“Jogar contra o aparelho” é sair dos lugares estabelecidos na comunicação e na academia

Entrevista com Regina Mota

Para a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria Regina Mota, nunca a televisão mostrou empecilhos para uma apropriação em mão dupla, mas os lugares de emissor e receptor foram estabelecidos desde o início da TV – e continuam com a TV digital, que mudou sem mudar. Esses lugares inamovíveis são práticas estabelecidas como naturais mesmo que os meios digitais demonstrem o contrario. A crença se deve também porque as possibilidades de produção horizontal e descentralizada apontam para o abandono dos lugares de autoridade reconhecidos e reinventam o conhecimento de forma coletiva. A “barbárie tecnizada”, preconizada por Oswald de Andrade, em que o primitivo se alimenta do civilizado transformando-o e a si próprio, vive no estágio atual da técnica condições privilegiadas por uma apropriação tecnológica inédita.

Regina é pesquisadora do Laboratório de Mídia Eletrônica (Labmídia) da UFMG e uma das coordenadoras da Residência de Pesquisa Interdisciplinar Avançada (Repia). O projeto, que integra o programa VIVO LAB, patrocinado pela Vivo por meio da Lei Estadual de Incentivo Cultura, pesquisa linguagens no contexto da convergência, que coloca em diálogo TV digital, celulares e web. Autora de A Épica Eletrônica de Glauber – um estudo sobre cinema e tevê (UFMG, 2001) e Cultura da conexão: novos formatos para a produção (Argumentum, 2011), Regina Mota é uma das convidadas na 9ª. Semana da Imagem na Comunicação onde apresentará o tema “Jogando com aparelhos”, no dia 20 de agosto s 20h. No mesmo dia, das 14 s 17h, ela participará do debate sobre “Tecnocultura audiovisual”, junto aos pesquisadores Massimo Canevacci, Suzana Kilpp e Gustavo Fischer.

A seguir, alguns trechos da conversa com Regina via skype.

No título de sua palestra na semana da imagem há uma clara referência a Vilém Flusser. Como você entende esse conceito de “jogar com aparelhos”?

Acho que falta muito na nossa cultura tecnológica uma abertura para pensar as coisas que ainda não existem. Pensar a tecnologia sem deixar que a máquina ou o programa determine o uso que dela se faz, essa subserviência ao default. A idéia de Flusser, que diz da necessidade de se criar um pensamento, uma filosofia que abra as caixas pretas, clareando-as no sentido de você sair do lugar previsto, e deixar de ser mero funcionário para ser alguém que quer “jogar contra o aparelho”. Isso significa entender a potencialidade tecnológica para coisas que ainda não foram feitas. É difícil um pensamento neste estágio para a TV digital que eu venho pesquisando, desde 2003. Nunca vi nada tão resistente como a ideia de que o broadcast já está completamente determinado. Ou seja, meia dúzia de famílias ou grupos econômicos e mesmo as emissoras públicas acham que “sabem” o que é bom para todas as pessoas. Programando os seus conteúdos dentro de gêneros que todos reconhecem como a teledramaturgia, jornalismo, programas culturais, entretenimento etc. Penso que McLuhan, de quem estamos comemorando os cem anos do nascimento, ainda não foi muito compreendido quando afirma que o meio é a mensagem, Ainda se usa o meio eletrônico como se fosse uma espécie de caneta, como se fosse um livro a ser publicado. Isso não está na lógica dele, que é uma lógica de envolvimento das pessoas, de ambiente cultural completamente diferente da lógica da Galáxia de Gutemberg.

Como isso se aplica TV?

Nunca houve, do ponto de vista tecnológico, um empecilho que impedisse que o broadcast audiovisual não tivesse já, desde sua origem, uma dimensão bilateral, no sentido de ser uma via de mão dupla da qual as pessoas efetivamente pudessem se apropriar, na esteira dessas condições de comunicação que os meio eletrônicos sempre apontaram. A internet não veio inventar uma coisa dessas. Ela estava completamente prefigurada nos meios, no momento da ruptura entre o meio impresso e o meio eletrônico. Já McLuhan e mesmo de Walter Benjamin tinham a internet presente, como ideia, como conceito. Porque eles não estavam miopes, mirando para essa noção iluminista de conteúdo. O que está em jogo nos meios eletrônicos é a ação que os meios propõem e que reconfiguram um novo espaço e novas formas de associação das pessoas. Nesse momento que a gente está vivendo agora, no qual é impossível se controlar o acesso produção na convergência entre a web, a televisão digital, os tablets, os celulares, e seja mais o que vier por aí, se rompe os dois lugares determinados de quem emite e de quem recebe.

Esse seria o dilema central ao pensar o jogo contra o aparelho na TV?

Na cabeça das pessoas essa ideia de Flusser está tão distante que acham que só o programador é que pode brincar com o aparelho, operar o aparelho. Na visão do Estado, que poderia fomentar essa mudança, essas questões já estão na mão de quem tem competência para tal, e logicamente que os interesses econômicos e políticos são muito grandes.

Isso freia o poder pensar a TV digital de maneira coletiva e criativa?

Eu acredito que de 2006 para cá, desde que foram tomadas as decisões sobre a transição e o modelo adotado pela TV digital no Brasil, há um enorme atraso de apropriação criativa. Porque exatamente no momento em que estava para entrar a produção de conteúdo na discussão, a verba para pesquisa foi totalmente cortada. A televisão digital no Brasil simplesmente digitalizou o sinal, ela não fez mais nada. Mas quem são as pessoas formadas para pensar a interatividade da televisão, para repensar a própria natureza desse meio que supostamente está aberto, que pode estar diretamente conectado com todos os outros âmbitos da tecnologia? Não tem! Porque eu trabalho num laboratório em Belo Horizonte, outro pesquisador na Paraíba desenvolve um software, outro no Rio inventa outro jeito de fazer.. Ou seja, nós estamos completamente desmobilizados para produzir juntos o que é o mais importante, justamente o clareamento dessas caixas pretas dando a elas um desenho próprio.

Como a Academia se posiciona diante dessa ausência?

A academia hoje não tem respostas para essas coisas. Acho que o tipo de estrutura, de avaliação, de cobrança e de organização da academia é completamente fora da realidade digital. Não faz sentido esse tipo de aula que a gente dá com um monte de pessoas sentadas e uma pessoa falando. É completamente retrógrado. Eu não entendo como as pessoas ainda botam fé nisso. Não se produz mais conhecimento desse jeito. É fundamental que se tenham outros tipos de interação. O que esses meios realmente fazem, para quem quer, é promover essa interação. Há muitas possibilidades. Nós duas estamos aqui via skype, mas poderíamos estar nos comunicando via outras formas de comunicação.

Que outros tipos de interação têm sido experimentadas pela Repia?

Fizemos recentemente online e ao vivo o debate Dissenso, onde pudemos ter, simultaneamente, numa tarde, 20 especialistas debatendo sobre TV digital, com visões muito diferentes do mesmo problema, com altíssima qualidade de transmissão (1000 megabits). O evento teve o debate sobre produção de conteúdo multiformato multiplataforma, uma exposição do processo criativo do Cubo Audiovisual, o lançamento do protótipo da nova versão da plataforma de trabalho colaborativo e.AR e um happening com apresentação musical interativa. Aquilo é uma sala de aula do presente, não posso dizer que é do futuro. O formato foi uma tentativa de mostrar que hoje nós temos tecnologia suficiente para fazer essas isso e muito mais. A gente deve sair desse lugar confortável de estar ali “dando aula” para realmente começar a ouvir as pessoas e trocar ideias. Se as pessoas estivessem preparadas para isso teríamos tido uma interatividade muito maior durante o debate. As pessoas online podiam estar afetando e transformando o debate, mas elas ainda ficam um pouco perplexas diante dessa real possibilidade de pensarmos juntos. Muitas vezes, nesses formatos de seminário, as pessoas se escondem atrás da fala em vez de debater ideias. Nós temos muito poucas ideias no Brasil sendo compartilhadas. Temos lugares de autoridade muito bem constituídos e essas pessoas vão aos congressos com uma fala pronta. Elas não querem debater. Coloca-se uma distância muito grande na maneira como você compartilha suas “ideias privilegiadas”, seus conceitos muito elaborados, muito herméticos, como muitas vezes acontece.

Como vocês realizam esse trabalho colaborativo na Repia?

Trabalhamos com grupos de jovens designers, roteiristas, informatas, videomakers, engenheiros, gente de várias áreas diferentes que está tentando construir coletivamente um novo conhecimento. Pensamos um conteúdo para nossa plataforma que não se enquadra mais nessa dimensão de gêneros em que se organiza a TV. E pensar conteúdo multiformato multiplataforma não é fácil, porque a ideia de conteúdo vem muito da cultura impressa. É preciso pensar que a informação pode ser instável, porque opera com uma série de possibilidades que não se estabilizam. Estamos propondo conceitualmente uma não hierarquia, eu não tenho uma verdade e nem quero ter controle sobre como aquela informação vai ser apropriada.

Que benefício estes debates podem trazer s pessoas em geral, ao público não acadêmico?

Saí do Dissenso com várias ideias para criar novos ambiente para produção de conhecimento. Diminuir a distância entre os que não são especialistas e o tipo de discussão que a gente está levando, que é muito complexa. O cidadão comum não se coloca muito essas questões. Mas a produção de conhecimento se dá nesse âmbito de troca e não nos lugares estabilizados. Nesse momento o conhecimento demanda muita, mas muita invenção e essa invenção não vem de um lugar determinado, por exemplo, a comunicação.

A comunicação deve se colocar em lugares de passagem?

A comunicação de uns anos para cá quer se afirmar como ciência, o que é uma bobagem. Aí, para se sustentar como ciência ela fica capturando paradigmas e teorias de outras áreas, alguns na sociologia, outros na filosofia. Os que pensam a imagem geralmente vão para a filosofia e acabam tendo um pensamento muito difícil de ser articulado. Eu acho que a comunicação é uma prática social importante, talvez a mais antiga de todas e, portanto, tem um caráter de interface muito grande com as diversas disciplinas. O nosso desafio é como trabalhar a transdisciplinaridade. Todo mundo tem que sair de sua zona de conforto, todo mundo tem que se deslocar. Se eu trago o informata, ele obrigatoriamente tem que vir para meu lado e eu tenho que ir para o lado dele. O designer também, cada um tem que propor uma interface para facilitar um diálogo. Nós chamamos isso de chão de diálogo, onde o diálogo seria a condição primordial para constituir algo comum. Esse chão é construído pelas bases que cada uma dessas áreas vai colocando. É só um lugar para gente pisar, ainda não é a construção. Não é fácil de conseguir. Primeiro, pelas condições humanas, disputas, egos; segundo, porque estamos muito especializados. Na universidade tudo está separado o que não faz sentido.

Como se dá na prática sua pesquisa sobre multiformatos e multiplataformas? Além de exploratória ela faz algum mapeamento dos usos de plataformas e criação de formatos?

Metodologicamente tenho trabalhado de diversas maneiras. Fazemos seminários que sempre tentam trazer uma dimensão do problema que a gente não conhece, não domina, dentro da ideia de interfaces com outras áreas. Tentamos conhecer os avanços que já existem. O estado da arte da produção de aplicativos hoje para tablets e celulares, por exemplo. Mas, apesar do grande investimento das operadoras de celulares, não há efetivamente um trabalho conceitual. É raríssimo encontrar um aplicativo que traduza um trabalho de pesquisa. A dimensão na qual a gente tem avançado muito é pensar a experimentação. A nossa plataforma e.AR é um conceito, tudo o que a gente pesquisa está ali registrado como um processo e não como produto. Um outro aspecto metodológico da pesquisa é a participação de outros grupos de pesquisa como observadores da plataforma.

Você interessou-se muito por antropofagia em outras pesquisas. É possível falar em práticas audiovisuais tecnofágicas no estágio atual da cultura digital?

As condições tecnológicas são muito favoráveis antropofagia. Esse conceito me é muito caro e nem sempre o explicito porque há uma dificuldade no entendimento dele num cenário mais amplo, as pessoas remetem sempre ao modernismo de forma reducionista e datada. Para mim, antropofagia é uma espécie de metafísica que supõe que o outro é, o que faz com que eu me transforme. Está ai a ideia de tornar-se outro, a experiência real da alteridade. Os índios com seus rituais tinham a necessidade de que o outro os afetasse a tornar-se outro, e há nisso uma série de deslocamentos muito importantes. Não é uma busca identitária, você tem uma busca dentro do outro, o sujeito pouco importa. Se pensarmos no conceito do próprio Oswald de Andrade do bárbaro tecnizado, o primitivo que come o civilizado não se torna civilizado, ele retorna ao primitivo como um bárbaro tecnizado. Essa imagem é muito interessante para pensar o que está acontecendo hoje. Essa deslinearização do processo tanto de acesso como de aquisição e produção das novas tecnologias faz com que a gente perca a ideia de que só o especialista é que vai ser o produtor. Então você tem hoje alguns bilhões de celulares no mundo inteiro e uma quantidade enorme de pessoas que se transformaram em produtores porque esses aparelhos hoje permitem que você produza e faça circular informações. Alguém pode morar na Conchinchina mas, se está conectado, está conectado dentro da cultura. Antes era para se ter esse acesso, ele tinha que ir para a escola, depois pra universidade, depois fazer doutorado. Hoje, efetivamente o salto cultural é quântico e não linear. Estamos mais envolvidos do que evoluídos ou desenvolvidos, e não interessa o seu grupo social ou cultural, mas o seu grau de conexão.

Que sinais podemos ver hoje de estar vivendo essa apropriação, essa barbárie tecnizada?

A barbárie tecnizada é a apropriação por qualquer um e de qualquer maneira das condições tecnológicas para o bem e para o mal. Tanto pode ser dos caras que saem explodindo caixa eletrônico, até a sofisticação dos traficantes nas prisões dominando operando seus dispositivos tecnológicos, como os rappers da cultura hip hop. Tudo isso é barbárie tecnizada. Por isso, eu defendo a criação e o fomento de políticas pública para o audiovisual e para os meios digitais justamente para possibilitar uma escolha das pessoas na inserção do que estou chamando de barbárie tecnizada. Prefiro mil vezes um garoto com um tablet na mão criando coisas bacanas do que um traficante operando um rifle automático derrubando helicópteros da policia, como se estivesse jogando um videogame, literalmente contra o aparelho. Como a gente vai trabalhar essas possibilidades? Acho que estamos em condições de efetivar uma troca verdadeira. Quando penso em troca já estou usando o conceito de antropofagia. O perspectivismo, retomada da antropofagia oswaldiana, é baseado no dom. Tudo isso quer dizer que precisamos rever as boas idéias e renovar o próprio pensamento.

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