“Nós sobreviveremos na memória dos outros”: o adeus ao pensador das imagens Arlindo Machado

“A sabedoria, como dizia Brecht, continuará sempre passando de boca em boca, mas nada impede que estendamos um microfone às bocas que falam, para lhes dar maior alcance”.

Arlindo Machado (1994)

Recebemos, hoje, com muita tristeza, a notícia do falecimento de Arlindo Machado, doutor em Comunicação, livre-docente e professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Universidade de São Paulo. As pesquisas de Machado abrangem o universo das chamadas “imagens técnicas”, ou seja, daquelas imagens produzidas através de mediações tecnológicas diversas, tais como a fotografia, o cinema, o vídeo e as mídias digitais. Entre sua vasta produção bibliográfica estão os livros Eisenstein: Geometria do  Êxtase (Brasiliense, 1982), A Ilusão Especular: uma Teoria da Fotografia (Brasiliense, 1984), A Arte do Vídeo (Brasiliense, 1990), Máquina e Imaginário: o Desafio das Poéticas Tecnológicas (EDUSP, 2001), El Imaginario Numérico (Eutopias, Valência, 1995), Video Cuadernos (Nueva, Buenos Aires, 1994), Pré-cinemas e Pós-cinemas (Papirus, 1997), A Televisão Levada a Sério (Senac, 2000), O Quarto Iconoclasmo (Contracapa, 2001), El Paisaje Mediático: sobre el desafío de las poéticas tecnológicas (Rojas, Buenos Aires, 2000), Os Anos de Chumbo (Sulina, 2006), O Sujeito na Tela: Modos de Enunciação no Cinema e no Ciberespaço (Paulus, 2007), Arte e Mídia (Jorge Zahar, 2007), além de inúmeros artigos em revistas especializadas. É também co-autor de Os Anos de Autoritarismo: Televisão e Vídeo (Brasiliense, 1985), Rádios Livres: a Reforma Agrária no Ar (Brasiliense, 1986), Made in Brasil: Três Décadas do Vídeo Brasileiro (Itaucultural, 2007) e Pantanal: A Reinvenção da Telenovela (EDUC, 2008). Foi crítico de fotografia e vídeo na Folha de São Paulo durante o período 1984-86.

Fonte: SonharTV

No terreno das artes, foi curador das exposições Arte e Tecnologia (MAC, São Paulo, 1985), Cinevídeo (MIS, São Paulo, 1992, 1993), A Arte do Vídeo no Brasil (MAM, Rio de Janeiro, 1997), Arte e Tecnologia, A Investigação do Artista, Made in Brasil e Emoção Art.ficial II (Instituto Cultural Itaú, São Paulo, 1997, 2001, 2003, 2004) e El Cuerpo como Interface (FT, Buenos Aires, 2007). Organizou várias mostras de arte eletrônica brasileira e internacional para eventos como Getxoko III (Bilbao), Arco (Madri), Art of the Americas (Albuquerque), Brazilian Video (Washington), Medi@terra 2000 (Atenas), L.A. Freewaves (Los Angeles), Image Forum (Tóquio), Plataforma 2006 (Puebla), Visionários (América Latina) e Transitio_mx (México). Participou do corpo de jurados de festivais tais como Videobrasil (São Paulo), BHZVideo (Belo Horizonte), Bienarte (Córdoba, Artes Electrónicas (Buenos Aires), Cenart (México) e Ícaro (Guatemala). Dirigiu seis filmes de curta-metragem em 16 e 35 mm e três trabalhos de multimídia em CD-ROM. Recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia da FUNARTE, em 1995 e o Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia em 2007.

Fonte: REDE GLOBO (2011)

Reconhecido amplamente por seus trabalhos voltados aos estudos de audiovisual, Machado se consolidou também como fonte e interlocutor com o Grupo de pesquisa TCAv tanto pela proximidade teórica com os autores (Henri Bergson, Vilém Flusser e Walter Benjamin), que já permeiam as nossas discussões sobre cinema, TV e fotografia, quanto pela participação em uma das primeiras edições da Semana da Imagem na Comunicação. Convidado pela fundadora da Semana da Imagem, Profa. Dra. Suzana Kilpp, Arlindo marcou presença no Auditório Central da Unisinos com um debate com professores e estudantes de graduação e pós-graduação sobre a imagem e o estágio das tecnologias de início do século 21. Além disso, obras como O sujeito na tela (2007), Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem (2011) estão muito presentes nos debates do grupo de pesquisa por tratar de temas como a inscrição do tempo nas imagens, a qualidade das tecnologias e das artes eletrônicas.

O professor Dr. Ronaldo Henn, do PPG em Ciências da Comunicação da UNISINOS, lembra com saudades do tempo em que foi aluno de Arlindo Machado, em 1989, quando cursava o Mestrado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), para ele, um dos melhores professores de sua carreira acadêmica. “Foi um deslumbramento: o modo original como abordava o audiovisual e toda a imagética que se criava, naquele momento inaugural dos processos de digitalização da imagem e do som, tinham uma potência impressionante”, lembra o pesquisador. Para Henn, muitas das ideias de Arlindo Machado anteciparam fenômenos agora em voga. Ronaldo e seus colegas tiveram acesso em primeira mão a livros como Máquina e Imaginário. “Guardo as anotações de aula até hoje”, destaca o ex-aluno que, como professor, recorre a elas até hoje, para trabalhar com os alunos de Graduação. “Também foi com Arlindo que mergulhei na compreensão das diferentes camadas das narrativas do cinema e da televisão. Do mesmo modo, fui temporariamente fisgado para a ambiência dos games. Por um triz não converti meu projeto original de mestrado, focado no jornalismo, para esses temas, tal o encantamento que suas ideias me provocaram”, relembra o professor.

Para ele, a grande contribuição de Machado foi fundar um pensamento denso e arejado sobre o audiovisual, em sintonia plena com os movimentos em curso na cultura do planeta e do país. No dia-a-dia, como professor, Machado tinha suas particularidades: “Arlindo era muito organizado. Disponibilizava matrizes de todos os textos da bibliografia para reprodução, só que, com um detalhe: a grande maioria em inglês, francês e até alemão (entre eles, a versão em inglês para A Forma do Filme, do Eisenstein – obra que não tinha, na época,  a tradução para o português). Relembro isso com meus alunos quando se assustam com bibliografia em língua estrangeira”, aponta Ronaldo. Ele e um grupo de colegas se reuniam para estudar os textos, cada qual contribuindo com suas habilidades nos idiomas exigidos. “Foi uma experiência de aprendizado muito rica. Nunca vou esquecer”, conclui Henn.

Em entrevista concedida em para a Rede Globo (2011, online), Machado afirmou que sempre se preocupou com a questão da mediação tecnológica na produção de cultura, desde quando atuou como diretor de cinema, nos anos 1970, sendo muito influenciado pela obra de Eisenstein, que “antecipou toda a cultura do computador” e das montagens. Arlindo Machado também se remeteu a McLuhan: “ele me virou a cabeça. Concluí: o mundo de hoje, do século XX, é um mundo eletrônico. Foi então que comecei a trabalhar com vídeo, e realmente desenvolvi um amplo trabalho em torno deste meio”.

Com relação aos estudos de televisão, enfatizou que “nunca consegui fazer uma separação clara entre vídeo e televisão. É a mesma coisa. É a mesma tecnologia, é a mesma linguagem. A diferença é que um vai para o ar e o outro não. A diferença é que um é difundido através de ondas e o outro não. E, claro, na televisão se trata de produtos que têm de passar por um crivo comercial diferente do vídeo, que é mais livre, mas de qualquer maneira a linguagem é a mesma e a tecnologia é a mesma. Por isso é que, trabalhando com vídeo, fui me aproximando cada vez mais da televisão”. O livro Televisão Levada a Sério, portanto, foi um esforço “para preencher um pouco essa lacuna e valorizar na televisão o que deve ser valorizado. Resgatar a inteligência que se encontra nela, dentro de cada área sua, na ficção, no telejornal, no videoclipe”.

Machado (2007) também se remete a Flusser, especialmente no livro Arte e Mídia, afirmando que “foi, possivelmente, o principal mentor intelectual de várias gerações de artistas brasileiros que enfrentam o desafio da tecnologia” (p. 39), com seus primeiros escritos sobre as imagens técnicas – “é possível, portanto, traçar uma relação entre o surgimento das ideias flusserianas sobre a sociedade tecnológica e o contexto das artes eletrônicas no Brasil a partir da década de 1960” (p. 40).

Compartilhamos, abaixo, uma entrevista em vídeo do Arlindo Machado para o canal “Sonhar TV”. Nela, o pesquisador situa as condições e as principais transformações da Televisão. Além disso, Machado também destaca os desafios, os modos de consumo e as potencialidades das artes e das novas tecnologias.

E como bem disse Flusser: “nós sobreviveremos na memória dos outros”. Suas contribuições teóricas seguirão conosco como referência para as atuais e futuras gerações de pesquisadores.


Fonte: 

ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL. Arlindo Machado. Disponível em: <http://site.videobrasil.org.br/acervo/artistas/artista/21159>. Acesso em: 19 jul. 2020.

LATTES ARLINDO MACHADO. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/2824538159346800>. Acesso em: 19 jul. 2020.

REDE GLOBO. Entrevista: Arlindo Machado fala sobre tecnologias e o ciberespaço. Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2011/11/entrevista-arlindo-machado-fala-sobre-tecnologias-e-o-ciberespaco.html>. Acesso em: 19 jul. 2020.

MACHADO, Arlindo. O Fim do Livro? In: Estudos Avançados. n.8, v.21, 1994, maio/agosto. MACHADO, Arlindo. Arte e Mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.


Texto: Aline Corso e Julieth Corrêa Paula

Revisão: Camila de Ávila e Sonia Montaño

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