Imagens, olhares, memória e “cibercultura”

erickfelintoEntrevista com Erick Felinto

Com o tema Grumpy cat, Grande Mestre Zen da Geração Digital (Afetos e Materialidades da Imagem Memética), na segunda noite da XI Semana da Imagem na Comunicação o pesquisador Erick Felinto promete uma abordagem filosófica dos memes que circulam nas plataformas de compartilhamento de vídeo. A palestra, que acontece no dia 21 de maio, s 20h no Auditório Central da Unisinos, tensionará uma perspectiva dominantemente antropocêntrica que caracteriza a visão de mundo ocidental. “A questão é repensar o olhar humano, a maneira como a gente vê e submete tudo o que está fora do sujeito a esse olhar dominante. Eu acho que a Semana da Imagem traz uma virada epistemológica em que podemos tentar fazer exercícios imaginativos e pensar como as coisas nos veem, como elas devolvem o nosso olhar. É um tema forte da epistemologia contemporânea”, defende o professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UERJ e autor de “A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica” (Ateliê Editorial, 2008), “Avatar: o Futuro do Cinema e a Ecologia das Imagens Digitais” (com Ivana Bentes: Sulina, 2010) e “O Explorador de Abismos: Vilém Flusser e o Pós-Humanismo” (com Lúcia Santaella: Paulus, 2012), entre outros. A entrevista a seguir apresenta trechos de um conversa por Skype com o pesquisador, sobre diversos aspectos de sua pesquisa e das teorias da comunicação que tentam explicar a cultura digital.

 

Em que consiste sua pesquisa sobre cartografia da cibercultura?

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica para mapear campos de estudos, conceitos, autores. É uma espécie de metateoria, no sentido de pensar de que maneira as teorias, as correntes, os conceitos, as afiliações ideológicas, os autores se agrupam em conjuntos que pensam a questão tecnológica. Quando se trabalha com “cibercultura”, naturalmente o primeiro universo linguístico e cultural é o anglo-saxão, a literatura em inglês. Neste segundo momento, estou mapeando o pensamento alemão que apresenta uma série de singularidades.

 

Essas seriam duas linhas de força bem diferenciadas uma da outra nateorização da cibercultura?

Não podemos falar de uma teoria da mídia americana, especificamente, nem de uma teoria francesa. Mas a teoria da mídia alemã tem se popularizado nos últimos anos, com uma produção teórica crescente e com uma história específica. Na verdade, desde a noção de cibercultura, até a própria palavra, nunca se consolidaram como um fenômeno muito claro de se identificar nos estudos de mídia alemã. No contexto norte-americano e francês, por exemplo, o conceito envolve uma separação radical entre analógico e digital, que, no contexto alemão não existe. A minha pesquisa, inicialmente, era um projeto mais genérico, uma questão mais no imaginário da cibercultura nas bibliografias francesas e inglesas, principalmente, e um pouco das brasileiras. Quando cheguei nos estudos da mídia alemã vi que eram teorias chave porque esses estudos ajudam a repensar alguma questões de fundo sobre a cibercultura.

Quais seriam essas questões?

A perda da temporalidade, por exemplo, que é algo muito forte no discurso e no imaginário da cibercultura. A ausência de uma história e de uma memória ao pensar o digital em relação aos paradigmas tecnológicos anteriores. Há geralmente um discurso da inovação constante, mas ele próprio – o discurso – não é novo. Estudando a história dos paradigmas tecnológicos, vemos que ele se repete continuamente. Discursos incrivelmente parecidos aos que falavam da invenção do telégrafo no século 19, falam hoje sobre a invenção da internet. A teoria da mídia alemãtenta superar essas questões. É claro que falar em teorias da mídia alemã é uma certa etiqueta cômoda para pensar os conceitos de autores que têm alguma convergência e para mim ela reúne três eixos que acho importante para pensar o presente. O primeiro deles é a questão temporal, uma história mais longa e profunda sobre o tempo, que é diferente da história típica da cibercultura.

A teoria alemã traria, então, uma superação dessa visão historicista das mídias?

Com certeza. É umahistória um pouco nos moldes foucaultianos. Não é uma história teleológica, não é finalista. Ela é feita de rupturas, retornos, convivências de temporalidades diversas. Então é outro tipo de temporalidade que não passa por aquele discurso triunfalista típico da cibercultura ou de vários outros discursos popularessobre tecnologia. Esse seria um eixo; a questão da arqueologia, do tempo profundo.

E os outros dois eixos além da temporalidade arqueológica, quais seriam?

O segundo seria a questão da materialidade tecnológica: o corpo, a materialidade da imagem, como a imagem é consumida em uma dimensão material, mais do que hermenêutica. E o terceiro eixo seria a questão do meio, a definição do meio, o que é a medialidade. Épensar filosoficamente, pensar densamente o que significam os fenômenos de mediação. Normalmente, esses conceitos de meio e mediação, aparecem na literatura como se fossem coisas transparentes, como se fossem algo evidente, como se todo mundo soubesse o que é um meio. Mas devemos nos perguntar sobre essa relação do sujeito com o aparato; esse entrelaçamento do corpo com o tecnológico e pensar o corpo também como meio. O conceito de meio ou mídia, na Alemanha, é muito mais amplo e rico em sutileza filosófica que normalmente a gente encontra em outras literaturas. A materialidade, a temporalidade, a medialidade, são três eixos que compõem um panorama do que tem emergido como questões fundamentais dentro da epistemologia contemporânea das ciências humanas. Encontramos essas questões não só no campo da comunicação, também está no campo da filosofia como questões emergentes; na sociologia, na antropologia. Nas obras de autores como Bruno Latour, por exemplo, esse movimento vêm sendo descrito como filosofia oriental dos objetos. Enfim, essas representam para mim algumas tendências importantes do pensamento contemporâneo, uma espécie de onda epistemológica das ciências humanas.

Esses três eixos poderiam nos ajudar a construir um olhar diferentesobre as imagens, talvez uma teoria das imagens?

O que é interessante aprender com esses novos paradigmas é uma maneira de ler as imagens e ver, por exemplo, o cinema ou a televisão a partir de uma combinação entre matrizes mais hermenêuticas, mais tradicionais, como a análise do discurso, combinadas com uma tentativa de verificar que tipo de impacto a imagem traz na sua dimensão material, como o corpo é afetado pela imagem. Também pensar as imagens na sua materialidade tecnológica. Quero dizer que não dá para pensar um vídeo na internet ou um vídeo projetado numa sala de cinema, como se elas fossem a mesma experiência. Há duas configurações espaciais diferentes, duas configurações corporais diferentes que devem ser consideradas. Pensar as imagens como radicalmente ligadas ao suporte material e radicalmente ligadas ao sujeito enquanto corpo, não enquanto “espírito” ou como uma dimensão meramente intelectual, interpretativa.

Você destaca as materialidades quando há uma tendência das imagens passar pelos mais diversos suportes desde paredes ao próprio corpo. O conceito de materialidade parece ser um pouco mais amplo que a matéria propriamente dita?

Com certeza. Quando começou toda a onda do digital, das mídias digitais e até da própria cibercultura como um todo, os discursos iam muito em direção da perda do suporte, da imaterialidade. O próprio corpo também, do internauta, do espectador, ele desaparecia como uma coisa que era absorvida nos bits e bytes dos computadores. Mas nosúltimos 15 ou 20 anos, a literatura mais interessante que tem aparecido sobre a questão da imagem vai na direção oposta de se mostrar como o corpo se engaja ativamente com essas experiências de realidade virtual, das imagens digitais e até experiências bem radicais, artísticas. Esses vários autores tem trabalhado nos últimos anos para mostrar o engajamento do corpo e da materialidade com as imagens digitais e acho que isso não é a toa. Talvez seja porque vivemos em um momento no qual o discurso sobre a imagem, sobre o digital, era um discursoextremamente “espiritualista”, apontando para o imaterial. Agora testemunhamos um movimento inverso. O corpo se tornou, nesses últimos anos, um dos objetos privilegiados, mais populares das ciências humanas. A bibliografia que existe sobre questões como corpo e tecnologia, corpo e digital, é impressionante. Acho que também é uma reação aquele imaginário anterior que via a cibercultura como o reino do imaterial, do intelectual, do “espiritual”. Agora a tentativa é de mostrar as diferentes maneiras de como o corpo material, físico, se engaja com o aparato tecnológico, mesmo no momento em que, primeira vista, possamos ter a impressão de um domínio da imaterialidade. A materialidade é mais ampla do que podemos tocar e sentir. Material é tudo aquilo que provoca uma afecção,perturbação no meu corpo.

Para encerrar, poderia comentar o que lhe sugere o tema dessa Semana da Imagem “Para entender as imagens: como ver o que nos olha”?

Eu vejo isso como uma perspectivação do olhar, porque o nosso olhar foi condicionado durante séculos de história a ter uma perspectiva inteiramente antropocêntrica. A questão é pensar o que é o olhar humano, um olhar que vê e submete tudo o que está fora do sujeito a esse olhar dominante. Eu acho que essa perspectiva traz uma virada epistemológica que podemos tentar fazer, exercícios imaginativos de pensar como as coisas nos veem, como elas devolvem o nosso olhar. Esse é um tema forte da epistemologia contemporânea. Disso tratam autores como Bruno Latour e o próprio Vilém Flusser. Na obra do Flusser se enunciam uma série de pistas eelementos que tem uma relação profunda com, por exemplo, a ontologia de Bruno Latour, na qual as coisas, os objetos, as tecnologias, elas respondem, atuam, interferem no mundo humano, elas têm agência. É um exercício importante para descentralizar o pensamento. Existe uma necessidade de sair dessa prisão dasubjetividade, descentrar o pensamento e tentar ir para outro lugar, o lugar das coisas e da tecnologia, e tentar entender que olhar é esse. Que olhar é o das câmeras, o dos aparatos que filmam, que registram? Que tipo de olhar é esse diferente do nosso olhar humano? Até entendo que muita gente tenha resistência a questão da materialidade, de perspectivar esse olhar, porque ainda não temos metodologias muito claras de como fazer isso. Essa é a grande questão, comofazer uma investigação sobre a imagem numa dimensão material. Não temos pistas, só algumas intuições, algumas propostas. Não existe ainda uma metodologia totalmente clara, se é que ela vai existir no sentido clássico da palavra. Entendo a resistência, mas acho que a questão não é abandonar os antigos paradigmas ou deixar as metodologias clássicas para trás, mas tentar contribuir com novosolhares, com novas perspectivas de pensar o mundo de um modo diferente daquilo que fizemos até hoje. Pensar na questão da imagem numa perspectiva que não seja sempre a perspectiva antropocêntrica.

Como você vai abordar o tema “Grumpy cat, Grande Mestre Zen da Geração Digital (Afetos e Materialidades da Imagem Memética)”?

Vou pegar um tema profundamente banal da cultura contemporânea, da cultura digital, como os memes, principalmente um meme que me diverte muito chamado de grumpy cat. Buscarei abordar esse meme que é uma dessas imagens da cultura digital que se replica e fazer uma leitura filosoficamente densa. A ideia é tensionar essa impressão de que a cultura digital é banal e, ironicamente, fazer uma leitura profundamente conceitual sobre o Grumpy cat.

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