Canevacci propõe o conceito de ubiquidade para problematizar a memória na contemporaneidade

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Na quarta-feira, 17 de agosto, a Semana da Imagem na Comunicação Unisinos recebe o pesquisador italiano Massimo Canevacci. A partir das 20h, no Auditório Pe. Bruno Hammes, da Unisinos, campus São Leopoldo, o antropólogo apresentará a palestra Memória Ubíqua, que, conforme o título sugere, relaciona conceitos de memória e de ubiquidade no contexto da comunicação digital. A abordagem pretende dialogar com a temática da 14ª edição do evento – Memória das Imagens, Imagens da Memória. Canevacci evidenciará as relações entre passado, presente e futuro no que diz respeito à memória na contemporaneidade e as relações entre espaço-tempo experimentadas pelo multivíduo – um sujeito ubíquo que tem experiências aparentemente banais com tecnologias e que, com elas, multiplica identidades, ainda que temporárias. Em entrevista para o site do TCAv, ele adianta a reflexão.

1) Massimo Canevacci - Retrato por Beatriz Sallet [2011] (1)

O conceito de memória não pode ficar “parado” na lembrança do passado por enfrentar o presente ou o futuro. A memória precisa se movimentar e penetrar no desafio da contemporaneidade (o que não significa apenas o presente). O conceito de ubíquo entra neste cenário: à diferença do passado também recente, a ubiquidade se torna a chave para entender e modificar as relações entre indivíduo, tecnologia e espaço-tempo. O multivíduo é ubíquo no sentido que experimenta as simultaneidades comunicacionais – e identitárias – na cotidianidade. Tudo isso precisa ser conectado nos cenários complexos e contraditórios da política mundial e na atividade de cada pessoa.

A ubiquidade é palavra-chave nas pesquisas de Massimo Canevacci. Ele a entende como uma das características mais importantes da Cultura Digital, sendo, por isso, um desafio estudá-la e compreendê-la. Na Metrópole Comunicacional, caracterizada pela comunicação, consumo e cultura, as pessoas podem estar conectadas umas com as outras, por exemplo, através de aparelhos celulares e notebooks – especificamente, redes sociais ou aplicativos, como Facebook e Skype – desde que tenham acesso à internet – o que hoje é relativamente fácil de obter em lan houses e cyber cafés que oferecem esse serviço pago ou gratuito, caso não se tenha conexão em casa ou no trabalho. Elas até podem estar separadas fisicamente por longas distâncias e viverem em fusos-horários distintos; mas, com a cultura digital, tem a experiência de deslocar-se de um lugar para outro sem ter dado nenhum passo. A entrevista com Canevacci foi feita via e-mail: a entrevistadora aqui no Brasil; o entrevistado lá na Itália. Não foi preciso, portanto, embarcar em um avião rumo ao continente europeu para que a conversa, então, fosse realizada. Essas relações, com as quais estamos tão habituados, embaralham noções de espaço e tempo, que se tornam supérfluas para dar lugar às experiências ubíquas, como diria o antropólogo.

Participações constantes, provocações diversificadas

Há cinco anos, em 2011, a Semana da Imagem discutiu O Impacto das Novas Mídias no Estatuto da Imagem. O pesquisador esteve aqui presente, apresentando o conceito Carpe Codex ou “agarre o código” – apropriação da expressão de Horácio carpe diem ou “agarre o momento” – para pensar a comunicação aumentada na metrópole contemporânea. Dois anos depois, em 2013, retornou para enfatizar a pesquisa etnográfica contemporânea sobre comunicação a partir de uma característica ubíqua e propor que o pesquisador transforme o seu corpo em vários olhos – exercitando o fazer-se olho e treinando o olhar – de modo a ver os objetos e a si mesmo. O que resultou em pistas para responder a pergunta-tema daquela edição – Para entender as imagens: como ver o que nos olha?. Em 2016, a provocação é outra: refletir o conceito de memória – importante para o grupo de pesquisa TCAv, do qual Canevacci também é integrante. O italiano, mais uma vez, contribuirá com problematização dos estudos de imagem na Comunicação.

As relações entre imagens, media e social network se apresentam cada vez mais em forma de constelação: isto é, um movimento contínuo de conceitos, metodologias e narrativas para enfrentar o que é, na sua imanência, extremamente mutável… Por exemplo, eu não gosto de falar de novo “media”: este conceito era relacionado a outro (“mass”, massa), com a função de mediar a relação entre o grande broadcasting e a massa, de uma maneira centralizada e massificada. Tudo isso, em parte, claramente continua por um segmento dos públicos (em plural); mas outros, mais heterogêneos e descentrados, consomem e produzem comunicação através da cultura tecno-digital. Afirma-se uma subjetividade mais “multividual”, no sentido de um arquipélago de “eus” que compõem as identidades de cada pessoa. A memória – e sua crise – coloca-se neste contexto: eu queria apresentar o conceito de dimenticanza [palavra em italiano] (esquecimento) ativa.

Na linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação Unisinos, Massimo Canevacci é autor de referência para alunos de Mestrado e Doutorado assim como para professores. O livro A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana, por exemplo, é leitura freqüente nas aulas de metodologia. Aliás, o trabalho dele pode interessar também a quem estuda as questões relacionadas à imagem e ao urbano assim como a quem deseja compreender melhor a cultura contemporânea. Os livros da Semana da Imagem de 2011 e 2013 contêm dois artigos do autor, cujos títulos são: Carpe-Codex: metrópole performática e Corpo cheio-de-olhos: etnografia pós-euclidiana aplicada nas imagens digitais. Esses últimos são ótimas indicações para um primeiro mergulho no trabalho de Canevacci. Sendo assim, a participação do pesquisador no evento promovido pelo TCAv gera impactos positivos nos estudantes da linha. Canevacci compartilha expectativas e comenta como a Semana da Imagem também o impacta.

Eu acho e espero que este evento possa ser mais envolvente numa discussão aberta a cada crítica ou pergunta. O processo de cada pesquisador é de se colocar sempre em observação: em primeiro lugar, por si mesmo e, ainda mais, por outros; em particular, solicitando perguntas também “dolorosas” pelos alunos, sempre bem vindas… Eu queria oferecer a perspectiva “indisciplinada” como chave para mudar a universidade…

Essa perspectiva indisciplinada da qual Canevacci fala é uma característica bem peculiar de suas pesquisas. Ele costuma colocar em contato próximo, por assim dizer, Comunicação, Cultura Digital, Metrópole, Arte, Design, Arquitetura, Indivíduos (ou melhor, multivíduos), Antropologia, Etnografia… Na Semana da Imagem de 2013, na palestra Etnografia ubíqua e composição polifônica das imagens contemporâneas, o antropólogo assinalou que a etnografia é método indisciplinado no sentido de que não pode ficar presa a uma faculdade ou a um departamento. Assim, ele finaliza reforçando que

Não é possível separar arquitetura e design, arte e cinema, publicidade e comunicação digital: a etnografia é um método que agora pertence não apenas à antropologia, mas a qualquer “indisciplina” que queira criar aquele que se move ainda em processo indistinto, mas determinante… Por isso, dialogar com cada fragmento da constelação e inventar outros é a etnografia meta-fetichista: em direção a uma antropologia não mais antropocêntrica.


Massimo Canevacci é doutor em letras e filosofia pela Universidade de Roma La Sapienza. Foi professor visitante de algumas universidades brasileiras, como UFSC, UERJ e IEA-USP. Pesquisa etnografia, comunicação visual, arte e cultura digital. É autor de várias publicações, como SincrétiKa: explorações etnográficas sobre artes contemporâneas (2013) e Fetichismos Visuais: corpos erópticos e metrópole comunicacional (2008).