Pensar as imagens como modo de produção de uma nova sociabilidade

Entrevista com Ivana Bentes

ivana bentes 2O desafio de pensar as imagens não como a representação de algo, mas como um campo de forças, um “complexo” que se relaciona com diferentes campos, que assume diferentes funções na arte, no teatro, na ciência, na vida social, é uma das questões que se propõe a pesquisadora Ivana Bentes. Para ela, além de ter diferentes funções e estatuto, a imagem pode ser pensada como multissensorial porque hoje é constituída de “camadas”, são dados manipuláveis. Essas mudanças trazem uma série de consequências técnicas, estéticas, sociais e políticas abordadas pela professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ e Diretora da Escola de Comunicação da mesma universidade. Ivana Bentes fechará a XI Semana da Imagem na Comunicação com o tema A vida das imagens, defendendo que as imagens que consumimos e produzimos estão carregadas das qualidades que definem o humano. Confira a entrevista concedida por Ivana ao blog do TCAv por email.

O que lhe sugere o tema da XI Semana da Imagem: “Para entender as imagens: como ver o que nos olha?”?

A imagem que no senso comum ainda é uma representação do mundo, a duplicação de algo, torna-se atuante, sujeito, “forma que pensa”, que afeta e é afetada. A imagem está carregada de todas as qualidades e potencialidades que definem o “humano”. É a potência da imagem experimentada como sujeito. A imagem nunca foi investida de tanto valor. Esse valor é real e simbólico: a imagem-publicitária, a imagem-capital, as imagens produzidas no campo da arte, que podem atingir valores irracionais, mas também o valor afetivo incomensurável de certas imagens com as quais nos relacionamos, que têm uma duração, que sobrevivem ao fluxo aniquilante, ao “esgoto público das imagens” que nos atravessa. Há uma potência das novas imagens, da imagem eletrônica, das imagens digitais, desterritorializadas, que também precisam ser pensadas do ponto de vista estético, econômico e como modo de produção de uma nova sociabilidade. São relações pelas imagens, pois eu acredito que a produção das imagens não pode ser pensada sem a relação direta com o seu “ambiente”, que é o campo da própria comunicação, um campo que se define, por exemplo, pela chamada mídia-arte, que é exatamente o confronto da própria arte, do devir-estético das imagens, do fazer artístico com a quantidade enorme e proliferante de imagens que estão sendo produzidas pelos meios de comunicação e dispositivos os mais diversos e que assumem outras “funções”.

Em que sentido podemos pensar as imagens como “vivas”? Que características tem essa vida?

Se a imagem é uma “forma que pensa e um pensamento que forma”, segundo a bela definição de Jean-Luc Godard, podemos nos perguntar: que pensamentos, que energia, que temporalidades produzem o fluxo das imagens. A imagem pode ser pensada hoje como “viva”, como energia, apontando para novas potencialidades da imagem não-narrativa, não-representativa. A ideia de uma bioestética me parece extremamente sugestiva para pensarmos essa nova configuração. Poderíamos também pensar a própria teatralidade das imagens, no sentido de um entrar em cena, de um drama das imagens, de uma performance das imagens pensadas como “bios”, como vivo, como vitais. Por exemplo, o uso das imagens em cena, uma incorporação das imagens técnicas no teatro (ou como personagens virtuais no cinema), onde a “presença”, o “ao vivo”, o drama performado no aqui/agora pode se abrir para temporalidades e espacialidades outras, como a simultaneidade. Atores que contracenam com a sua própria imagem, a relação de atores com cenários e personagens virtuais, a combinação do ao vivo da presença do ator em cena, com o ao vivo da imagem-vídeo, etc. Um modelo interessante para a produção de imagens e o entendimento desse campo complexo é pensá-la como um processo de singularização, de “individuação”, como proposto por Gilbert Simondon e retomado por Gilles Deleuze. Simondon fala do “indivíduo e de sua gênese físico-biológica”. Se pegarmos o mesmo problema trazido por Simondon e aplicarmos ao campo das imagens poderíamos dizer que o princípio da produção de imagens deve ser verdadeiramente genético. Ou seja, as imagens, como os indivíduos, não são um “resultado”, são um meio de individuação. Podemos nos perguntar frente a determinadas imagens, qual a sua energia potencial e não mais “o que representam”.

Em que sentido a imagem é o novo capital?

A chamada economia material depende cada vez mais dos elementos imateriais que a ela se agregam e a qualificam: ou seja, da produção de conteúdos simbólicos, afetivos, linguísticos, educacionais, etc. Nesse sentido, a duração dos ciclos de crescimento no capitalismo está cada vez mais ligada ao fato da produção cultural tornar-se a própria base de sustentação da mobilização produtiva. Eis, portanto, toda a dimensão da cultura como componente estratégico do desenvolvimento capitalista. A primeira frase do livro de Guy Debord sobre a Sociedade do Espetáculo é uma releitura da primeira frase de O Capital, de Marx, onde Debord vai substituir a palavra capital por espetáculos e dizer: “toda a vida das sociedades em que reinam as condições modernas de produção apresenta-se como uma imensa acumulação de espetáculos”. A teoria marxista diz, “a acumulação do dinheiro, quando ultrapassa um patamar qualitativo, transforma-se em capital”, e Debord completa e atualiza essa ideia, trazendo pro nosso campo: “o capital atinge um tal grau de acumulação que se torna imagem”. Podemos ir mais longe ainda, contemporaneamente, se pensarmos que a produção de imagens se tornou exponencial, que as nossas próprias imagens hoje nas redes sociais chegam antes de nós, nos representam e expressam. Temos aqui um campo interessante de pesquisa e pensamento. A relação mais irracional entre imagem e valor se dê talvez na imagem publicitária, campanhas cujos custos se igualam ou superam, em algumas vezes, o valor do próprio produto (como nos grandes lançamentos de filmes). Entramos em relações da ordem do “incomensurável”, em que a âncora que valora imagens e produtos é da ordem do imaterial e do “sem medida comum”. O quantum de trabalho, de inteligência, de tempo despendido na fabricação da imagem industrial e da imagem publicitária, das imagens simbólicas, sendo dessa ordem. Se o chamado capitalismo financeiro perde a âncora com a produção e o real, a imagem-valor, a imagem-capital perde a âncora e qualquer referente fora dela e torna-se autônoma. Um dos nomes dessa imagem-onipotente, auto-evidente é “mito” ou ainda “clichê”. Encontramos a mesma metáfora por todo lado. “O capital atinge um tal grau de acumulação que se torna imagem”, diz Debord, a imagem industrial seria a parte visível do valor, sua visualização. Uma boa parte do esforço da arte e do cinema contemporâneo é arrebentar essa imagem auto-evidente, arrebentar a imagem-onipotente, arrebentar os clichês, fender as imagens e ler as imagens.

Qual é o sentido político de estudar as imagens no contexto presente?

As imagens estão na base de uma mutação antropológica em que experimentamos uma espécie de metanarrativa sobre nós mesmos. Alice atravessou o espelho na cultura das imagens que se tornaram vitais. Eu sofro de iconofilia e não de inconofobia, por isso não acho produtivo os discursos de demonização das imagens, seja da teoria da comunicação, da crítica de cultura, de curadores ou das religiões. O “horror” e o medo das imagens. As imagens sempre tiveram poder e potência. O medo das imagens remonta aos séculos VIII e XIX, crise da iconoclastia bizantina. A valoração ou interdição das imagens marca a história do cristianismo, judaísmo, marca o mundo árabe e chega ao mundo contemporâneo em que a imagem é cultuada ou interditada, já que em algumas tradições religiosas é considerado herético tentar representar a transcendência de Deus através de “meras” imagens. E em algumas tradições críticas a imagem ocupa o lugar do “assujeitamento”, do “simulacro”, do “engano”. O catolicismo soube utilizar a potência espetacular das imagens, as esculturas de santos, as pinturas, os vitrais, as catedrais como dispositivos visuais, os afrescos maravilhosos, toda a arte sacra. De certa forma, as novas tecnologias vêm atualizar esse culto das imagens, e ao mesmo tempo, com a disseminação das tecnologias de produção de imagens, elas passam a ter uma relevância ainda maior em nosso cotidiano. Quando as imagens se tornam onipresentes, quando podemos nos expressar e comunicar pelas imagens, vejo surgir também novas potências nessa banalidade das imagens, forjadas em homevídeos, em dispositivos de trabalho e lazer, celular, gadgets. Mas será necessário ainda liberar essa nova energia da imagem comum, no sentido de que são imagens compartilhadas com uma multidão, capazes de circular tão velozmente por diferentes dispositivos, mas ter uma vida curta, descartadas, vagando pelo esgoto público das imagens, as redes. Isso é fundamental, pensar uma sobrevida das imagens, um devir, digamos, estético, artístico-político dentro do próprio campo ampliado da cultura contemporânea. O capitalismo hoje é estético, trabalha com formas, afetos, design. É o mundo de imagens que é associado aos produtos que vai agregar valor e torná-lo desejável. A imagem é o novo capital, como dissemos. Capital real/simbólico, potência estética e disruptiva, força de resistência e criação. Então, eu acredito nas imagens, e acho que a crença nas imagens tem a ver com suas diferentes funções, inclusive essa relação cotidiana, uma dessacralização das imagens em que cada um de nós pode ser um criador, uma imagem do tipo especial, capaz de se associar a outras imagens e gerar novas imagens.

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