Por onde andam os Egressos do TCAV? Lidiane Mallmann

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Integrando a série de matérias sobre os egressos do TCAv, com objetivo de criar uma memória dos membros e das respectivas pesquisas que fizeram parte da trajetória do grupo, a convidada desta semana é Lidiane Mallmann.

Ela é mestre pela linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. Na oportunidade foi bolsista da CAPES e orientada pela professora Dra. Sonia Montaño. Sua formação inclui também a especialização em fotojornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e o bacharelado em jornalismo pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Mallmann é conhecida especialmente pela sua premiada atuação no campo da fotografia jornalística. Atualmente atua no jornal O Informativo do Vale, que cobre os municípios da região do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul.

Lidiane Mallmann

Sobre a dissertação

Na sua pesquisa de mestrado, intitulada Processos meméticos: imagens e multiplicação de sentidos, Mallmann investigou imagens contemporâneas atravessadas por aparelhos, por softwares de manipulação e por dispositivos de redes sociais. O recorte da pesquisa foi o aplicativo de rede social Instagram, em que ela tratou das imagens técnicas e da multiplicação de sentidos na sua interface. Na abordagem, foram tratados conceitos como imagem meme, imagem memética e processos meméticos com o objetivo de teorizar os diversos estágios dessas imagens e pensá-las como processos audiovisuais.

O corpus da pesquisa foi o “Caso Garotinho”. A partir desse episódio imagético-político, foi realizada uma cartografia da imagem meme central: a resistência à prisão do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. “Durante o processo de pesquisa, e isso ficou marcado na sua conclusão, consegui perceber também onde estavam os sujeitos, que chamei de usuários, neste processo de comunicação”, conta Mallmann. Trabalhando com o método do scannig flusseriano, foi realizado um mapeamento que levou à compreensão da dinâmica entre a interface do Instagram, o funcionamento do software, a natureza das imagens e as ações e apropriações desses usuários.


A visão da pesquisadora

“A minha experiência do mestrado foi riquíssima, com grandes aprendizados. Posso dizer que possibilitou que eu enxergasse as imagens dentro de um contexto ampliado e que eu entendesse a imagem contemporânea. A participação no TCAv contribuiu para eu pensar a respeito de outros objetos de pesquisa em imagem através das lentes do campo da comunicação. No contexto atual, ter estudado imagem foi muito válido para eu executar o meu trabalho. A pesquisa no mestrado, as reuniões de orientação, as aulas, as disciplinas, a participação no grupo de pesquisa, as leituras, a produção de textos, toda essa imersão nos estudos fez com que o meu conhecimento aumentasse de forma considerável. A partir do mestrado me sinto uma profissional mais completa, que pensa não apenas a técnica, mas os sentidos produzidos pelas imagens que produzo diariamente. Tudo isso é comunicação, e foi com o mestrado que as coisas ficaram mais claras para mim.”


O impacto social da pesquisa

Ao passo que Mallmann é uma fotojornalista atuante, ter realizado uma pesquisa acadêmica em uma linha de pesquisa voltada às audiovisualidades, a qualidade que opera como um devir intrínseco aos processos da imagem na contemporaneidade, tem-se um impacto imediato em seu trabalho. Para ela, “fazer pesquisa é ir além do que se vê”. O profissional que vê para além das dinâmicas superficiais, e procura se alfabetizar nesse outro mundo de formas, genealogias e conceitos, estudados desde os princípios das ciências, monta um repertório capaz de produzir novas abordagens técnico-comunicativas.

“Eu sempre considerei importante estudar, tanto a técnica quanto o conteúdo de tudo que é produzido pelo profissional. Dessa forma, acredito que é possível ir além de apenas uma operadora de equipamento – no caso, a câmera fotográfica”. Fotografar é mesmo muito mais do que “apertar o botão”. A cada dia que passa, as imagens se tornam mais importantes para os nossos fluxos sociais, tendo naturezas e dinâmicas próprias, ainda bastante incompreensíveis para a maioria de nós. As dinâmicas inter-relacionais entre imagem técnica, algoritmo, software, literacia são ainda bastante desconhecidas. Somando-se a isso, vivemos em uma sociedade em que o jornalismo sério e comprometido também se torna cada vez mais imprescindível. Fotojornalistas com competências de leitura imagética, de pensamento contextual, sócio-histórico, econômico etc., são fundamentais para o nosso tempo.

Fotografia que recebeu Menção Honrosa no 34º Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo, na Categoria Fotografia, em 2017. Título da foto: Superlotação no Presídio – Presídio Estadual de Lajeado. Crédito da foto: Lidiane Mallmann / O Informativo.

“Pensar a tecnocultura como parte disso tudo, me deu a possibilidade de entender o tipo de comunicação que está sendo feita na contemporaneidade, e, neste momento, é muito importante para quem executa e trabalha diariamente produzindo imagens, operando aparelhos e fazendo comunicação social.”

Por outro lado, a pesquisa de Mallmann contribui para uma reflexão sobre as imagens publicadas nos sites e nos aplicativos de rede social. “Vivemos num mundo de aparelhos, e de sujeitos que produzem imagens. É preciso entender essas imagens, editadas, manipuladas, feitas por aparelhos que estão comunicando o tempo todo”. O conhecimento sobre esses processos imagéticos, suas técnicas e estéticas, tendo o meme no centro das atenções, é essencial para superarmos esse período de crise.


Texto: Julherme José Pires.

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