Heróis e vilões: as alegorias de poder do cinema policial é o tema no segundo dia da Semana da Imagem

tropaRealizada pela linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, a 12ª Semana da Imagem vai para seu segundo dia nesta quarta-feira dia 14 de maio. O evento ocorre no Miniauditório do Centro de Ciências da Comunicação, s 20h se estende até quinta-feira (15) e apresentará pesquisas desenvolvidas por mestre e doutores.

Dentre os pesquisadores relacionados está João Martins Ladeira que falará sobre a relação do cinema com as formas de poder, especificamente pela ótica do gênero policial e a suas figuras antagônicas herói (policial) e vilão (bandido). Para o pesquisador, tal gênero é tratado com desdém, embora “os filmes de bandidos e mocinhos organizem uma ansiedade fundamental: dizem respeito a alegorias de poder, do mesmo modo que se produziu alegorias de poder em outras ocasiões.”

Assim, para sabermos melhor do que João Ladeira abordará nesta semana, realizamos uma entrevista que pode ser conferida mais abaixo.

Bem, é interessante a proposta levantada por você, ao discutir o poder a partir do entretenimento e da estética. Como surgiu essa ideia e como o entretenimento, no caso o cinema, se relaciona com a esfera do poder?

A ideia surge da seguinte percepção. Sempre me irritou profundamente aquela postura arrogante de que o cinemão, aquele que as pessoas veem e com o qual elas se envolvem, era uma coisa sem sentido, entretenimento barato, aquele arrazoado todo que a gente já conhece. Ora, se as pessoas saem de casa para ver esse tipo de história é porque ela significa algo! Particularmente, acho que tudo na cultura possui sentido. Se nós não conseguimos entendê-lo, o problema não é da pintura, do filme, do livro: é preguiça mental nossa…

Acho que a relação entre o cinema policial e o “poder”, palavra difícil, vem do fato dele encarnar alguns medos fundamentais. Esses medos não estão na superfície: ao contrário, localizam-se bem lá no fundo. Nós temos que ir atrás deles. A coisa toda é meio pesca submarina, sabe? O crime representa sempre outro mundo, muito perigoso, mas que está ai. O policial precisa colocar o bandido na linha: ele é a autoridade por definição. Curiosamente, o tira nunca segue a lei ao pé da letra. Algumas vezes, ele a executa por razões pessoais. Robocop quer encontrar os bandidos que retiraram sua humanidade; Axel Foley (Um Tira da Pesada) quer achar o sujeito que matou seu melhor amigo; Frank Bullitt (Bullit), também etc. Ele pode até quebrar a lei no meio do caminho, se isso for necessário. E, quando segue a lei, normalmente o investigador termina tão obcecado com sua tarefa que não mede as consequências: dá-se a impressão que se pode descambar para o lado de lá a qualquer segundo. Solucionar o crime é como a tentativa de um médico de encontrar o diagnóstico, mesmo que você tenha que matar o paciente para isso: Jimmy Doyle, Cobra, Dirty Harry… a lista é longa e reflete uma questão presente desde a Oresteia: e se a justiça for apenas vingança?

O gênero policial é uma categoria bastante presente no cinema brasileiro, embora o cinema norte-americano já tenha uma tradição. No entanto, ambos gêneros são distintos. No caso do cinema brasileiro como se relaciona o poder?

Você acha o cinema policial presente no Brasil? Eu discordo… Somente de uns tempos pra cá começamos a flertar com esse tipo de filme. Claro, existe alguma coisa aqui e ali: Federal, Alemão e, é claro, eu tenho certeza que você via me perguntar sobre esse filme, Tropa de Elite. Algumas pérolas do passado fazem parte do gênero: A Rota do Brilho, com o inesquecível Alexandre Frota. Mas, no Brasil, falar sobre polícia é tema delicado. Veja o Bandido da Luz Vermelha: os heróis são malditos; o marginal, alado. Curiosamente, o irmão gêmeo do filme policial, aquele que se concentra no “fora da lei”, também nunca teve grande repercussão entre nós. Sinceramente, eu acho a questão do filme policial no Brasil muito confusa, e por uma boa razão: nós não sabemos o que fazer com imagem do “tira”.

Ainda em relação ao cinema brasileiro, um caso interessante, e tocando no assunto como você havia previsto, é o filme Tropa de Elite, o Tropa de Elite II – o inimigo agora é outro e o Cidade de Deus. No caso deste, parece haver uma romantização do crime, com dizeres que ecoaram no público, como “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno”. Já no Tropa de Elite, uma tentativa de alçar a força militar a uma relação diferente com a sociedade, a polícia civil corrupta contra um Batalhão de Operações Militares incorruptível. O que há de metáforas, significações nessas relações?

Acho que existe a glorificação do bandido sim, mas não apenas isso. E, ao mesmo tempo, a questão da corrupção esconde algo mais. “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno” é a frase mais incrível do cinema brasileiro, e eu adoro Cidade de Deus. Mas esse é um filme de gangster, não um filme policial. A questão é: o filme policial precisa do policial, e Cidade de Deus trata do “lado de lá”. Parece mais Os Bons Companheiros ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes. São gêneros diferentes. No cinemão, o mundo do gangster é uma sociedade incrível, quase perfeita: as regras estão na mesa e existem duas preocupações. Descobrir quem pode fazer parte da gangue e, neste caso, não se desviar das regras; ou quem vacilou e, quebrando estas leis quase sagradas, e merece ser punido. Mas, no final, a “justiça”, do lado de lá, sempre permanece. Lembre-se de O Poderoso Chefão, em que a questão é a passagem do papel de padrinho de Vito para Michael. Claro, há exceções: O Pagamento Final, em que tudo acaba mal. Mas, no caso de Cidade de Deus, Zé Pequeno morre na mão da Caixa Baixa! Mané Galinha, também termina morto! De novo, no Brasil, a questão do filme de crime, no qual se encaixam o policial, de um lado, e o gangster, de outro, é muito complicada. No caso do Tropa, a coisa ainda é mais perigosa. Tropa II é um filme político, parece mais Costa-Gavras que Don Siegel. Por isso, o foco nas intrigas do poder e na corrupção. O cinema político é um outro gênero, com suas regras próprias. Porém, Tropa I é um filme de tira, um legítimo exemplar desta linhagem. Mas a reação foi tão complicada, com o Capitão Nascimento sendo acusado de fascista etc… eu já pensei muito sobre ambos os filmes e confesso que não consigo achar uma saída. Eles não se encaixam nos modelos do cinemão, do mesmo jeito que tudo na periferia parece nunca se encaixar no modo de encarar a vida que veio do centro. Neste caso, estou falando um pouco de Roberto Schwarz e do famoso Ao Vencedor As Batatas. No filme policial, o tira, por mais complexo que seja, por mais que represente a contradição da justiça como bem coletivo e gozo pessoal de vingança, sempre ocupa o centro da narrativa. No Brasil, não dá pra pensar assim. Se você me permite fazer uma propaganda, tem um texto meu sobre isso de anos atrás: http://geradorauxiliar.wordpress.com/2011/01/06/tropa-de-elite-um-debate-sem-fim/, mas, sobre essas contradições no nosso país, eu continuo tão confuso hoje quanto na época.

O que você quer dizer com “Os filmes policiais são mais complexos: eles lidam com a nossa compreensão sobre a autoridade, mas fazem isso nos dando a impressão que nos divertem.”?

No cinema policial, em qualquer cinema, como em qualquer pintura, livro etc. a história não importa, a narrativa é secundária. O que importa são os elementos ai presentes que, alegoricamente,

retomam outro tema e, por sua vez, outro tema, num fluxo infinito de questões. Mas eu acho que a questão central que volta sempre e sempre é essa: a justiça e a vingança. Nisso o filme de tira é imbatível.

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