Erick Felinto, Grumpy Cat e a lógica dos memes

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Fazendo uma comparação entre os memes da internet com o budismo, Erick Felinto proferiu a segunda palestra da XI Semana da Imagem na Comunicação, na terça-feira (21). Intitulada Grumpy Cat: Grande Mestre Zen da Geração Digital (Afetos e Materialidades da Imagem Memética), sua apresentação trouxe questões como a viralidade na web, a arqueologia das mídias, o ruído e o ativismo político.

“É possível fazer uma reflexão densa e filosófica sobre as coisas mais toscas que se pode imaginar, como é o caso do Grumpy Cat”. Iniciando sua palestra com essa colocação, Erick Felinto relacionou características do budismo, como o humor zen, o bizarro, a iluminação e a coincidência de opostos, com os memes da web. Quando as imagens de Grumpy Cat trazem frases com antagonismos (por exemplo “uma vez eu me diverti e foi horrível”), ou seja, com um humor agressivo e seco, elas se aproximam da lógica do zen. Um exemplo citado pelo pesquisador foi a frase “prazer na tristeza, tristeza no prazer”, utilizada pelos budistas.

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Para entender como surge o fenômeno do Grumpy Cat, Felinto fez uma arqueologia da relação entre gatos e internet. Segundo ele, existem explicações científicas para a fixação e imaginário com os gatos. O site 4chan, de compartilhamento de imagens, teve papel fundamental para a difusão da mitologia felina, de acordo com o pesquisador. No entanto, essa fixação surge como algo “fofo”. Todas as imagens de gatos difundidas na web trazem esse teor. “Quando Grumpy Cat surge, ele se coloca no lado oposto dos gatos ‘fofos’. Tensiona sem propriamente negar os valores ligados aos memes da internet (coletividade, humor acrítico, anti-intelectualismo). Suas frases parecem sempre de cansaço, de mau humor, mas também são de dimensão filosófica”, nas palavras do palestrante.

icanhascheezburgerErick Felinto propôs ainda uma classificação das imagens de Grumpy Cat, assim definida: metameméticas; citacionais; narrativas; jornalísticas; filosóficas e orientadas ao leitor. Porém, o pesquisador explicou que essa foi apenas uma brincadeira, uma vez que é contra categorizações e a ideia de que elas são suficientes para explicar as coisas.

A relação entre indústria, capitalismo e marketing também foi resgatada por Felinto na palestra. Mostrando um comercial da marca de comida para gatos Friskies, ele afirmou que os memes da internet são apropriados pelo que chama de neuromarketeiros, pessoas que tentam reproduzir o efeito viral dos memes através de técnicas artificiais. Contudo, não se trata de uma imagem apenas, mas de uma sensação. “Esses neuromarketeiros não estão preocupados com o sentido, mas com os afetos criados pelas técnicas de marketing. O neuromarketing trabalha com a materialidade dos sentidos. Passaram da fase do significado para a dimensão do corpo. Não é caracterizado por uma racionalidade”, disse.

Propondo uma arqueologia sobre os memes, Felinto explicou que o termo foi traduzido da biologia e da genética para a cultura digital. “Da mesma maneira que o gene se reproduz, meme é um conceito que se traduz na ideia de passar de um meio para outro”. Segundo o pesquisador, o meme faz sucesso quando divulgado por alguém com capital simbólico, mas é mais interessante quando é um acidente. “Falar de meme e Grumpy Cat é falar do ruído. Memes são inesperados. Quem iria esperar que da figura fofa do gato iria sair o Grumpy Cat?”, questionou.

Para finalizar, Felinto traz duas conclusões que explicam a viralidade. A primeira, de que o que se reproduz é a própria reprodutibilidade, um desejo de compartilhamento, mas sem objeto definido, sem ser da ordem da representação, mas de ordem afetiva. E a segunda de que os acidentes, os ruídos do ambiente digital, constituem o cerne da cultura contemporânea. “Vírus e vermes talvez não sejam anômalos, mas revelariam a ecologia digital específica da nossa vida no ambiente virtual”.

 

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