Uma metodologia para pensar os rastros do hardware

Minha pesquisa propõe que o hardware deixa rastros em diferentes tipos de experiências estéticas da chipmusic. Esses rastros são capazes de acionar imagens-lembrança da virtualidade hardware. Mas, antes de chegar a isso e aos empíricos, foram realizadas entrevistas por e-mail com os integrantes do Coletivo Chippanze, para eu conhecer seu trabalho, aspirações e inspirações.
Depois dessa aproximação, passei a analisar outros produtos relacionados chipmusic, além da música gravada. Para a escolha do corpus, a cartografia foi um método importante. Cartografar é implicar-se no movimento para, a partir daí, fazer uma cesura. Na investigação científica, o cartógrafo se entrega ao caminho, como o flâneur de Walter Benjamin, que se deixa levar e se perder pelas ruas da cidade. Seguindo esse pensamento, realizei um passeio pela chipmusic, observando suas criações (músicas gravadas, vídeos de apresentações), mas também suas formas de circulação e comunicação (sites, capas de álbuns). Selecionei o corpus entre as produções dos coletivos Chippanze e 8bitpeoples disponíveis em seus sites.
Depois de fazer essa sistematização dos materiais encontrados, utilizei a dissecação, procedimento proposto por Suzana Kilpp, para observar como o hardware deixa rastros na chipmusic. Como o nome pressupõe, a dissecação proposta e desenvolvida pela autora é uma metáfora da dissecação do cadáver, de Leonardo Da Vinci. Ela permite que algo seja retirado do fluxo e possa ser analisado sem perder de vista o contexto, o que vai ao encontro do proposto pela intuição, de se colocar no movimento e analisar a imobilidade como parte de algo movente. Foi utilizando esse método que pude observar os rastros do hardware que aparecem na chipmusic, mas também perceber o contexto tecnocultural que existe por trás do resgate desses rastros.
Importante ressaltar que penso o hardware como conceito, o que significa dizer que ele pode se atualizar inclusive em máquinas, mas que ultrapassa esse aspecto. Isso também pode ser um tipo de “metodologia” que eu adotei.
De um lado, a virtualidade hardware é que faz com que os equipamentos já obsoletos retornem e sejam refuncionalizados na chipmusic. A partir do momento que o ser humano passou a utilizar instrumentos como extensões de seus sentidos, o desenvolvimento dessas ferramentas foi cada vez mais rápido. Criamos relações com os equipamentos e, mesmo que em certo momento eles se tornem obsoletos, eles ainda fazem funcionar a sociedade e a cultura quando se atualizam, seja por questões de gosto, nostalgia ou estética. De outro lado, a sociedade e a cultura reforçam essa duração por meio de fenômenos e movimentos como a retromania e o fetiche pelo passado, a nostalgia e o gosto pelos games, entre outros. Diversas máquinas já caíram em desuso e elas só resistem a essa obsolescência porque por trás existe uma máquina cultural que tem memória, que dura e que as atualiza para outras funções. O hardware durante, dessa forma, acaba sendo também um produto/construto da cultura. Assim como ele exerce influência nas práticas sociais e culturais, também é produzido ou desenvolvido por meio delas.
Isso é pensar tecnoculturalmente, ou seja, pensar que em torno de cada desenvolvimento tecnológico se desenvolvem práticas sociais e culturais. Os meios de comunicação não morrem nem desaparecem, como afirma Jenkins. O que morre são apenas as tecnologias de distribuição, ou seja, as ferramentas que utilizamos para acessar o conteúdo dos meios. O mesmo acontece com o hardware. Mesmo que a materialidade primeira na qual ele se atualiza se torne obsoleta, ele continuará existindo como virtualidade e se atualizando em outras materialidades diversas. Se esses equipamentos possuem memória, não é essa memória que apenas os conserva, mas uma memória que prolonga seu efeito útil até o momento presente.

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