Por onde andam os Egressos do TCAV? Camila Schäfer

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De volta à nossa série sobre os egressos do TCAv, destacamos a trajetória da jornalista Camila Schäfer, Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, na linha Mídias e Processos Audiovisuais e parte do nosso grupo de pesquisa entre os anos de 2012 a 2014.


Mentalidade Acadêmica

Mesmo distante do ambiente acadêmico desde que defendeu sua Dissertação de Mestrado “ENTRE O NOVO E O OBSOLETO: MEMÓRIA, RASTROS E AURA DO HARDWARE NA CHIPMUSIC” em 2014, a jornalista Camila Schäfer, que começou como redatora na agência de comunicação TRCOM, foi jornalista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e hoje trabalha como Analista de Comunicação na Defensoria Pública do Estado do RS, acredita que a sua experiência com a pesquisa foi fundamental não só para o seu desenvolvimento profissional, como também pessoal.

Além do fato de o título ter me auxiliado a passar em concurso público e a obter progressão na carreira, acho que a experiência acadêmica foi muito importante para meu crescimento pessoal. Um mestrado é totalmente diferente de uma graduação ou de uma especialização. É uma mudança de mentalidade muito grande. Passamos a questionar mais, a valorizar a ciência, a entender que as dúvidas serão mais comuns do que as certezas e que só poderemos ter certeza de algo depois de muita pesquisa. Como eu trabalho com informação para o público em geral (antes na área da saúde e, agora, na área jurídica), é essencial que eu cheque os dados antes de uma publicação, sob pena de incorrer em erro. Então acho que essa “mentalidade acadêmica” foi o que mais agregou na minha vida pessoal e profissional, o que, consequentemente, reflete na sociedade em geral, de certa forma”.

Camila, hoje afastada do ambiente acadêmico, não descarta um projeto de Doutorado no futuro

Um mergulho na Chipmusic

Interessada por videogames desde jovem, Camila tinha entre suas lembranças mais fortes as músicas dos jogos sobre os quais passou boa parte de sua adolescência se divertindo. Ao descobrir uma cena musical que se voltava para executar os temas clássicos desses jogos, criou, em 2008, o blog Console Sonoro, onde publicava pesquisas sobre o assunto e entrevistas que fazia com bandas de todo o Brasil. Esse interesse levou ao seu TCC no curso de Jornalismo da Unisinos, defendido em 2009 e mirando na autonomização da game music. Assim, Camila chegou à Pós-Graduação com um projeto de pesquisa que tinha como objeto de estudo a cena chipmusic, focada em um tipo de música produzida a partir de sons gerados pelo chip de áudio presente em consoles de videogame e computadores domésticos antigos, considerando-a como uma atualização da virtualidade hardware.

Para isso, a então mestranda se utilizou da visada tecnocultural, “uma forma de pensar culturalmente as tecnologias e de entender as propriedades tecnológicas em ação na cultura”, como destaca Camila. O objetivo foi identificar como e por que o hardware dura nos mais diferentes produtos desta cena, seja nas capas dos álbuns, nas músicas gravadas, nos sites ou nos vídeos reproduzidos nas apresentações ao vivo. Para analisar estes empíricos, foram realizadas entrevistas e utilizados os métodos da intuição, da cartografia e da dissecação, procedimentos que mostraram que os produtos da chipmusic incorporam rastros dos hardwares de determinado estágio da técnica, que é ligeiramente anterior à cultura do software. Esses rastros também têm relação com microculturas contemporâneas (hacker, gamer, retrô) que atravessam e que são referência para a cena, além de acionarem imagens-lembrança que, por sua vez, fazem parte da memória dos equipamentos, das microculturas e do estágio da técnica que são resgatados na chipmusic.

Circuit bending com joystick e teclado, exemplo de hardware utilizado na Chipmusic

Dessa forma, a pesquisa de Camila constatou que o hardware pode ser pensado como uma virtualidade que perpassa a sociedade e a cultura, atualizando-se não só nos equipamentos a, b ou c, mas também em manifestações culturais diversas. As ações dos usuários da chipmusic, portanto, são uma forma de garantir o protagonismo cultural e a aura dos hardwares dentro de uma época histórica em que os softwares se fazem cada vez mais presentes e a obsolescência cada vez mais veloz. 

Camila considera que as bases teóricas e a imersão no PPG proporcionada pela linha Mídias e Processos Audiovisuais foi fundamental para a construção de sua pesquisa:

Acredito que a linha de pesquisa aprofunda conceitos e traz reflexões e visões diferentes daquelas com as quais estamos acostumados. Mesmo sendo jornalista de formação e não entendendo absolutamente nada de música, consegui estudar uma cena musical a partir de seus produtos e manifestações culturais porque tive contato com autores e conceitos que a linha trabalha. Sinto que fui totalmente retirada da minha zona de conforto, que minha mente abriu”. 


Os anos de TCAv e os próximos

Sobre sua atuação no grupo de pesquisa TCAv e como isso influenciou sua forma de encarar a pesquisa, Camila destaca a importância que a oportunidade de poder conversar, debater e trocar informações com outros pesquisadores, mestrandos, doutorandos e professores, teve em sua trajetória enquanto parte do grupo:

Infelizmente, hoje em dia não tenho mais contato com o grupo e acabei seguindo por um caminho bem menos acadêmico. No entanto, as discussões realizadas ali abriram a minha mente para a minha pesquisa, trouxeram contribuições importantíssimas e insights que eu acho que jamais teria sozinha. Acho que essa troca é o mais importante e o que mais agrega na vida acadêmica, porque mesmo que um pesquisador passe muitas horas de seu dia estudando, é no debate e na troca de ideias que as pesquisas realmente se desenvolvem, a meu ver”.

Sobre o futuro, Camila admite uma inquietação, imaginando os próximos passos profissionais e deixando em aberto novas decisões. Embora no momento não pense em retornar ao ambiente acadêmico, considerando antes alguma atividade de formação mais prática ou uma especialização que possa dar um retorno mais direto no seu trabalho do dia a dia, um projeto de Doutorado (e quem sabe até dar aulas) também é uma possibilidade, desde que isso faça sentido em um aspecto mais amplo de sua vida:

Não penso em fazer por fazer ou para acumular títulos. Como o cenário muda a cada dia (vide o exemplo da pandemia), nada garante que eu não vá mudar de ideia amanhã, hehehe”.


Texto: Camila Schäfer e Augusto Bozzetti

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