minhas ideias, até aquelas que são mesmo estúpidas, e geralmente combino muitas delas em uma única coisa. A maneira como eu faço os vídeos varia bastante, mas normalmente começa com algum tipo de ideia. Hyperactive começou com a ideia de um vídeo editando um ritmo, mas a gravação e a edição foram no mais puro estilo livre. O jeito que fiz simplesmente veio… sem muito planejamento. Meu curta Consoul, por outro lado, começou com “música”.

Fiz um trecho de música no estilo 8-bit e, enquanto eu o estava ouvindo, quando estava indo dormir, repentinamente vi o filme inteiro na minha cabeça. Isso foi tão incrivelmente legal, que eu quase não pude dormir, de tanto que estava ligado na ideia! Consoul já levou mais planejamento, uma vez que tudo teve que se parecer como gráficos de 8-bit, e porque a música e a animação precisavam andar de mãos dadas, assim como a história precisaria ser contada da forma mais eficaz possível. Escrevi uma espécie de roteiro para ela e joguei uma porção de videogames para me inspirar nas imagens. Quando trabalhei no filme atual, animei um pouco e então editei a música, depois animei mais um pouco, e assim por diante até que o material fosse concluído.

O curta no qual estou trabalhando agora, que será um diálogo engraçado baseado em um cartoon que expõe os aspectos negativos desses consumidores corporativos infernais que chamamos de sociedade, é mais convencional em termos de produção. Primeiro, eu e meu amigo Trygve Knudsen escrevemos o roteiro, depois gravamos as vozes e fizemos desenhos para uma animação, e, se conseguirmos dinheiro dos fundos de cinema aqui na Noruega, iremos começar a animar cena por cena até terminar. O filme durará cerca de 16 a 17 minutos, e nós precisaremos de 10 a 11 meses de produção para finalizá-lo, já que somos apenas dois fazendo todo o trabalho.

Para o YouTube, no último ano, foram três vídeos. Pelo visto você não é dos que vivem produzindo vídeos, pelo menos não para o YouTube. O YouTube paga bem uma produção como a sua? Aliás, qual seria sua relação “oficial” com o YouTube e como surgiu?

Não tenho relação com o YouTube. Disponibilizo meus videos de graça para as pessoas aproveitarem. Não tenho negociação com o YouTube, porque os acordos que eles oferecem não são bons. Não quero que as pessoas sejam bombardeadas por propagandas aleatórias e irritantes quando o que elas querem é ver o meu trabalho, e mesmo que eu fizesse isso, eu não teria muito a ganhar. Tenho contribuído em tornar o YouTube popular, assim como tantas outras pessoas, mas o YouTube tem dificultado minha comunicação com ele, tentaram realmente me banir por causa de alguns dos meus vídeos. Se houvesse outro canal, por exemplo uma versão tube-page do thepiratebay.org, eu escolheria este. Depois que o Youtube foi comprado pelo Google deveriam renomeá-lo, não é mais “You” é “TheyTube”.

Por que os acordos do YouTube não são bons? Você poderia dar um exemplo? De que maneira tentaram banir seus vídeos?

Se eu tivesse que ter publicidade nos meus vídeos, eu teria que ser MUITO bem pago. Há uma enorme quantidade de dinheiro no mercado publicitário, mas o YouTube só te deixa com as migalhas. Comparado com os padrões noruegueses, é até pior! Se eu consigo um milhão de acessos, o programa de parceria do YouTube paga aproximadamente metade de um salário mensal que eu receberia por trabalhar numa mercearia na Noruega. A minha integridade vale um pouco mais do que isso. Quando tentei contatar o YouTube através do site, eles não me responderam. Eles me baniram em 2007 depois que fiz o vídeo The Ultimate Suicide. De uma hora para outra, eu não tinha mais acesso minha conta. Por sorte, eu tinha o e-mail direto de alguém que trabalhava no YouTube (de uma vez que eles me contataram), e consegui consertar isso.

Você não aceita trabalhar para comerciais de jeito nenhum. Poderia explicar melhor sua filosofia sobre a propaganda?

Ser criativo nesta sociedade mercadológica é uma roubada, porque a criatividade é normalmente utilizada para a venda de produtos, o que eu acho muito primitivo. Na verdade, eu acho que fazer publicidade é pior do que prostituição. Se você é uma prostituta, pelo menos você não está tentando enganar ninguém e fazendo alguém comprar uma coisa que realmente não quer. Eu odeio isso no mundo, o fato de que toda a economia é baseada em pessoas tentando enganar umas s outras para dar a outras o dinheiro de alguém. Que tipo de circo estúpido é esse? Ah, sim, eles o chamam de democracia. Este sistema traz tanta dor e sofrimento que beira o insuportável. A comida num restaurante não apetece tanto quando você sabe que mais de 25 mil crianças com menos de cinco anos morrem de fome todos os dias por causa da pobreza. Dirigir um carro não é tão divertido quando você sabe o quanto ele polui, e que outras tecnologias, como a de carros elétricos, estão sendo suprimidas pela indústria do petróleo.

Entre as muitíssimas mensagens que recebe daqueles que assistem seus vídeos, gostaria de destacar alguma(s)? Sobre o que escrevem? Como é o retorno que eles dão?

A experiência mais positiva que tenho com o YouTube são os comentários e o feedback que recebo. Sempre que tenho um dia ruim, vou para meu canal de vídeos e leio os comentários. Eu realmente amo todas essas pessoas me dando tanta motivação e respeito para me fazer continuar. Obrigado!

A Cartoon Network copiou seu vídeo Hyperactive e você não conseguiu nenhuma indenização por isso? Houve outros casos de grandes empresas de mídia copiarem parte de sua obra?

Cartoon Network, assim como Disney e muitos outros, copiaram meus vídeos para vender seu entretenimento sem me pedir nenhuma permissão. Eles são, ou estão ligados, a enormes corporações, e por essa razão eu não tenho nada a dizer. Viva a democracia!

Em que projetos está trabalhando atualmente?

Somente naquele vídeo que mencionei antes. É um diálogo engraçado baseado em um cartoon que expõe os aspectos negativos das indústrias, a sociedade de consumo e todo o sistema monetário. Se conseguirmos fundos, completaremos o trabalho em meados de 2012.

Como é um “dia normal” para você? Quais são suas atividades mais comuns?

Um dia normal para mim, há um ano atrás, consistia em trabalhar em um jardim de infância, comprar comida e comê-la, e s vezes assistir a um filme ou a um documentário e depois ir dormir. Atualmente, depois de finalmente ter mais vídeos ofertados, eu levanto ao meio-dia, e sento com meu computador por um bom tempo. Quando eu trabalho “criativamente”, fico entre 9 e 12 horas por dia. Em parte, porque animação toma muito tempo, e em parte porque eu amo muito isso! Quando estou trabalhando, prefiro ouvir pessoas conversando ao invés de escutar música, porque a música se torna um pouco repetitiva quando você trabalha muito. Eu escuto audiobooks e seminários gravados de pessoas interessantes, como Terence McKenna e Richard Dawkins. Além disso, eu passo bastante tempo com minha namorada e futura esposa Ragnhild. Ela é Deus!

Qual é seu vídeo favorito no YouTube? Por quê?

Meu vídeo favorito no Youtube é Did you know?, porque é surpreendente.

Tradução: Dadylla Rabelo, Juliana Recart e Bruno Leites

Revisão: Cybeli Moraes

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1 Resultado

  1. Sonia Montaño disse:

    Adorei “conhecer” o Lasse através dessa entrevista. Além de conservar sua capacidade de estranhamento em relação a questões que estão tão naturalizadas que ficam fora de qualquer questionamento, ele mostra-se moldado pelo audiovisual. Parece pensar, sentir, agendar a vida audiovisualmente. Até suas críticas parecem uma denúncia de determinadas montagens éticas e estéticas, operadas numa imagem do mundo. Quase um cidadão antigo ou “naturalizado” nessa audiovisualização da cultura que está em gestação.