15ª Primavera dos Museus: Entrevista com o diretor do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, Welington Ricardo Machado da Silva

postado em: Atualizações, Entrevistas | 0

Hoje, (22/09) acontecerá a primeira live em parceria com o Museu da Comunicação de Porto Alegre e o TCAv. A live começará às 19h30min e será transmitida pelo canal do Portal Mescla no YouTube. Esse evento faz parte da programação oficial da 15ª Primavera dos Museus, organizada pelo IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) com a temática “Museus, perdas e recomeços”. 

Na conversa, que tem como tema repensar a comunicação como museu e o museu como memória da comunicação, estarão presentes o Museólogo e Diretor do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, Welington Ricardo Machado da Silva, o Prof. Dr. Gustavo Daudt Fischer, a Profa. Dra. Sonia Montaño, com a mediação da Profa. Dra. Cybeli Moraes. Com o objetivo de celebrar o início dessa parceria, realizamos uma entrevista prévia com Welington Silva, diretor do MUSECOM.  

Confira na íntegra abaixo e bom evento. 


TCAv: Hoje iniciaremos com uma live dentro da semana de Primavera dos Museus organizada pelo TCAv e o Museu da Comunicação de POA, inaugurando uma parceria que contará com outras atividades e outras lives, certo? 

Welington: Essa primeira live vai ter uma dinâmica de debates com o mote “repensando a comunicação”, onde vamos discutir os elementos de potência no que toca o estudo e a prática da comunicação nas suas diversas formas, pensando a partir de uma interface da memória. Dessa comunicação que foi produzida e está no Museu, além de todas as relações que o próprio Museu propõe e desenvolve, vamos falar de como elas podem tocar a comunicação num processo de retroalimentação. O debate vai ser um pouco com essa tônica. 

Nós já traçamos inúmeras outras atividades que podem vir a ser possíveis e vamos estudar a operacionalização de cada uma delas.  Essas ações envolverão desde outras lives como relações de troca no processo em si: na pesquisa de extensão junto com a universidade; com desenvolvimento de eventuais estágios; com integração de visitas técnicas ou atividades técnicas aplicadas ao Museu no escopo das disciplinas de graduação e pós-graduação da Unisinos. Também estamos pensando em espaços de debate visando construir e aprimorar entendimentos sobre as próprias dinâmicas estabelecidas pelo Museu no âmbito da guarda e difusão.  

Para o Museu isso ocupa um espaço muito concreto que é de escuta, uma escuta sensível a nossa comunidade, então buscar essas parcerias e esses laços está contemplado dentro do nosso planejamento. 

Queremos sentar e ouvir agentes que estão da porta para fora do Museu, por assim dizer, mas que tanto tem interesse quanto são produtores e geradores daquilo que está ali dentro, que são os objetos e os fragmentos que representam a memória da comunicação social aqui no estado. É um pouco nesse sentido que a coisa vem avançando e vai ter a sua primeira realização agora na próxima semana. 

T: E como se deu essa parceria? 

W: Essa parceria está iniciando entre a Secretaria da Cultura através do Museu da Comunicação e a Unisinos, por meio do programa de pós-graduação e o grupo TCAv. Para o Museu da Comunicação, ela surge na tentativa de buscar parcerias para incrementar os seus projetos e para ampliar a participação também de toda a comunidade do Museu nas nossas ações.  

Também surge de um contato a partir do corpo docente do programa de Pós-Graduação da Unisinos: o TCAv buscou o Museu para entender um pouco mais sobre como estava a sua atual situação, como vínhamos procedendo frente a projetos, além de entender um pouco a dinâmica compreendendo o que o grupo de pesquisa e as atividades desenvolvidas, tanto nas dinâmicas de Graduação quanto Pós-Graduação, poderiam vir a somar muito com o dia a dia da instituição. Nesse sentido, começamos a conversar e verificar formas de objetivar essa parceria.  

Num primeiro momento, ainda estamos trabalhando na formalização a partir de um termo de cooperação, um instrumento que respalde essa parceria entre o Estado do Rio Grande do Sul, através da Secretaria da Cultura, do Museu de Comunicação e da Unisinos – através do programa de Pós-Graduação em Comunicação e o TCAv. 

No entanto, decidimos que enquanto são organizadas essas partes mais burocráticas, iremos avançando em algumas realizações concretas, desenvolvendo algumas ações que são, à grosso modo, mais simples de serem operacionalizadas e que, também, ajudam a ir ampliando essa nossa conexão – além de conseguir circular essa ideia de parceria numa dinâmica mais pública, por assim dizer. Já estamos divulgando que essa parceria está sendo construída, que ela está se consolidando e que está acontecendo. 

T: Quais as principais metas que o Museu se propôs e conseguiram atingir? O que ainda fica no horizonte? 

W: O planejamento atualmente fica centralizado dentro do plano museológico, que é um instrumento regulado a partir do Estatuto de Museus. Nesse sentido, o nosso planejamento foi organizado em 2019, no início da atual gestão, e tem um período de quatro anos, onde esse planejamento vai ser avaliado de acordo com o que foi alcançado, reorganizando para o próximo período de quatro anos. O nosso plano tem sido dividido através dos vários programas do Museu: parte institucional, parte de acervos, parte educativa, parte de comunicação, parte arquitetônica etc., além de contemplar uma série de objetivos e metas, das quais, várias delas já conseguimos alcançar.  

Começando com algumas no âmbito institucional, conseguimos fazer toda uma rodagem de quadro e uma reorganização de organogramas na parte dos acervos. Temos um foco muito grande no âmbito da virtualização e da documentação desses acervos. Isso era uma prioridade para nós e, a partir dessa virtualização, conseguimos ter uma nova dimensão, no que toca a organização, dos acervos do ponto de vista documental e do ponto de vista do acesso. Conseguimos concretizar isso em 2020, lançando o nosso repositório de difusão museológica, que fica no site do Museu.  

Agora em 2021, lançamos o repositório que vai dar acesso ao público para os acervos com outras características que não a museológica, mas que estão acervadas ali no Museu. São acervos arquivísticos, por exemplo. Também conseguimos obter um alcance no âmbito da promoção de atividades, que são balizadores estratégicos para angariar justamente o fomento das ações. Nesse sentido, a gente vem conseguindo cumprir tanto a parte orçamentária, dentro do próprio quadro da Secretaria da Cultura, como com uma capitação direta.  

Em 2021, por exemplo, conseguimos a aprovação de dois projetos frente a editais de fomento que subsidiaram a produção de um documentário sobre a memória do Hipólito José da Costa. Promovemos um outro projeto, onde conseguimos a higienização, a digitalização e o reacondicionamento dos discos que contém todo o acervo da antiga Casa Elétrica aqui de Porto Alegre. Um acervo super raro e uma digitalização única assim, representando o maior volume digitalizado da elétrica que se tem conhecimento no Brasil todo.  

São ações nesse sentido que estavam e que estão no nosso mapa. O que ainda fica no nosso horizonte é conseguir avançar com esses projetos no sentido de enraizá-los cada vez mais, o trabalho de digitalização e virtualização de acervos. Um trabalho de formiguinha para ampliarmos o volume de material que está disponível nas redes e que está em uma outra relação de conexão com o público. Para o médio e longo prazo, prevemos alguns processos de intervenção mais ampla dentro da estrutura do prédio e da estrutura de guarda dos acervos. Outras questões, são a restauração total do prédio e alguns elementos de reacondicionamento, uma repaginada na estruturação dos nossos ambientes de guarda.  

Outra coisa que está bastante no mapa de maneira concreta e que nós pretendemos concluir em 2022, é o lançamento da nossa política de acervos. Tínhamos uma expectativa de ter essa publicação mais cedo, mas ao estudar e nos aprofundarmos sobre determinadas temáticas do Museu para colocar no papel, percebemos que precisávamos revisar e consultar ainda mais pessoas, ampliando essa escuta e esses entendimentos para construir um material bastante interessante. 

T: O que você acha que a Unisinos e o grupo TCAv podem contribuir para o andamento do projeto? 

W: As universidades, especialmente as voltadas a área da memória, e no nosso caso, na área da comunicação, conseguem imprimir uma dinâmica da teoria e dos horizontes que vem sendo construídos dentro dessas áreas do conhecimento. O grupo de pesquisa, o TCAv, certamente pode agregar trazendo para os debates e para o dia a dia do Museu. Para o cotidiano, a partir dessa parceria, vai se estabelecer um bom tensionamento no sentido de novas ideias, novos olhares e novos direcionamentos que podemos adotar do ponto de vista institucional ao lidar com essa memória. 

O TCAv tem, pelo que eu já pude pesquisar e observar nos conteúdos, um direcionamento bastante grande para a indústria criativa, para inovação e para novas formas de mídia, com debates sobre novas mídias, sobre a cadeia produtiva da inovação são elementos e pontos que certamente em um momento ou outro vão permear o mandato de guarda do Museu. Entendemos que precisamos estar conectados nisso para justamente conseguir apontar a política e a visão institucional no caminho que, também, abrace essas iniciativas. Olhamos com bastante otimismo para conseguir construir uma cooperação técnica entre o Museu e a Unisinos através do TCAv. 

T: Você participou da reformulação do Museu do Inter, o que acha que vai mudando no conceito de Museus? 

W: Sim, eu trabalhei no Inter por mais de três anos e foi minha experiência anterior até vir aqui para o Museu da Comunicação. Nesse sentido, inclusive está em debate atualmente, dentro dos fóruns do instituto, do conselho internacional de Museus, o ICON, uma reformulação no conceito de Museu.  

Isso ainda não está definido, mas a ideia que se tem e o debate atual tem ido muito para esse horizonte de buscar uma formatação de instituições cada vez mais conectadas com as suas comunidades. Há um interesse muito grande da comunidade internacional de Museus em promover Museus mais conectados na plenitude que essa pode representar. Em instituições a serviço da sociedade e amplamente relevantes no dia a dia, no contexto em que estão inseridos. E isso está muito alinhado com o que estabelecemos como missão e a visão do MUSECOM atualmente.  

Entendemos e tentamos reforçar em cada uma das nossas ações e cada um dos nossos projetos, a função do Museu em preservar a memória da comunicação e os suportes da Comunicação Social do RS ou referentes ao RS, tentando imprimir essa lógica de valorização enquanto uma instituição do estado, de valorizar e enaltecer e preservar sobretudo a memória da Comunicação Gaúcha. Também, no ponto de vista daquilo que o Museu tem por excelência, que se constitui hoje como um grande centro de pesquisas, o MUSCOM é uma das instituições museológicas que mais subsidia pesquisas aqui no estado.  

Temos um olhar muito ávido em tentar ampliar e qualificar essas dinâmicas de pesquisa e consolidar o Museu como uma referência nesse sentido. É um processo em que estamos tentando entender com o que de melhor podemos contribuir nesse contexto de estarmos inseridos aqui em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, dentro da temática da Comunicação Social.  

Tentamos de alguma forma imprimir isso do ponto de vista do planejamento que vai estruturar as nossas ações e projetos, colocar isso como uma prioridade no desenvolvimento das nossas características. No nosso caso é essa vocação ao suporte a pesquisa, o atendimento de centenas de milhares de pesquisadores que já passaram aqui pelo Museu ao longo destes mais de 47 anos. 

T: Ainda no quesito de mudanças de paradigmas, com a pandemia de COVID-19 que pegou todos de surpresa. Esse movimento mais do que necessário de arquivamento e digitalização já estava previsto ou se deu como medida de possibilitar o acesso remoto ao acervo? 

W: O planejamento havia sido estabelecido em 2019, então o Museu já vinha trabalhando nesse sentido. A pandemia, óbvio não tem nada de bom, foi horrível para todo mundo e segue afetando muita gente. Mas ali no que toca os projetos do Museu esse contexto em que bateu a nossa porta, a necessidade dessas novas dinâmicas de conexão com os públicos acabou facilitando um pouco a sensibilização de algumas instancias, seja na hora da gente conseguir apresentar esses projetos e homologá-los, seja na sensibilização de alguns agentes internos e externos em priorizar esse tipo de trabalho. 

Então era algo que o Museu já vinha pensando e que a pandemia no caso sublinhou a necessidade. Mas acabou sublinhando, também, a perspectiva da realização, porque de algumas formas, o único jeito de se fazer as coisas era através dessas dinâmicas buscando outros ambientes, como o ambiente digital para poder concretizar os projetos. Foi para nós uma surpresa e a gente lamenta muito ter fechado a instituição por algum tempo no contexto que estávamos, mas também, ao mesmo tempo, foi um contexto que acabou potencializando um pouco a nossa perspectiva de trabalho. Esse foi o ponto menos ruim da pandemia que fez muitas pessoas entenderem melhor o que estávamos propondo e o que estava na nossa esteira de trabalho. 

T: E no sentido de trazer novos olhares e novas perspectivas para o Museu, que já se manifestam na live de hoje, existem planos voltados para redes sociais digitais, a fim de popularizar e tornar cada vez mais universal o acesso ao acervo do Museu? 

W: Desde 2019 estamos empregando um outro olhar bastante particular para trabalhar nas redes sociais. Um dos exemplos, que acaba sendo uma das nossas principais redes em dedicação para geração de conteúdo, e que tem os pilares mais bem definidos, é o nosso próprio Instagram. Ele é atualmente a nossa principal ferramenta de trabalho nas redes sociais. Era uma rede que o Museu não tinha e a partir de 2019 começamos a trabalhar e hoje já temos algumas mil pessoas seguindo a instituição. É um canal que a gente consegue apontar bastante conteúdo. 

Existem outras redes também: a gente vem trabalhando muito com o YouTube, o Facebook, nós já temos os@ no TikTok e no Twitter. Nós já estamos com alguns projetos para lançar ainda nesse mês: um podcast que vai ser quinzenal aqui do Museu; e, além disso, nós pretendemos desenvolver algumas parcerias para a geração de conteúdo bem específico de audiovisual, para poder nos inserir nessas redes com um conteúdo que nós compreendemos ser um ponto chave para ampliarmos a nossa presença e o nosso alcance. Sem dúvidas, as redes sociais estão previstas dentro do planejamento do Museu como ferramentas muito importantes do nosso trabalho. 


A transmissão da live será no canal do youtube do Portal Mescla.

Texto: Gabriel Palma 

Revisão: Camila de Ávila 

Deixe um comentário