Imersão: a experiência ecológica das mídias na era digital

Entrevista com Massimo di Felice

Sociólogo italiano, formado em La Sapienza, com pós-graduação em antropologia, Massimo di Felice é doutor em Comunicação pela USP, na qual atualmente é professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) onde pesquisa questões ligadas comunicação digital. Na ECA- USP, o pesquisador coordena o Centro de Pesquisa Atopos. Di Felice afirma que a comunicação, especificamente a midiologia, é uma área privilegiada para compreender os novos fenômenos comunicacionais presentes nas pós-cidades que habitamos. Uma área do conhecimento onde cruzam-se diferentes disciplinas que inclui os estudos das tecnologias e se manifesta como uma crítica, tanto tradição humanística quanto tradição das ciências sociais. O autor de Paisagens pós-urbanas (Annablume, 2009) fala, na entrevista a seguir, realizada por skype, sobre os diversos modos do habitar como prática comunicativa e sobre a tecnologia como chave de leitura das complexas sociedades contemporâneas.

Como aconteceu a sua passagem das Ciências Sociais ao estudo da comunicação digital e da midiologia?

Não estava satisfeito com a explicação que as ciências sociais e a antropologia me davam a respeito dos fenômenos sociais. Surpreendia-me como cada vez mais o elemento tecnológico e comunicativo era o elemento central a partir do qual era necessário ler a complexidade da sociedade contemporânea. Principalmente percebi essa limitação quando estava pesquisando as festas rave. Havia outra coisa que caracterizava aquele social. O central eram as relações entre circuitos informativos, amplificadores, caixas de música, mixers, as pessoas, as drogas sintéticas. Isso criava de fato um novo ambiente e uma nova sociedade. O fluxo informativo entre corpos orgânicos, o êcstasy e a quetamina, o local ao ar livre, tudo isso era uma festa rave. Portanto, separar o elemento humano como a sociologia teria feito ou o elemento cultural, como a antropologia teria feito inviabilizava a compreensão do que estava acontecendo ai.

A comunicação permite compreender melhor essa realidade?

Sim, mas não é a comunicação clássica, frontal, estamos falando de um novo campo que alguns definem como midiologia, que permite analisar a festa rave como uma problematização da cultura humanista e busca significados na sinergia de distintos campos, na Filosofia, Ciências Sociais, Comunicação, Tecnologia. É a busca de uma explicação nova para um acontecimento social absolutamente novo. Nada parecido com as tradicionais festas nem com a sociabilidade clássica. O elemento central nas raves é a música eletrônica, uma composição produzida por meio de computadores. O elemento de agregação não é a sociabilidade. Em uma festa rave não há quase interação entre as pessoas. Elas não vão ali para conhecer meninas ou rapazes. O elemento central estava na contaminação de um sentir transorgânico. O prazer estava em fazer um transbordamento contínuo entre elementos orgânicos e elementos inorgânicos. Entre a música produzida por computadores, os corpos, os sentidos orgânicos, as drogas sintéticas e o ambiente ecológico, ao ar livre. O elemento transorgânico é o que simula a sociabilidade.

E como você chegou ao Brasil?

Pela sociologia vim fazer pesquisa de campo na América Latina. Vim Cuba, Equador, Colômbia e Brasil. Fiz uma pesquisa sobre conflitos de terra e religiosidade popular, como os elementos místicos influenciavam a luta pela terra no nordeste. Fiquei no Brasil e fui estudar a metrópole, esses conglomerados urbanos que eu defino de pós-urbanidade porque não tem nada de parecido com a cidade. Não pode ser chamada de cidade, ela é eletricidade, vidas e circuitos múltiplos.

Esse seria seu conceito de “metropoleletrônica”?

Exatamente. Uma forma de interação entre o sujeito e o território mediada pela eletricidade. Isso começa em Londres e Paris na revolução industrial com as primeiras metrópoles industriais. Um dos elementos centrais dessa transformação é a eletricidade. É o grande elemento que diferencia as metrópoles de toda a experiência urbana anterior. Algumas características se mantém: espaço público, espaço privado, estradas que convergem na praça. É o modelo ocidental da cidade que com a colonização se espalhou para outros continentes. Mas a metrópole eletrônica dá um pulo, uma ruptura com esse modelo, a relação com o território através da técnica (eletricidade, mídia) passa a ter um poder totalmente inovador.

O que diferencia o sentido histórico de viajar e o trânsito contemporâneo?

A relação entre sujeito e território é complexa dentro da cultura ocidental. Sobre isso tentei fazer uma tipologia. Tipologias sempre pecam por sínteses, mas permitem pensar. Há uma primeira forma que eu defino como agorazein que era comum nas polis gregas onde a mídia principal era a oralidade. Eram ambientes familiares, seguros, fechados por muros. Agorazein significava andar conversando, um andar sem metas, sair com os amigos para conversar e buscar significados.

A escrita e o habitar empático

Já a escrita começa a criar outro tipo de viagem, a viagem como projeto. A forma de buscar uma expansão da própria cidade, a experiência do colonialismo marca toda a tradição ocidental. Não é algo que começa no século XVI, começa antes e passa pelo império romano. O colonialismo ligado escritura, ligado a essa forma de transformar o território. Este é o habitar empático. Nele, a relação comunicativa entre o sujeito e o território é mediada pela escrita. Entre o sujeito e a paisagem havia um projeto, um texto, ponto de partida pela transformação do externo e do desconhecido. O espaço torna-se assim matéria a ser moldada, suporte para realização de um projeto ideal.

A eletricidade e o habitar exotópico

Na época moderna, da eletricidade, nós temos uma transformação porque, pela primeira vez o território se apresenta ao sujeito não mais como a imagem de um texto, mas como um tipo de paisagem. Um novo tipo de paisagem, duplicada e móvel, qual os transeuntes ou o espectador assistem como a um espetáculo. Benjamin fala da paisagem desfocada que passa através da janela do ônibus ou do trem. Mas, ao lado desta paisagem migrante, o próprio sujeito, movido pelos trens, pelos trólebus e pelos elevadores, passa a vivenciar a experiência de um habitar exotópico, isto é, de uma forma inédita deslocativa, sem movimento, na qual ele habita através da movimentação mecânica e a percepção visual dos fluxos de eletricidade. Em todo esse contexto a paisagem se torna algo separado do sujeito, uma forma autônoma, que se apresenta ao sujeito em forma de espetáculo, a ser admirado como no cinema, em forma de uma paisagem em movimento, uma paisagem que autonomamente se mexe. Isso cria um tipo de relação absolutamente nova, porque o território deixa de ser estático para estar em movimento. No habitar exotópico há perda no seu sentido objetivo e único e, ao mesmo tempo, no surgimento de uma natureza tecnológica que se coloca frente do sujeito como alteridade autônoma.

O digital e o habitar atópico

A sociedade digital apresenta-se como uma sociedade feita de fluxos comunicativos e de interações homem-máquinas que anulam a distinção analógica entre emissor e receptor. O social torna-se o resultado de uma interação entre máquinas comunicativas, informações e inteligências coletivas. No contexto mais contemporâneo, com a digitalização das paisagens o trânsito é um falso movimento. É um contexto de imersão. Pensemos nos gamers, pensemos no second life, pensemos em todas as formas de deslocamento que hoje temos nos nossos espaços através do telefone celular e GPS. Ou nas formas de consulta Internet, a grande rede, para ter informações sobre nossa paisagem e, portanto uma paisagem que deixa de ser algo geográfico e material, mas que se expande numa rede de informações. Esta experiência é um movimento que não está ligado a uma ação no espaço e no tempo. Não é mais uma movimentação que passa de A a B, de um lugar para outro. É uma forma de trânsito, de passagem do mesmo lugar para o mesmo que chamo de atópica, em constante transformação. Sinergia entre sujeito, territorialidade e tecnologia informativa. Portanto hoje, o viajar não pode ser mais pensado como atravessar uma geografia, mas como uma forma de sinergia entre informações, circuitos informativos, tecnologia, portanto, paisagens e sujeito.

Por isso que você disse que o movimento hoje iria além do sedentarismo e do nomadismo?

Exatamente. Esse movimento não pode ser apresentado como uma forma sedentária, porque não é completamente sedentária, nem como uma forma nômade. Existem vários autores como Maffesoli ou Deleuze que descrevem muito bem esta figura como um contínuo nomadismo. Nomadismo não mais geográfico, mas de significados, de sentidos. Para Maffesoli, a socialidade é a condição que as novas gerações vivem ao mudar continuamente de identificação. Essas novas gerações identificam-se com determinadas formas de consumo ou com um tipo de interação midiática que não cria laços fortes. Pelo contrário, cria laços fracos que logo que termina um show, logo que termina determinada situação se desfaz e se cria outro. Agora, o trânsito contemporâneo, a forma de interação contemporânea não ocorre assim. A cultura estabelece diálogo entre território e sujeito mediada pela tecnologia da informação, pelos circuitos digitais e nos passa uma experiência diferente, segundo o tipo de interface que passamos a utilizar. Eu passo a vivenciar o espaço informativo ligado ao conteúdo da rede que estou usando.

Você tem insistido em não pensar as três formas de habitar evolutivamente, como seria a coexistência?

Como diz McLuhan, nenhuma revolução comunicativa anula a anterior, nunca se vendeu tanto livro como na nossa época e por tanto a leitura, ou seja, o habitar empático, é ainda uma experiência que nós fazemos todos os dias. Assim como a experiência da metrópole eletrônica, nos deslocando pela cidade também expressa o que fazemos todos os dias. Também a experiência digital. Nós vivemos estas formas de habitar contemporaneamente.

Você disse que o pensamento ecológico falha quando pensa o homem separado da natureza. Como é o seu conceito de ecologia e como este se estende mídia?

Há uma questão que Gregory Bateson, Fritjof Capra, e vários autores levantaram com uma crítica clara ao ocidente e cultura humanista. O homem é visto não só como algo superior, mas como algo separado do ambiente. O antropocentrismo da cultura ocidental vê o ambiente como um território ou paisagem que está a frente, como se o homem não habitasse essa paisagem. Ambiente significa precisamente o que está em volta. Todos os problemas que hoje nós enfrentamos em relação a questão ambiental passam por essa separação. Se não superarmos isso, não chegaremos a um processo de transformação. Hoje as redes informativas estão criando uma nova forma de interação entre sujeito-território. As redes repassam informações de um modo que não é mais frontal. Todas as mídias, desde a oralidade até a TV representam o processo comunicativo como um processo frontal, isto é, para adquirir informação é preciso estar na frente do emissor como no teatro, cinema, na TV, no livro. A única forma de obter informações era a frontalidade. As redes superam essa frontalidade em uma forma imersiva. Elas nos colocam, não na frente de um fluxo informativo, mas sim no interior desse fluxo. Essa imersão, essa não frontalidade também é uma condição ecológica comunicativa nova, que se expressa em uma representação da territorialidade e no ambiente de uma forma também nova. Através da digitalização das informações e do território temos uma noção muito clara do que está acontecendo no nosso ecossistema terra. Passamos a pensar o planeta como “gaia”, como um organismo em rede, interligado com um conjunto de ecossistemas diferentes onde a transformação de um implica na transformação dos outros. Ao mesmo tempo, essa dimensão global nos dá a clara sensação de que somos parte desse ecossistema. Nós hoje, através das redes e circuitos informativos digitais, podemos visualizar que um pedaço do gelo da Antártida se desprendeu devido ao aquecimento global e está se desfazendo. Não só sabemos a informação textual, como também vemos a imagem e nos entendemos dentro dessa cena. Nós sabemos hoje que o buraco de ozônio é causado fundamentalmente pela emissão de clorofluorcarbono. Passamos a ter uma percepção clara entre o fio que liga este buraco de ozônio com a nossa vida, nosso comportamento e isso faz com que separemos o lixo, reciclemos, não andemos mais de carro. Hoje temos a clara percepção que somos parte e não que estamos na frente do território. Essa ruptura é algo parecido ao que aconteceu com a revolução copernicana, quando se tirou a terra do centro do universo. Hoje o homem saiu do centro, ele é parte de um ecossistema que tem impacto na sua saúde e suas ações tem impacto sobre o ecossistema. Ai está a grande junção entre a revolução digital e a revolução ecológica.

O que seria o “Ipod-flaneur”?

É a interação entre trilha e paisagem, quando vamos na rua ouvindo música, pode ser com um ipod ou no carro. Há aí uma produção audiovisual construída por nós mesmos. No carro, ouvindo música e utilizando nosso visor ou andando pela cidade com nosso fone de ouvido, vamos construindo clips. Antes não se tinha uma forma de atravessar o território ouvindo uma sonoridade própria.

Como o audiovisual se transforma nessa época de não frontalidade?

As câmeras que todo mundo tem em seu telefone ou esses vídeos que todo mundo faz e posta no YouTube é exatamente a superação da frontalidade. O audiovisual não é mais frontal, mas imersivo, mexe com vários sentidos e não só com a extensão do ver. Isso fica muito claro nas novas câmeras digitais e câmeras de celulares. Antes, você só podia olhar o visor por trás da câmera e tomava uma paisagem na sua frente. Com a câmera digital do celular, você desloca com a mão a câmera e filma você na paisagem. É uma transformação profundíssima da estética e do conceito mesmo do audiovisual. Todos nós passamos a fazer filmes, como também passamos a distribuí-los através do YouTube. Isso trouxe essa nova forma de filmar que não é frontal, mas sim imersiva. O ponto de vista deixa de ser o olho e se torna um olho externo, uma visão muito mais ecossistêmica.

Surgem também novos “gêneros” como o vlog, a partir da câmera web e as plataformas de vídeo e sites de transmissão ao vivo.

Sim, há um tipo de contato eletrônico. Uma socialidade mesmo que seja casual e momentânea. Um contato social via câmera. Isso não era assim antes. Se via o audiovisual no cinema mas não durante o momento da filmagem.

Além de toda uma expansão do audiovisual na ciência e em tantos outros âmbitos midiáticos e não midiáticos.

Esse audiovisual não é mais frontal. Não é mais o audiovisual do cinema e o da TV. É o audiovisual imersivo, que não está mais ligado ao espetáculo. É construído coletivamente, pode ser alterado, todo mundo pode interferir. Uma vez que é digital, é modificável. Ele tem valor de uso, de compartilhamento, de remixagem.

Você citou diversas vezes Benjamin e McLuhan. Acha que são autores especialmente produtivos para entender esta época?

A minha relação com os autores não é uma relação muito ortodoxa. É difícil ter uma relação ortodoxa com um autor. Acho que a única relação possível com um autor é de interpretação livre, obviamente contextualizada. Gosto de usar o conceito de fertilidade. Um autor pode ser fértil ou não fértil para pensar a nossa época. Fértil não significa que ele explica nossa época. Seria assustador que alguém que viveu outro contexto conseguisse explicar a nossa época. Isso se parece mais com magia ou religião que com conhecimento. Mas, nós podemos encontrar autores – com certeza Benjamin, McLuhan, mas também muitos outros- para refletir de forma fértil sobre nossa época, mas jamais para reportar o que eles fizeram, porque a gente deve construir algo novo.

Revisão: Chaiane Bitelo

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