Da horizontalidade da rede à ubiquidade urbana e metodológica

Entrevista com Massimo Canevacci

Massimo Canevacci A metrópole comunicacional tecnodigital, móvel e flutuante, lança olhares sobre nós e nos desafia a olhar esses olhares, tornando-nos olhos – corpos que olham e que se deixam penetrar pelo estranho e inovador para poder ver. Na contemporaneidade emergem identidades mutantes, fakes, fetichistas, de “multi”víduos em cidades que não permanecem estáticas, e que incorporam restos da cultura tecnodigital que as tornam mais comunicacionais e menos industriais. Sobre estas questões se debruça quase toda a obra do antropólogo e pesquisador italiano Massimo Canevacci (A Cidade Polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana; Antropologia da Comunicação Visual; Culturas Extremas: mutações juvenis nos corpos das metrópoles; Fake in China). Canevacci propõe um complexo método de pesquisa que supera o dualismo sujeito/objeto e leva o pesquisador a treinar sua “porosidade corporal” para ir ao encontro de pessoas, obras, culturas com um olhar eróptico (ótico + erótico) numa etnografia ubíqua que supera outra dualidade: tempo/espaço. O pesquisador falará da sua proposta metodológica para pensar as imagens na abertura da XI Semana da Imagem na Comunicação, no dia 20 de maio, s 20h, no Auditório Central da Unisinos.

Numa conversa por email, o palestrante responde algumas questões propostas pelo blog do TCAv.

Qual é o significado cultural de estarmos sempre “conectados”? Como essa experiência reinventa a cidade, as imagens que produzimos e consumimos?

Estar sempre conectado é parte das identidades mutantes da contemporaneidade. Um desejo, s vezes quase obrigatório, mas que tem um lado cintilante e viajante (vagante) que favorece esta contínua invenção, produção, destruição, recriação das conexões entre subjetividade e metrópole na constelação móvel e flutuante da experiência cotidiana. O futuro já é um contínuo a incorporar o tecnodigital. Minha irmã, de 80 anos, decidiu comprar um iPad e me enviar uma foto de Roma. Ela fala comigo via Skype. São sinais de que tudo o que é dado pode ser reinventado e – pra usar a palavra-chave – aumentado. A realidade aumentada não é mais realista.

Quais as características mais comuns nas imagens que emergem do processo de globalização das mídias e das culturas?

Eu não gosto de usar a palavra mídia pra falar da web-cultura. A mídia tem uma história, que todo mundo conhece (que remete ao conceito de mass-media, de mediação, de centralização, de reificação, domínio, verticalização etc.). A web-cultura, a partir de Tim Berners-Lee (o grande inventor do www, cuja imagem deveria ser o logo da nossa semana) é um processo de horizontalização sempre mais potencial e conflitual da comunicação das imagens, onde cada indivíduo pode elaborar a sua visão de mundo própria, autônoma. A horizontalidade da rede é característica do digital. Isso significa que é independente e deveria ser ainda mais. Nas suas palavras: “Uma maior abertura, responsabilidade e transparência no Governo dará s pessoas maiores possibilidades de escolha e será mais fácil para os indivíduos estarem diretamente envolvidos nas questões que interessam a eles”.

Você ainda acredita que para decifrar as imagens “devemos nos tornar olhos”, como defende no livro Antropologia da Comunicação visual (2001)?

Sempre mais olhos; um corpo cheio-de-olhos! Claro que não pretendo diminuir a função de outros sentidos (olfato, tato, paladar, audição), mas em primeiro lugar, acho que os sentidos não são cinco, mas uma expansão contínua de sensorialidades misturadas. Em segundo lugar, nós vemos não só com os olhos, mas com o corpo inteiro. Assim como as imagens nos olham aparentemente sem olhos, mas claramente com muitos olhares. Seria interessante elaborar uma constelação de imagens que - a partir de cada participante da semana - nos olha. Por exemplo, o anel e os sapatos (fake) do papa; a arquitetura (filosófica) de Zaha Hadid; o canto/choro (meta-morfico) de José Carlos; a escultura de gelo descongelante (temporário) de Néle Azevedo; a modelo (fetish) Coca Cola Clothing no Fashion Rio; o circuito (digital-livre) Fora do Eixo.

Você tem um convívio de longo tempo com a cultura Bororo. O que poderia apontar sobre o modo deles construírem suas próprias imagens?

A cultura Bororo é um caso emblemático que conecta cultura e comunicação numa perspectiva perturbadora. A influência salesiana mudou e ainda muda profundamente esta cultura também na relação da construção das imagens. Nesse sentido, existem muitas diferenças entre jesuítas, franciscanos e salesianos (três ordens diferentes da Igreja católica). Os últimos apresentam muitas dificuldades de se renovar e de aceitar a diferença simbólica sem reconduzi-la a um parâmetro cristão. A humanidade Bororo é igual só enquanto idêntica quela imaginada dos salesianos. Diferença é um desafio ao conceito político, lógico, e teológico baseado sobre o princípio de identidade.

Poderia explicar um pouco o seu conceito de “fake consumers” desenvolvido no seu livro Fake in China (2011)?

O conceito de fake não se pode traduzir como falso. Na obra fundamental de Orson Welles – F for Fake – ele afirma que as artes são sempre determinadas pelas instâncias de construção. Nesse sentido, uma obra de arte nunca é realista, mas sempre uma transfiguração estética do sentir. Fake é um conceito que puxa as artes além do dualismo. Fake é um mix de falso/verdadeiro. Assim, fake é parte da constelação de fiction, outra palavra inglesa de origem latina que não significa – de novo – falso ou inventado, mas elaborado, produzido, construído. Deriva da fictio, fazer… e fiction como fictio é no fim facticius (sempre do latim facere). Facticius é a matriz do fetiche. Os fetichismos não são falsos ídolos, resultados do pensamento mágico ou pré-lógicos, mas uma extraordinária tentativa de misturar objeto e sujeito. De novo uma perspectiva além do dualismo. Claro que os fetichismos são também o resultado reificado de um sistema de trabalho nas condições capitalistas. Mas acho que não são só isso. No “corpo” do fetichismo (eu gosto de usar a palavra body-corpse, mistura transitiva de corpo vivo e corpo morto) se manifesta uma grande utopia de muitas culturas humanas: a metamorfose. A metamorfose é uma elaboração (fiction) de um desejo “enorme” de mudar identidade e forma, não somente no carnaval! Assim, eu quero elaborar uma visão onde meta-fetichismo e meta-morfose dialogam, sincretizam, expandem o que ainda não é. O trânsito conclusivo é mais ou menos assim: o fake é uma fiction difundida por fetichismos que tem a potencialidade de praticar o além do dualismo e de realizar temporárias metamorfoses. Tudo isso se manifesta não somente na cultura estética ou na comunicação digital, mas também no consumo performático. Contrastando o moralismo ressurgente contra o consumo em geral, eu queria prospectar dimensões possíveis onde o consumo seja reinventado por cada “multi”víduo, isto é, reelaborado e ressignificado nas práticas de um consumidor não mais passivo, mas sempre mais performático e co-construtivo, co-autor, co-ator.

Por que se torna necessário e ao mesmo tempo é tão difícil decifrar as imagens na metrópole comunicacional contemporânea?

O desafio é baseado nas tensões entre os panoramas metropolitanos mutantes e a expansão irresistível dos panoramas flutuantes digitais. Aparentemente, a metrópole é estática e o digital móvel. Mas não é assim: se a gente utiliza as metodologias etnográficas que focalizam os detalhes mais micrológicos das transformações urbanas, a estabilidade metropolitana é mais uma herança do passado. Numa infinidade de signos e símbolos, os espaços e também os interstícios incorporam restos expandidos pela comunicação digital. E por isso a metrópole vira sempre mais comunicacional e sempre menos industrial.

Quais são os procedimentos metodológicos que, conforme sua experiência, tornam-se necessários para abordar as imagens contemporâneas?

Recentemente elaborei um pequeno esquema em pílulas do método etnográfico que posso resumir aqui. A metodologia – aplicada nas relações entre metrópole comunicacional e culturas digitais – são baseadas sobre o processo de conectar pesquisa, didática, indisciplinariedade. Ela passaria por diversos momentos. O primeiro seria o estupor corporal: um treino pela porosidade corporal em relação a um potencial encontro com pessoas/culturas/obras desconhecidas ou estranhas e que justamente por isso são desejadas. Pesquisadores precisam treinar a própria inteligência corporal, a ser colocada no liminar do estupor: assim é possível penetrar e ser penetrado por aquilo que acontece de estranho e inovador sem se fechar na sua própria normalidade. A metodologia do estupor é básica e se conecta com o ponto seguinte. Esse momento seria o olhar eróptico: um mix de óptica e erótica que também deve treinado. A capacidade do pesquisador de “fazer-se-olho” durante a pesquisa eróptica é uma sensibilidade conceitual que abre a janela da pupila em direção sensualidade perigosamente sedutora e deslocante pela formação do pesquisador. Este mesmo olhar precisa virar oblíquo, mais do que frontal. A etnografia ubíqua: seria o desafio das metodologias antropológicas contemporâneas materiais/imateriais além do dualismo em relação s clássicas dicotomias espaço-tempo, natureza-cultura, público-privado. A ubiquidade é parte constitutiva da experiência contemporânea, também na relação do pesquisador com outros sujeitos (e não mais “objetos”) da polifonia etnográfica. O maior desafio se coloca no trânsito da simultaneidade ubiquidade, onde os espaços temporais se misturam. Temos assim montagens-de-fragmentos: o prazer da montagem desenvolve reflexões teórico/práticas de G. Bateson, W. Benjamin, T. Mann etc., aumentadas na conectividade digital. É impressionante verificar como um autor clássico, como Mann, aplica o leitmotiv, inventado por Wagner – uma sorte de montagem acústica grudada em cada personagem – na sua escrita, até reivindicá-lo como método não só literário, mas “filosófico”. Por outro lado, uma etnografia dos fragmentos não é só relacionada s vanguardas do início do século passado: vira uma lógica compositiva aumentada pelo digital. Podemos pensar assim na composição polifônica: desejo de desenvolver uma prática experimental de misturar formas narrativas diferenciadas na elaboração processual dos resultados da pesquisa através de textos (ensaios, contos), visual (foto, vídeo, blog etc.), artes (música, design, performance); a composição se mistura com outro conceito clássico de opus pra desenvolver maneiras dissonante polifonicamente de apresentar os resultados da pesquisa e por uma metodologia da didática que não seja mais baseada só nos livros e na lógica linear subjacente.

Assim, constitui-se uma grade flexível onde o pesquisador pode colocar:

1. Quadro teórico de referência: que define e delimita onde se insere em linhas gerais da pesquisa e também as motivações;

2. Universo (fieldwork): o contexto minucioso em que se baseia a pesquisa;

3. Hipótese: no sentido plural e móvel, que se transforma processualmente e que é elaborada antes, durante e depois;

4. Indicadores: elementos empíricos selecionados com um critério criativo, através dos quais é possível capturar o que estamos pesquisando: os primeiros constituem uma grade que seleciona os dados empíricos a partir de algumas premissas; os segundos são baseados na capacidade de atrair os olhos, a eróptica, através de uma concentração ou antecipação de códigos fetichistas incorporados;

5. Mapa e território: não existe coincidência entre os dois e o território explorado pelos indicadores elabora, desenha progressivamente o mapa conceptual que comunica enquanto produz diferenças;

6. Metodologias aplicadas: observação participante, observação observante, auto-representação, inter-subjetividade dialógica;

7. Comparação e montagem: cada indicador pode ser também um parágrafo da pesquisa. Elaborando uma comparação final é possível elaborar uma conclusão parcial ou, renunciando a esta comparação que já causou enorme arbitrariedade, apresentar a montagem dos elementos empíricos descobertos como solução que cada pessoa pode interpretar como quiser;

8. Composição: os resultados finais, como já apresentado, poderiam se colocar numa composição que assimila o texto da pesquisa a um livro de ópera, com as músicas de cada instrumento aumentado graças s imagens e outros códigos prelevados momentaneamente da ubiquidade.

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