Sanduíche no Gamification Lab – Entrevista com Eduardo Luersen

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Uma das possibilidades mais interessantes em uma pós-graduação é de fazer uma parte da formação fora do país, em instituições parceiras. Além de ser algo importante para a formação individual, essa formação possibilita uma troca de conhecimento que é um fator de desenvolvimento dos próprios programas de pós-graduação e da Universidade como um todo. A Unisinos entende que a internacionalização possui um escopo intercultural e que “o acesso à informação derruba barreiras culturais e traz o universo particular de cada povo para todos os povos.” (UNISINOS, 2018a, p.5)

O processo de internacionalização tem como objetivo a expansão de relações institucionais, participação nos sistemas de intercâmbio e dupla-titulação; a interação com   instituições   educacionais, científicas   e   tecnológicas a fim de promover a cooperação internacional no desenvolvimento da pesquisa acadêmica   e   tecnológica; qualificar a produção intelectual e tecnológica gerada na Unisinos; promover a solidariedade acadêmica internacional; dentre outros. (UNISINOS, 2018a, p.13).

O egresso TCAviano Eduardo Harry Luersen, autor da tese “Ressonância tecnocultural: rastros da ambiência contemporânea nos jogos digitais” realizou seu doutorado sanduíche no Gamification Lab, na Leuphana Universität Lüneburg na Alemanha. Na entrevista a seguir ele nos conta sobre como foi o processo de escolha de instituição e orientador, o processo de adaptação e as contribuições desse período para sua pesquisa e para o grupo TCAv.

Leuphana Campus. Foto: Eduardo H. Luersen.

Porque você resolveu fazer um pedaço de sua formação fora do país? Como foi o processo?

Oportunamente, uma das organizações que provém bolsas de pesquisa na Alemanha (DAAD) abriu um processo flexível o suficiente para comportar uma proposta de curta duração, adequada ao meu cronograma na Unisinos, na ocasião. Eu teria o interesse de fazer o estágio em outros países, em outro continente, se tivesse a oportunidade. Porém, o fato de ter um conhecimento prévio sobre dois institutos de pesquisa alemães – o Center for Digital Cultures (CDC – Leuphana) e o Signal Lab (Humboldt Universität) – foi muito importante, por haver uma série de alinhamentos epistemológicos com a pesquisa que eu desenvolvi no doutorado. Ainda assim, eu tinha em mente que cada um destes institutos contemplaria diferentes dimensões do meu trabalho. No CDC, me parecia que o aprofundamento se daria no campo da digitização da cultura e da história da computação, o que de fato ocorreu; no Signal Lab, eu possivelmente teria experimentado uma perspectiva teórico-metodológica mais radical da arqueologia das mídias, o que ofertaria uma qualidade particular neste aspecto do meu trabalho.

Assim que soube do edital para concorrer à bolsa, resolvi escrever para dois pesquisadores com trabalhos consistentes nas áreas da estética dos jogos e da mediação técnica do som, respectivamente, para apresentar a minha pesquisa e sondar a possibilidade de me receberem no período do sanduíche: o Mathias Fuchs, em Lüneburg, e o Wolfgang Ernst, em Berlim. Estas trocas foram interessantes por si, pois ambos se propuseram a conversar sobre o meu projeto, a explicar sobre as especificidades dos programas em que trabalham e também me colocaram em contato com outros colegas de seus grupos de pesquisa. Com o Ernst houve o problema de que a data estimada para o sanduíche coincidiria com o seu período sabático, mas felizmente não houve nenhum entrave deste tipo com o Mathias. Então o critério inicial foi baseado na perspectiva epistemológica mais larga, enquanto que as contingências do cronograma e do país de destino da mobilidade acabaram tendo também um papel decisivo.

Estudar no exterior já era algo que eu planejava há bastante tempo, pois queria a experiência da viagem e de morar em outro país, ainda que por um curto período. À parte disso, sempre considerei que seria importante do ponto de vista da minha formação como pesquisador conhecer e morar em outros lugares. Esse interesse em saídas frequentes (do lugar, do Estado, mas também do campo de conhecimento) sempre esteve no meu horizonte, e provavelmente vai continuar por aqui.

Estudar no exterior já era algo que eu planejava há bastante tempo, pois queria a experiência da viagem e de morar em outro país, ainda que por um curto período. À parte disso, sempre considerei que seria importante do ponto de vista da minha formação como pesquisador conhecer e morar em outros lugares.

Anamorfoses de cilindro espelhado. Museu Alemão do Filme, Frankfurt. Foto: Eduardo H. Luersen.

Como foi o processo de adaptação?

Foi bastante tranquilo. Como Lüneburg é uma cidade de interior, boa parte do meu dia-a-dia, durante a semana, girava em torno do instituto e da universidade. Nestes ambientes, o inglês era quase um idioma nativo.

E como a Leuphana é uma universidade que tem a internacionalização como um princípio importante, que baliza diversos programas conjuntos e iniciativas multilaterais de pesquisa, isso também foi muito facilitado. Acredito que, nesse curto período, eu deva ter conversado com pessoas de uns 30 países diferentes, pelo menos. A universidade tem alguns programas para auxiliar neste processo e, especialmente no CDC e no MECS[1], o ambiente era muito acolhedor. Mas neste aspecto eu estava também interessado em conhecer os arredores da Baixa Saxônia pela experiência mais prosaica, nas conversas no trem, nos bares e cafés etc, o burburinho cotidiano e os seus “silêncios irracionais” particulares, pra usar a expressão do Albert Camus. Neste sentido, o processo teve um tanto de adaptação, mas também um bocado de experiências fora de lugar, um pouco desajustadas mesmo. Acredito que as últimas nos ajudam a conhecer um pouco melhor as peculiaridades daqueles lugares que visitamos, tanto como daqueles de onde viemos.

Programação – Oficinas e colóquios. MECS verão 2019. Foto: Eduardo H. Luersen.

Em relação ao seu objeto de estudo, quais diferenças de abordagem você percebeu? Isso ocasionou mudanças na forma como você conduziu o seu estudo?

Cheguei na Leuphana com quase metade da minha tese elaborada, com um sumário expandido bem estruturado, com métodos testados. Conversei muito com meu orientador do sanduíche e fiz algumas oficinas de escuta e de estudos de som que, no caso das análises do material audiovisual, foram importantes. Devido ao estágio em que o trabalho já estava, contudo, não houve uma mudança substancial quanto à sua estrutura. Assim, entendo que as maiores contribuições, no caso do meu trabalho, se referem ao amadurecimento de algumas perspectivas teóricas, na medida em que determinados fundamentos passaram a ter maior relevância na tese em detrimento de outros – minha aproximação da obra tardia do Bernard Stiegler e de questões da simulação computacional, por exemplo, certamente se devem ao refluxo das discussões das quais participei nos colóquios do CDC e do MECS.

Além disso, a maioria das pesquisas do instituto tinha um forte caráter transversal, que também não abria mão do rigor do conhecimento especializado. Isso significa dizer que, na prática, muitos dos grupos que desenvolviam projetos lá se concentravam em torno de um objeto ou uma questão de pesquisa comum, seguidamente reunindo pesquisadores e mesclando métodos das ciências naturais e das humanidades. Como exemplo, posso citar a pesquisa da Ariana Borelli, que trabalhava com física nuclear no CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear) e que tem desenvolvido com o seu grupo um trabalho sobre a história do acelerador de partículas, sob uma perspectiva dos tempos profundos das mídias. Para dar uma ideia mais clara, só no período em que estive no instituto, havia pesquisadores da filosofia, da engenharia, da história, das ciências políticas e sociais, da química, da comunicação, do cinema, da administração, da ecologia, do teatro, da antropologia, da produção musical e do design. Essa me pareceu a direção mais instigante de um centros de estudos avançados, pelo interesse em explorar em profundidade algum fenômeno contemporâneo particularmente desafiador às disciplinas individualmente. E isso de certa forma caracteriza a estrutura organizacional da Leuphana como um todo.

Isso tudo para dizer que, na prática, enquanto “abordagem”, esta perspectiva não é algo que eu teria como simplesmente “incorporar” à minha pesquisa seriamente, no estágio em que ela já estava – pois este se trata de um princípio de base, estruturante. Mas é algo que estou considerando na elaboração de meu projeto atual, mesmo considerando as dificuldades implicadas e as limitações enfrentadas ao se considerar uma megaestrutura epistêmica logo em um começo de trajetória. Porém, estou costurando isso aos poucos.

só no período em que estive no instituto, havia pesquisadores da filosofia, da engenharia, da história, das ciências políticas e sociais, da química, da comunicação, do cinema, da administração, da ecologia, do teatro, da antropologia, da produção musical e do design.

Pequena coleção de minigames portáteis. Museu dos Jogos e Computadores de Eras Passadas, Breslávia. Foto: Eduardo H. Luersen.

Que contribuições você trouxe para o grupo de pesquisas TCAv e para a UNISINOS?

Apresentei minha avaliação do processo de sanduíche para o grupo de pesquisa em uma ocasião, e participei de uma roda de conversa sobre internacionalização da pesquisa com outros colegas do programa. À parte dessas discussões muito pontuais, tenho seguidamente prestado ajuda a outros pesquisadores (não apenas da Unisinos) que gostariam de fazer o processo de mobilidade acadêmica na pós-graduação. Sob a lógica de apresentação de resultados científicos, o estágio no exterior gerou também algumas publicações: uma entrevista com o Peter Krapp, feita em colaboração com um colega do grupo de pesquisa (o Guilherme Maschke) para a Semana da Imagem (evento realizado anualmente pelo TCAv), gerou uma publicação conjunta com um dos professores do TCAv na época (o João Ladeira). Esse encadeamento de textos foi publicado em uma revista do CDC (Spheres). Além disso, neste período surgiu uma oportunidade de publicação internacional de um texto escrito junto com minha orientadora (Suzana Kilpp).

Quanto ao que acredito que seja o mais importante, que é a contribuição do ponto de vista epistêmico, o que tenho a dizer é que o resultado final da tese em si amadureceu bastante com a experiência no CDC, em função das discussões com colegas em workshops e colóquios, e das conversas com meu orientador. É impossível quantificar essa experiência, mas posso dizer que desde as aulas na graduação e na especialização em que participei como convidado, até os seminários de tese do grupo de pesquisa e as apresentações que fiz no Conexão Pesquisa, apresentaram parte dessa bagagem que carrego desde lá, que evidentemente está enredada com a minha experiência anterior no próprio programa da Unisinos. Claro, quando eu retornei, restavam apenas 6 meses até a entrega da tese, período que foi todo dedicado à apresentação de trabalhos, orientações e redação do texto final. O que sinto é que, caso tivesse feito a mobilidade antes, a implicação sobre métodos de pesquisa e a fundação do projeto de tese em si teria sido maior, o que poderia também interessar a outros colegas. Da forma como ocorreu, boa parte desta experiência se materializou na etapa que restava, nas análises e na arquitetura do texto final da pesquisa. Em compensação, estar em um estágio avançado do desenvolvimento da pesquisa no momento da mobilidade permitiu travar debates mais consistentes sobre a mesma, assim como promoveu um engajamento mais pontual e crítico no exterior com relação às análises já em andamento e ao próprio aparato construído para a pesquisa, como um todo. Estes debates podem, claro, atravessar outros trabalhos do grupo de pesquisa, na medida em que há convergências de métodos, teorias e princípios entre as pesquisas desenvolvidas.

Penso que este também é um movimento importante, do ponto de vista da produção do conhecimento científico, embora, para fazer um reparo, eu prefira não descrevê-lo como um processo de “trazer e levar conhecimento”, como sugerido na pergunta. Em vez disso, o vejo como um processo de maturação lenta e irregular, de tensão dialética contínua de uma pesquisa específica em curso. Talvez ainda mais particular ao sanduíche, pelo afastamento temporário do ambiente de trabalho, da convivência com os colegas, pela alienação do espaço familiar, seja o “tomar-conta” da pesquisa e se agarrar a ela, o que é típico de todo final de processo. Mas entendo que isso tenda a ganhar uma proporção especial no caso do estágio no exterior, na medida em que a pesquisa é uma das poucas coisas que continua com o pesquisador ao longo de toda a mudança – à parte das eventuais ligações, o próprio idioma só se preserva na tese.

estar em um estágio avançado do desenvolvimento da pesquisa no momento da mobilidade permitiu travar debates mais consistentes sobre a mesma, assim como promoveu um engajamento mais pontual e crítico no exterior com relação às análises já em andamento e ao próprio aparato construído para a pesquisa

Vectrex (1982). Acervo jogável do Museu dos Jogos e Computadores de Eras Passadas, Breslávia. Foto: Eduardo H. Luersen.

Que dica você daria para quem pensa em fazer o doutorado sanduíche?

Neste ponto, vou reforçar e talvez apenas enfatizar alguns aspectos do óbvio: para quem buscar processos de financiamento do estágio externos à universidade, como no meu caso, a documentação exigida é abundante e os prazos são, em geral, bastante demorados. Então é fundamental um planejamento ainda mais antecipado. Em um cenário ideal, eu sugeriria que o doutorando interessado no processo de sanduíche já tivesse o programa de destino e o período estimado da mobilidade estipulados (e alinhados com o orientador no programa de origem) no semestre anterior à banca de qualificação. Desta forma, o relatório de qualificação também já pode indicar as direções do programa do estágio de sanduíche, o que certamente ajuda a enriquecer este processo como uma oportunidade excepcional para o desenvolvimento da pesquisa.

Além disso, é importante que alguém lhe receba em um bom programa no exterior, mas uma escolha criteriosa do(a) orientador(a) na universidade anfitriã pode dar início a uma cooperação de longo prazo, então eu gostaria de sublinhar que o valor dessa escolha não deve ser subestimado – tanto da perspectiva do aluno como do programa. Em um momento como o nosso, de cerceamento da autonomia das instituições, de confronto aberto à comunidade científica e de precarização profunda dos direitos trabalhistas, o valor disso é autoevidente – e, para além do valor científico e do suporte financeiro, a internacionalização da pesquisa também se trata de um mecanismo de preservação da colaboração multilateral, uma forma de manter as próprias instituições sob a vista de observadores internacionais, em meio às cada vez mais frequentes ações de isolamento geopolítico do país. Assim, eu incentivaria intensamente àqueles interessados em fazer o doutorado sanduíche, que pensassem com muita atenção, junto aos seus orientadores e à coordenação do curso, na escolha dos programas de destino e dos orientadores anfitriões, tendo em vista tanto a criação de novos vínculos institucionais como o fortalecimento das relações de cooperação multilateral existentes.


O Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação está inserido na linha temática TRANSFORMAÇÃO DIGITAL E HUMANIDADES, que tem suas preocupações relacionadas “aos impactos causados pela transformação digital sobre o futuro das humanidades sob o ponto de vista do debate filosófico, político-sociológico, histórico, educacional e aos diferentes processos sociais.” (UNISINOS, 2018b, p.8). A inserção nessa linha temática se dá pelo programa possuir “um conjunto de pesquisas já consolidado no campo da comunicação voltado para os estudos de processos midiáticos, midiatização e cultura.” (UNISINOS, 2018b, p.9). Os países que participam dessa linha são Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América, França, Itália e Suécia.


[1] Instituto de Estudos Avançados das Culturas Midiáticas da Simulação Computacional.

UNISINOS. Plano de internacionalização da Unisinos. São Leopoldo, 2018a. Disponível em <http://www.unisinos.br/global/images/programs/print/Doc-1.pdf> Acesso em 08 dez 2020

UNISINOS. Projeto Institucional De Internacionalização Unisinos. São Leopoldo, 2018b. Disponível em <http://www.unisinos.br/global/images/programs/print/Doc-2.pdf> Acesso em 08 dez 2020

Texto: Leonardo de Mello
Revisão: Camila de Ávila

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