“Blockchains e criptomoedas: ruído onipresente e arquivo infindável” – Entrevista com o Prof. Dr. João Martins Ladeira

Palestrante da XVIII Semana da Imagem na Comunicação, João Ladeira, atuou como Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na UNISINOS entre 2012 e 2019, e atualmente é docente na UFPR. Ladeira é jornalista, mestre em Comunicação pela UFF, doutor em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e fez seu pós-doutorado na UNISINOS. Para introduzir o tema de sua palestra no segundo dia da Semana da Imagem de 2020, a doutoranda da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais e integrante do TCAv, Roberta Krause, realizou uma entrevista para antecipar a conversa com o Prof. João. Acompanhe abaixo um “spoiler” dos principais assuntos que serão apresentados hoje à noite.

Pelo título da sua palestra Blockchains e as criptomoedas com ruído onipresente e arquivo infindável, é possível inferir que existe uma relação entre essas práticas tecnoculturais do universo financeiro com a pesquisa em comunicação e iniciativas de armazenamento de dados. O que você pode nos antecipar sobre esses aspectos?

O universo financeiro é apenas parte da questão: blockchains são ferramentas de arquivo, protocolos operados por interfaces na expectativa de tudo registrar. O público tende a identificar blockchains com bitcoins, e essa criptomoeda é, de fato, um uso importante dessa tecnologia. Mas trata-se apenas de um entre vários outros possíveis.

Blockchains são tecnologias digitais para registrar informações – qualquer tipo de informações. O nome dessas ferramentas foi escolhido com muita sagacidade. Pois são, de fato, correntes de blocos, sequência de informações distribuídas como um tipo muito específico de banco de dados. Nele, uma informação pode ser inserida, mas nunca retirada. Um registro se torna indestrutível, e a expectativa é que essa informação dure pela eternidade.

Imagine um exemplo bastante simples. Um objeto é vendido ou comprado. Um blockchain ofereceria um relatório sobre cada transação que envolveu aquele item, permitindo recuperar os locais por onde passou, quem foram seus donos, por quanto foi negociado, em que circunstâncias etc.

Imagine uma eleição. Existe sempre o risco de fraude, pois alguém pode votar no lugar de outra pessoa etc. Mas uma perfeita identificação de alguém produziria um registro preciso sobre os resultados, suprindo a pretensão de extrema segurança.

Imagine um contrato entre duas partes, em que a execução de cada item pudesse ser acompanhada e monitorada a partir dessa tecnologia de rastreamento e de administração, permitindo saber em tempo real se houve alguma quebra nos itens acordados.

Como um acervo sem fim, um blockchain pretende ser uma ferramenta capaz de lembrar tudo que ocorreu, sem nada omitir e nada esquecer. Por isso, chamei-o de “arquivo infindável”, um banco de dados construído para ultrapassar todos os outros bancos de dados, a consumação de uma expectativa que se encontra inscrita no digital há bastante tempo, e que essa ferramenta radicaliza.

Por isso também, há a oportunidade de ruído onipresente. Pois o blockchain consiste num projeto ambicioso a ponto de, a todo momento, produzir um registro de todos os atos desempenhados por todos os indivíduos a cada momento em que eles desempenham alguma função catalogada a partir de um blockchain. Cada gesto sem sentido é apenas ruído, que esse banco de dados pretende registrar, na pretensão de que, de algum modo, desse ruído possa ser extraído alguma informação.

Prof. Dr. João Ladeira

Entre os temas que mais lhe chamam a atenção atualmente estão as tecnologias da comunicação e informação, estudos de audiovisual, arqueologia da mídia e cultura visual. Na sua opinião, quais são os desafios da pesquisa em comunicação atualmente para debater esses temas?

A onipresença dos arquivos se torna o ponto que une todos esses temas, e que define o digital. Ao mesmo tempo, arquivos só podem ser operados a partir de interfaces, que pretendem se afirmar como o substituto das relações instituídas no plano do Real, em termos kittlerianos.

O blockchain é parte de uma tendência maior, que pretende inserir sensores em tudo, em monitorar a maior quantidade possível de frações da vida, na pretensão de transformar redes de comunicação em gigantescas ferramentas de observação, monitoramento e vigilância.

Por trás dos mecanismos de recomendação de plataformas de streaming, de analytics de redes sociais, de ferramentas de distribuição de conteúdo, de todas as dimensões do digital, está essa necessidade de produzir e analisar dados, processando-os mediante interfaces que tornam essa coleta um resultado compreensível.

Nisso, a tecnologia parece afinada com aquilo que Manovich identificou há tanto tempo sobre a natureza do digital. Mas não se trata apenas disso: uma ferramenta como o blockchain permite radicalizar a administração a partir desses dados de modo radicalmente descentralizado. Pois, devido a seu caráter anti-hierárquico, anônimo e flexível, não se torna mais necessária qualquer autoridade para gerir o fluxo e coleta de informações.

Logo, os problemas de pesquisa importantes se tornam essa expectativa de codificação da realidade questão que remonta a Kittler, a partir de um diagnóstico sobre a importância desse objeto cultural que são os bancos de dados, através dessa administração de molecularidades que parece característica ao contemporâneo.

Por fim, gostaríamos de saber qual a influência dos autores mais “caros” à nossa linha de pesquisa, e consequentemente ao TCAv, como Henri Bergson, Walter Benjamin, Villém Flusser, por exemplo, nos objetos que você tem pesquisado recentemente, como cultura algorítmica e streaming?

Cada um desses personagens foi importante em algum momento de meu trabalho de maneiras distintas e em graus diferentes. Mas essa pesquisa, nesse momento, se apoia muito em Kittler, em sua concepção bastante original sobre a necessidade intrínseca às mídias técnicas em processar registros do Real, essa instância vasta e não sistematizada da consciência.

Para isso, dois ensaios de Kittler são importantes: “Drácula’s Legacy” e o texto sobre o Pink Floyd, “Deus nos Ouvidos”. Para nosso autor, o romance de Bram Stoker é menos a narrativa de caça ao monstro e mais um gigantesco inventário sobre as mídias técnicas, pois, para capturar o vampiro, os personagens dependem de fonógrafos, de máquinas de escrever e de pessoas que agem como radares.

Aparentemente, isso poderia não ter nenhuma relação com tecnologias digitais. Mas todos esses aparelhos são usados para registrar manifestações sem sentido que serão posteriormente decodificadas: as palavras de Renfield; as informações que Mina coleta sem compreender, datilografando-as para seu marido e para o Dr. Van Helsing etc.

Essa imagem ilustra a extensa pesquisa de Kittler sobre a importância que essas tecnologias possuem para condensar a dispersão de expressões, a fim de que disso se processe informação. Argumento homólogo foi utilizado pelo autor para analisar a guerra aérea, os sistemas de radares e as tecnologias militares de comando e controle.

Questão de mesma natureza aparece no ensaio sobre Pink Floyd, pois as técnicas de registro sonoro utilizadas em Dark Side lidam com a alta fidelidade como forma de elaborar uma tensão com as ferramentas monoaurais. As primeiras oferecem a sensação de perfeita localização de um som no espaço; a segunda, não, como se uma pudesse se constituir como o radar que a outra jamais seria.

Por que escolher dois ensaios sobre arte para debater algo tão azedo como essa ferramenta de registros? Para demonstrar a ausência de imaginação contida em ferramentas que pretendem se limitar a esse livro de contabilidade do mundo, evitando a desterritorialização radical que se encontra aí contida, mas que se busca evitar.

Os bitcoins foram criticados como um retrato da “sociedade tecnocrática”. Na verdade, são o resultado de um anarco-capitalismo que destrói esse sistema de racionalização do pós-guerra, mas que evita levar suas possibilidades tão longe quanto seria possível, negando-se, em prol da axiomática que recupera as dinâmicas de poder que já deveriam estar velhas de morte, à risada do louco, ao sol que nasce por trás da montanha.

Quer saber mais sobre esse tema tão dinâmico e relevante para as pesquisas em comunicação, e consequentemente para a realidade tecnocultural em que estamos inscritos? Acompanhe a palestra completa com o Prof. Dr. João Ladeira hoje, às 17h, na XVIII Semana da Imagem na Comunicação, em transmissão ao vivo via streaming pelo Facebook do TCAv: https://www.facebook.com/audiovisualidadestcav.

Esperamos você!

Texto: Roberta Krause e João Ladeira.

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