Minha Pesquisa no TCAv – Amerian Aurich

Dando sequência à série “Minha pesquisa no TCAv” – a qual apresenta pesquisas em desenvolvimento pelos mestrandos e doutorandos da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais e busca exibir perspectivas diversas para a compreensão das audiovisualidades e da tecnocultura a partir dos objetos empíricos – o trabalho desta semana é intitulado, até o momento, Construtos de loucura no cinema contemporâneo: um olhar tecnocultural sobre a insanidade a partir de Coringa (2019).

Antes de adentrar a pesquisa, exibo uma breve apresentação: sou a Amerian, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na Unisinos, na linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais, integrante do grupo de pesquisa TCAv e bolsista CAPES. Realizei minha graduação em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) onde também participei como bolsista de iniciação científica no grupo de Processos Audiovisuais (PROAV) e fui monitora da disciplina de mídia. O afeto e o interesse pelo audiovisual têm delineado meu trajeto universitário e por esse motivo desenvolvi uma monografia que analisa a construção e a representação dos monstros e da monstruosidade na obra cinematográfica do diretor mexicano Guillermo del Toro.

Cena do filme O Labirinto do Fauno (El laberinto del fauno, Guillermo del Toro, 2006). Fonte: Monster Legacy.

Ao ingressar no mestrado, minha concepção inicial em relação ao projeto pretendido era resultado da condição de inexperiência em relação à atividade do pesquisador e às especificidades da Linha de Pesquisa. Logo, os tensionamentos provocados ao longo do trajeto desenvolveram dúvidas e apreensões no que se refere à definição do trabalho e aos possíveis direcionamentos do mesmo. Após orientações com a Professora Doutora Sonia Montaño, disciplinas cursadas, o envolvimento com o grupo de pesquisa TCAv e uma melhor compreensão das noções de audiovisualidades e tecnocultura, o direcionamento do trabalho foi deslocado para a questão da loucura no cinema atual.

A motivação surgiu ao observar que o cinema tem abordado assiduamente a questão da loucura sob variadas perspectivas (narrativas, técnicas e estéticas) e que, à medida em que são criadas, essas imagens fílmicas adquirem novas camadas sobrepostas umas às outras, as quais evidenciam sua complexidade para além da exterioridade. Além de acionar memórias, as imagens de loucura expostas pelo cinema também produzem sentidos, exibindo uma essência dinâmica em sua configuração. Com base nessas observações, o projeto possui como base a pergunta: Como a loucura, pensada enquanto construto tecnocultural, se atualiza em imagens técnicas no cinema contemporâneo?

Com o intuito de refletir acerca dessa questão e de outras tantas que têm surgido ao longo do percurso, o longa-metragem Coringa (Joker, 2019), dirigido por Todd Phillips, e toda sua repercussão nos mais diversos meios, tornou-se central para a pesquisa ao possibilitar reflexões quanto ao cinema hollywoodiano contemporâneo e ao que ele sintetiza sobre a insanidade do nosso tempo. Esta busca por uma perspectiva tecnocultural na loucura, ou melhor, de uma construção tecnocultural da loucura no cinema mostra-se potente para pensar a elaboração da loucura enquanto construção técnica e cultural do cinema contemporâneo.

Cena do filme Coringa (Joker, Todd Phillips, 2019). Fonte: IMDB.

O arranjo metodológico da pesquisa está ancorado em três eixos principais até o momento: a flânerie, as coleções e as constelações, e a metodologia das molduras (Suzana Kilpp, 2003). No estágio atual da pesquisa, o movimento mais avançado é o da flânerie, 

que Walter Benjamin (2009) descreve como uma forma de perambular pelas ruas sem uma direção definida e no ritmo de quem leva consigo uma tartaruga, concentrando-se no trajeto e nos detalhes que o cercam: “Em 1839, Paris foi invadida pela moda das tartarugas. É possível imaginar muito bem como as pessoas elegantes imitavam nas passagens, mais facilmente ainda que nos boulevards, o ritmo destas criaturas” (BENJAMIN, 2009, p.146).

Essa perspectiva teórico-metodológica permitiu a compreensão do filme e da sua tecnocultura como a exaltação do fragmento, que viaja em todas as direções para além do filme com o potencial de implodir os limites do que se entende por uma mídia ou outra. A dinâmica da flânerie pareceu apropriada em função da percepção do filme como uma obra fragmentada, uma vez que além de elementos do próprio filme, houve a apropriação de fragmentos por usuários, meios e plataformas.

Durante a prática da flânerie, foram identificados “rastros” imagéticos e audiovisuais de Coringa pela internet, que vão desde tutoriais de maquiagem para reproduzir a aparência do personagem, memes, tatuagens com o Coringa, filtros de aplicativos, charges políticas, a marcação no Google Maps da escadaria em que a cena foi gravada, desafios de compartilhamento em redes sociais (como o #Jokerchallenge, por exemplo), até manifestações político-sociais a partir de diferentes leituras sobre o filme.

Alguns dos materiais localizados durante a flânerie

Após a flânerie, os fundamentos de Walter Benjamin prosseguiram servindo de base para o desenvolvimento do trabalho, mas agora voltados à figura do colecionador e do gesto de

colecionar ao formar coleções. O autor comenta acerca de indivíduos que acumulam itens e reitera que “a existência do colecionador é uma tensão dialética entre os pólos da ordem e da desordem” (BENJAMIN, 1987, p. 228), uma vez que o ato de organizar a coleção se contrasta à obtenção de novos artigos e à necessidade de catalogá-los, tornando-se um movimento contínuo.

Segundo Walter Benjamin (2009, p.245) “o colecionador […] reúne as coisas que são afins; consegue, deste modo, informar a respeito das coisas através de suas afinidades ou de sua sucessão no tempo”, a vista disso, as coleções foram agrupadas – ainda de maneira bastante provisória e experimental – de acordo com conexões e compatibilidades: elas combinam materiais obtidos no ambiente virtual com elementos apanhados do longa-metragem Coringa, resultando em nove coleções denominadas riso, dança, máscara, transtornos mentais, o louco, palhaço, protesto, violência e isolamento.

Uma das montagens realizada para a coleção dança

No presente momento a pesquisa se encaminha para a reta final, porém, debates, leituras e investigações foram e permanecem necessárias para que o ciclo de construção, destruição e reconstrução da pesquisa prossiga. Os conceitos de audiovisualidades e tecnocultura seguirão acompanhando o desenvolvimento do trabalho na identificação dos construtos de loucura no cinema contemporâneo.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

______. Desempacotando minha biblioteca: Um discurso sobre o colecionador. In: Rua de

mão única (Obras escolhidas II). São Paulo: Brasiliense, 1987.

KILPP, Suzana. Ethicidades televisivas. São Leopoldo: Unisinos, 2003.

Texto: Amerian Aurich

Revisão: Camila de Ávila

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