Mídias locativas, softwares e robótica: a busca por novos modos de experiência

Entrevista com Brett Stalbaum

Artista e pesquisador norte-americano especializado em teorias da informação, banco de dados e desenvolvimento de software, Brett Stalbaum é professor da Universidade da Califórnia em São Diego (UCSD) e será palestrante na Semana da Imagem na Comunicação, no dia 17 de agosto, quando abordará o tema Mídias locativas, um novo paradigma comunicacional. Coordenador do curso Interdisciplinar em Computação e Artes (ICAM) na UCSD, o pesquisador desenvolveu inúmeros projetos na área de mídias locativas, sendo co-fundador do Electronic Disturbance Theater (EDT), em 1998, para o qual co-desenvolveu um software chamado FloodNet, que tem sido usado pelo movimento zapatista contra os sites dos Presidentes do México e dos Estados Unidos. Esse ano, Brett está no Brasil, na universidade Federal de Juiz de Fora, desenvolvendo junto ao professor Cícero Silva o projeto walkingtools.Sua pesquisa atual examina as interseções da arqueologia, da ciência cognitiva, da robótica e da inteligência artificial. Para ele, o encontro de uma compreensão do humano (e da robótica) são pré-requisitos de um melhor entendimento do potencial para novos modos de experiência.

O que se entende hoje por mídias locativas e por que elas são mídias?

Para alguns, mídia locativa é definida como a tecnologia dos telefones celulares e GPS, que têm suas próprias ontologias formais, como novas formas de mídia. Para outros, especialmente para artistas que se imaginam como agentes sociais (e, algumas vezes, contadores de histórias), há uma tendência de dar mais valor para as interações sociais e comunicacionais que as mídias locativas possibilitam, muito parecido com o conceito Beuysiano de “escultura social”[1]. Meus interesses são um pouco diferentes, trabalhando na intersecção de dados espaciais e com as maneiras que estes conseguem se re-engajar com o movimento físico e o ambiente – o que para mim precisa ser genericamente definido como exploração das várias e desconhecidas potencialidades de caminhos mediados por dados. Em minha opinião essas definições formais e sociais de mídia locativa só se conflitam quando opostas artificialmente. Se tratadas separadamente, as definições social e formal nunca se interoperam, e essa é a receita estática para um campo que deveria ser dinâmico e emergente. Também seria útil pensar o que a mídia locativa não é: mapeamento. O mapeamento (tanto no sentido de cartografia como de dados) certamente é utilizado pelas mídias locativas para as camadas representacionais, lógicas e de acesso a dados, mas confundir mapeamento com mídia locativa é como confundir “representações mapeadas” com a possibilidade de novos tipos de experiências dinâmicas. Em um ensaio que será publicado em breve, Marcela Fuente descreve “produção artivista” como “uma vontade de instigar respostas ao criar uma situação, ao invés de uma mera representação do estado das coisas”.

Que novo paradigma comunicacional surge com as mídias locativas? Qual o lugar do software neste novo paradigma?

Eu não sou um acadêmico da comunicação, mas é impossível ignorar a aplicação da teoria do ator-rede[2] na mídia locativa. Não somente para entender melhor o agenciamento social, mas porque a teoria do ator-rede inclui o agenciamento de atores não humanos na rede de relações. Ou seja, nós podemos pensar nos aparelhos, redes, dados e algoritmos não só como agentes na produção de experiência, mas como constituintes completamente integrados com suas próprias experiências, objetivos e até desejos (mesmo que sejam muito distintos.)

Que mudanças que este novo paradigma demanda nos estudos de imagem?

A computação sugere que essencialmente representações digitais não visuais (tabelas de dados em um banco de dados, por exemplo) são tão influentes na emergência dos “acontecimentos” como a comunicação entre duas pessoas ou a semiótica. As pessoas ainda olham para as imagens, imagens ainda comunicam e representam, mas será que elas não são suprimidas pela grande quantidade de representações (e processos) não visuais, que realmente decidem o que acontece? Atualmente, trilhões de vezes por segundo há softwares decidindo sobre o destino de diversos objetos físicos, desde grãos de soja até itens completamente manufaturados, e de como e em quais navios e caminhões eles serão transportados para nações ou vizinhanças, tudo automaticamente guiado por GPS. Itens pequenos, até mesmo uma boneca infantil, são rastreados desde o material cru até as prateleiras das lojas, e cada vez mais e mais itens consumidos podem reportar para onde foram depois de comprados. Financistas, gerentes de fábrica, motoristas, caixas, todos agora obedecem ao comércio bancário computadorizado, ao e-commerce, colheita e ao transporte com sistemas de GPS que funcionam para racionalizar a demanda e atender amplamente outra demanda: global-para-local. O que é fascinante é que isto não é teoria, é claramente demonstrável nos cruzamentos vários da sociedade de controle, que exigem autenticação, senhas, e assim por diante (provavelmente a maioria de nós está familiarizada com rastreamento de pacotes online…). Todos esses dados que agora participam plenamente do mundo material são muito grandes e fragmentados para serem visualizados, mas há sempre um verificável, que fornece acesso necessário para vários “views“ (view é um termo de banco de dados que descreve os filtros através dos quais vários usuários autorizados podem olhar para o mundo dos dados, diz o que a eles estão autorizados a ver, etc.). Assim, talvez “a imagem” tenha sido ultrapassada em termos de importância social pelas representações de dados, que são sempre parciais e efêmeras, mas que atualmente decidem (por exemplo) quantas peças de um carro vão na parte de trás de um caminhão específico, bem como informar ao motorista para onde ele deve ir naquele dia.

Você poderia falar um pouco sobre o Electronic Disturbance Theater (EDT) do qual foi um dos fundadores, como surgiu, suas características e seus usos?

O EDT foi fundado na década de 1990 como uma rede de arte performática e grupo ativista, praticamente explorando teorias de desobediência civil online desenvolvidas pela Critical Art Ensemble – CAE quase uma década antes. Ricardo Dominguez é um dos fundadores da CAE, Carmin Karasic é artista digital, engenheiro e ativista, Stefan Wray é historiador e teórico da política emergente da Internet, e na época eu era estudante de graduação no laboratório de novas mídias CADRE da San Jose State University, com interesse na intersecção entre ativismo, arte e código computacional. Traçamos a maioria de nossas idéias a partir dos povos indígenas do estado mexicano de Chiapas (do movimento zapatista), que foram os primeiros a compreender que, mesmo se a Internet e as comunicações modernas não atingirem suas casas na selva, aquelas, no entanto, trazem suas próprias táticas, reais ou simuladas, para os círculos de influência de fora, e que a Internet poderia ser usada de forma agressiva para ajudá-los a manter a sua autonomia e direito terra. Eles nos ensinaram – e geração Internet eu diria – como ocupar o difuso espaço entre a rede de representações e o real. Por exemplo, os zapatistas, no início, desenvolveram capacidades de combate aéreo muito poderosas, chegando a enviar seus aviões de combate para atacarem uma base militar mexicana. Eles jogaram aviões de papel com mensagens de libertação e apelos de baixo nível aos soldados mexicanos por cima da cerca da base. Seguindo seu modelo, criamos um software para facilitar um atual virtual-sit-ins, dirigido a servidores web do Pentágono e de várias bases militares, aos presidentes do México e dos Estados Unidos, e até mesmo para a bolsa de valores de Frankfurt (virtual sit-ins são espécies de ataqueszombie bot-net, só que estes não têm zumbis ou hacking: cada manifestante, por computador, intencionalmente participa com o seu endereço IP e compreende as conseqüências de estar envolvido). Ao contrário dos últimos ataques cibernéticos Luz Sec contra empresas como PayPal, o nosso software era tecnicamente ineficaz, mas – de acordo com a rede, seus dados e seus logs – era igualmente real. Outros “ataques” – que gostamos de chamar de performances – incluíam o envio de fantasmas de homens, mulheres e crianças zapatistas que foram massacrados pelo governo, apoiado por paramilitares mexicanos em Acteal (1997), para os logs de erro do servidor web do presidente Ernesto Zedillo, com a ajuda de dezenas de milhares de manifestantes online. Assim, eu afirmo que foram os zapatistas que realmente nos ensinaram a ocupar esses provocativos espaços de liberdade de expressão que surgem com as novas tecnologias, algumas das quais são consideradas atividades ilegais. Mais recentemente, o EDT 2.0 (que inclui ativistas, artistas, poetas e estudantes como Micha Cardenas, Elle Mehrmand, e Amy Sara Carroll), vêm trabalhando em um sistema de GPS para uso gratuito em telefones móveis, projetado para ajudar os imigrantes cansados ​​e desidratados a encontrar água ao longo da fronteira do México dos EUA. O projeto é inspirado nas políticas imorais de imigração do meu país que demandam, por um lado, alguns milhares de mortes terríveis em nossos desertos – a fim de satisfazer nossa xenofobia e o medo de um mundo em mudança – e por outro lado permitem que milhões de outros trabalhadores ilegais entrem e nos forneçam a mão de obra barata e difícil que estamos agora incapazes de realizar nós mesmos.

Que características ou possibilidades a Internet fornece para a arte?

Eu gostaria de pensar mais sobre as possibilidades que a arte fornece para a Internet!

Você vai ficar algum tempo no Brasil? Está trabalhando em algum projeto aqui?

Como um artista de novas mídias, eu tenho tido muita sorte de visitar e trabalhar aqui no Brasil, sendo este hoje um dos lugares mais importantes para a arte das novas mídias. Cícero da Silva, da UFJF, é o co-fundador e colaborador do projeto walkingtools, e temos trabalhado em melhorias para o nosso projeto educacional HiperGps, que permite aos usuários criarem seus próprios GPS ou visitas guiadas via celular, por exemplo. Minha pesquisa atual consiste em examinar as interseções da arqueologia, da ciência cognitiva, da robótica e da inteligência artificial – particularmente histórias de como os modelos explicativos da mente, vindos da psicologia e da ciência cognitiva, têm sido instrumentalizados em robótica e na inteligência artificial, e como os problemas relacionados, os algoritmos e as técnicas de dados poderão servir de base para a geração de experiência estética. Um dos nossos objetivos no projeto walkingtools é o de explorar novas formas peripatéticas de ser mediadas pela navegação contemporânea, bem como tecnologias de interface do usuário com vários algoritmos e interseção de dados. Eu sinto que o encontro de uma compreensão do humano (e da robótica) são pré-requisitos para uma melhor compreensão do potencial para novos modos de experiência. Estou ansioso para trabalhar com Alfredo Suppia e o laboratório Laloca da UFJF sobre esses tipos básicos de pesquisa que podem levar a novas descobertas para os meios locativos. É realmente uma ótima oportunidade para estudar por um ano (entre os EUA e o Brasil) e estou muito agradecido. Além disso, preciso agradecer a minha universidade (UCSD) por me permitir tempo para fazer esta pesquisa com a UFJF e o Laloca.


[1]Para Joseph Beuys (1921-1986) toda pessoa é um artista. A experiência pessoal é o único caminho capaz de nortear a criação. A arte deveria se expressar em todos os campos da vida humana e deveria, sobretudo, agir no interior de cada um, conscientizando a todos do seu potencial criativo e de mudança, da possibilidade de moldar a sociedade. Seu conceito de escultura ia além do objeto físico, compreendia a política, a cultura, a educação, a organização social como um todo, porque a escultura social compreendia o próprio pensamento humano. (Nota de reportagem).

[2] A teoria enfatiza a ideia de que os atores, humanos e não humanos, estão constantemente ligados a uma rede social de elementos (materiais e imateriais). Desenvolvida principalmente por Michel Callon e Bruno Latour, a teoria do ator-rede foi construída luz de uma perspectiva construtivista. (Nota de reportagem).

Tradução: Daniel Petry e Cybeli Moraes

Revisão: Cybeli Moraes

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