Minha Pesquisa no TCAv – Flóra Simon da Silva

Chegamos à sétima edição da série “Minha pesquisa no TCAv” – onde serão apresentadas diversas perspectivas sobre as pesquisas dos estudantes da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais segundo reflexões iniciais sobre o objeto empírico articuladas aos conceitos de tecnocultura e audiovisualidades.

Meu nome é Flóra Simon da Silva, integrante do Grupo de pesquisa TCAv (UNISINOS), mestre em Comunicação e professora de Produção Audiovisual (UCS), e nessa edição vou apresentar as minhas primeiras impressões sobre a tese que estou desenvolvendo, orientada pela professora Dra. Sonia Montaño, e seu percurso de construção até o momento. Antes, entretanto, devo dizer como minha trajetória acadêmica me permitiu refletir sobre a proposta da tese, por enquanto intitulada Audiovisualidades de Monstro na série Castle Rock, percebendo os sentidos que a incursão na linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais trouxe para ela. 

Bem, olhando para o estado atual da tese vejo que algumas de suas articulações já haviam sido pensadas em meu trabalho de conclusão da Pós-graduação em Cinema: Significação Fílmica e Fazer Cinematográfico da UCS –  O monstro no Cinema: Terror e Fascínio (2012) – com um viés entre espectador e personagem, e na minha pesquisa de dissertação de mestrado – Da origem do cinema à adaptação do gif: transformações entre a produção de Pulp Fiction e o reconhecimento em Confused Travolta (2018) – uma abordagem do cinema feita segundo o conceito de midiatização dentro da linha de pesquisa Midiatização e Processos Sociais, da UNISINOS. 

É possível perceber na imagem abaixo como imagens de ambas as pesquisas se contaminam: o filme Alien – O oitavo passageiro (corpus da pesquisa da Pós graduação) que é ressignificado ao ser recontextualizado e transformado em um gif Confused Travolta (objeto da pesquisa de mestrado), ao ser posto em circulação no meio digital e onde há apropriações das lógicas audiovisuais.

Vincent O oitavo passageiro – gif Confused Travolta onde Vincent de Pulp Fiction substitui o Alien no contexto do gif

Posso dizer que os personagens (monstros e anti-heróis os quais sempre tiveram meu afeto) e seus contextos já eram de alguma forma vistos como construções do cinema, assim como observadas as técnicas e lógicas audiovisuais que poderiam ser apropriadas e ressignificadas nos meios digitais. Estas perspectivas deram vazão a outras questões relacionadas às produções audiovisuais ao perceber suas lógicas adaptadas em diferentes formatos e suportes. Na tese elas são consideradas pela distribuição de audiovisuais em plataformas de streaming, me levando a explorar o monstro nas plataformas, nos meios e nos acessos, assim como perceber as estéticas constituídas pela minha memória e por processos técnicos e culturais em sua construção, questões caras à linha de pesquisa da qual faço parte.

Dentro dessa proposta, entendo como recorte do caso a série Castle Rock, oferecida na plataforma de streaming da StarzPlay – canal da Amazon Prime Video. A série Castle Rock é inspirada em algumas das histórias e personagens do universo ficcional de Stephen King, e se passa na cidade ficcional de Castle Rock, no Maine. Ela foi produzida por J.J. Abrams e Stephen King, entre 2018 e 2019 – primeira e segunda temporadas. A sua busca em meio a tantas outras produções audiovisuais já revela os primeiros movimentos da pesquisa em busca do monstro audiovisual.

Imagem da primeira e segunda temporadas da série Castle Rock oferecida pela StarzPlay como um canal dentro da Amazon Prime Video

O que trago como proposta de tese de doutorado é que uma narrativa seriada, quando atravessada pelas lógicas das plataformas streaming, deve considerar o meio onde outras imagens técnicas circulam e onde usuários podem fazer parte do processo de construção de personagens da série. Nesse sentido, olho para a série e o ambiente onde personagem monstro e narrativa estão sendo apresentados e onde ele passa a ser um construto que advém de interações socioculturais tensionadas pelas tecnologias. A proposta é entendê-lo como parte da cultura e da técnica – da sua constituição e duração fora da plataforma, da apropriação de outros elementos dentro da memória da mídia e do circuito de imagens na internet.

Essa concepção potencializa investigar também os imaginários e memórias da própria plataforma e como estas imagens são acionadas a partir da interação do usuário segundo as possibilidades de acesso e consumo do audiovisual. Esta perspectiva incidirá sobre a memória que aciona outras imagens técnicas (FLUSSER, 2002) e suas lógicas, problematizando a construção tecnocultural do monstro que não se encerra na série, mas se dispersa em imagens dentro e fora dos enquadramentos percebidas segundo a mídia carregada de memórias (BERGSON, 2006). Assim, articulo o conceito de tecnocultura na pesquisa compreendendo que as mídias geram ambientes e processos entre  tecnologia e cultura sendo que nessa articulação existem potências a serem investigadas dadas as audiovisualidades atualizadas em diferentes suportes e mídias (FISCHER, 2013).

Ao abordar uma narrativa seriada disposta em um meio digital, estamos tratando das audiovisualidades (KILPP, 2009) – conceito que vai considerar o audiovisual como uma qualidade que se mantém em duração – atualizadas neste meio. Assim, o monstro como audiovisualidade (KILPP, 2009), qualidade audiovisual própria de uma tecnocultura de plataformas e compartilhamento é pensada como imagem dialética (DIDI-HUBERMAN, 1998) que possibilita a crítica das imagens formando uma imagem crítica que percebe tempos diversos, memórias diversas.

No estágio atual da pesquisa eu percebo estas audiovisualidades acionadas pela forma de ver e consumir audiovisual observadas na estética constituída pela interface da plataforma, a StarzPlay. Aqui ela é pensada como uma imagem que nos conduz a outras dimensões temporais se levarmos em conta a estética materializada nela e, dela, suas imagens percebidas e acionadas pela memória da mídia e do usuário.

Interface do canal da StarzPlay dentro da Amazon Prime Video que disponibiliza a série Castle Rock a partir de suas lógicas e sentidos próprios

Olhando para este monstro – das montagens de monstro no cinema às montagens de monstro que consideram as plataformas, os meios e apropriações dos usuários – entendo que a interface fornece acesso ao banco de dados implícito na plataforma, apresentando diferentes versões do mesmo material (MANOVICH, 2015). Nesse sentido, vamos de sua imagem ao meio que possibilita o acesso à outras que estão relacionadas à ela e ao seu conteúdo, se fazendo perceber em outras imagens e criando novas narrativas.

Imagem que aparece junto à matéria “Castle Rock entende o horror de Stephen King melhor do que qualquer filme” de Caio Coletti (2018) quando acionamos outros locais do meio à procura de informações sobre a série Castle Rock

O conceito de audiovisualidades permite então pensar a série de um modo mais amplo, olhando para ela na sua interface, mas também, olhando para a série fora de série. A imagem da interface dialetiza o monstro da série que é atualizado em outra materialidade a partir de nossa memória e da memória da mídia, como uma audiovisualidade de monstro.

IT – Associação possível de ser feita a partir da interface da série Castle Rock, do nome Stephen King, produtor da série, e do ator Bill Skarsgard.

Para a pesquisa estes movimentos vistos a partir de conceitos de audiovisualidades e tecnocultura são importantes para compreender que em uma produção seriada, dentro de plataformas streaming  e o meio onde ela é ofertada, o monstro passa a ser um construto que advém de um contexto cultural e técnico. Porém, ainda nesse percurso de descoberta, leituras e movimentos metodológicos à procura das audiovisualidades de monstro tecnoculturalmente construído na série Castle Rock, continuo desenvolvendo a tese ainda com um bom percurso pela frente buscando as imagens desse monstro anacrônico onde coalescem diferentes temporalidades.

REFERÊNCIAS

BERGSON, Henri. A memória ou os graus coexistentes da duração In: Memória e Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem crítica. In: O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998

FISCHER, Gustavo. Tecnocultura: aproximações conceituais e pistas para pensar as audiovisualidades. In: KILPP, Suzana; FISCHER, Gustavo Daudt (Orgs.). Para entender as imagens: como ver o que nos olha? Porto Alegre: Entremeios, 2013

FLUSSER,  Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

KILPP, Suzana. Devires audiovisuais da televisão. In: SILVA, Alexandre Rocha; ROSSINI, Miriam de Souza. (org.). Do audiovisual às audiovisualidades: convergência e dispersão nas mídias. Porto Alegre: Asterisco, 2009

MANOVICH, Lev. Banco de dados. Tradução de Camila Vieira. Revista ECO-Pós, v. 18, n. 1, p. 7-26, 2015

SILVA, S. Flóra. Da origem do cinema à adaptação do gif: transformações entre a produção de Pulp Fiction e o reconhecimento em Confused Travolta. Dissertação de Mestrado. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, 2018.

Texto: Flóra Simon da Silva

Revisão: Camila de Ávila

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