Seminário de Dissertação 2021

O primeiro Seminário de Dissertação de 2021 ocorreu nos dias 05 e 07 de abril no formato online.  O objetivo do Seminário é preparar os discentes para a banca de qualificação, submetendo os trabalhos a uma rodada de perguntas referentes à estrutura da pesquisa, teorias, metodologias, assim como sugestões de leituras e novos caminhos que podem ser trilhados.

Os textos submetidos nessa rodada pelos discentes Amerian Aurich, Júlia Pinto de Souza, Maurício Borges de Medeiros, Andressa Thielly Machado Silveira da Silva, Bibiana da Silva de Paula e Clara Meira Moraes envolveram assuntos como os construtos fílmicos da loucura, a recorrencialidade das imagens, as imagens técnicas de superexposição, performance de gênero e videoarte, a gambiarra como processo experimental e construtos de memória audiovisual.

Na segunda-feira, 05 de Abril, o Seminário de Dissertação foi realizado em formato online com as considerações dos professores Dr. Gustavo Daudt Fischer, Dra. Sonia Estela Montaño La Cruz e Dr. Tiago Ricciardi Correa Lopes e comentários dos discentes integrantes do TCAv (Audiovisualidades e Tecnocultura: comunicação, memória e design), que estabeleceram debates e análises sobre três pesquisas envolvendo Audiovisualidade e Tecnocultura.

Neste dia, os textos submetidos foram:

Construtos fílmicos de loucura no cinema do Século XXI: uma análise de o Farol e Coringa (Amerian Aurich)

Ao observar o leque de filmes abordando transtornos mentais, Amerian decidiu pesquisar as variadas perspectivas narrativas, técnicas e estéticas envolvendo o tema. A mestranda analisa as camadas das imagens fílmicas, o acionamento de memórias e as imagens técnicas de loucura expostas pelo cinema. Para tanto, foram analisados os filmes O Farol (The Lighthouse , 2019, Robert Eggers) e Coringa ( Joker , 2019, Todd Phillips), além de estabelecer relações com outros filmes que abordam o tema a partir dos anos 2000.

Amerian associa a problemática ao método intuitivo do filósofo francês Henri Bergson. Nele os objetos de pesquisa são especificados, o estado da arte é exibido e explanado e os objetivos salientados. Ao se debruçar sobre o tema loucura no cinema, a discente se aproximou das ideias de Levy Neto, Carlos Rezende-Pereira e João Gonçalves.

Como proposta metodológica a aluna apresenta o método cartográfico, sendo um processo sob o qual ela poderá se manter em duração de acordo com o próprio objeto. Esse método consiste em reunir a filmografia para após cartografar as principais molduras, ethicidades e imaginários de loucura presentes nos filmes definidos como corpus da pesquisa.

Na visão do professor Tiago Ricciardi Correa Lopes, a pesquisa está em fase de aprimoramento. “O arcabouço teórico aponta para as mudanças nos dispositivos”. Já para o professor Gustavo Fischer a principal sugestão é avaliar o que o cinema simboliza para a saúde mental do século XXI, “essa questão da loucura e do anti-herói é um fenômeno da tecnocultura e medicalização insana”.

A recorrencialidade das imagens de arquivo em no “intenso agora” (Julia Pinto de Souza)

Há tempos Julia sente um grande fascínio pela semiótica do cinema e ao ingressar no curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Pelotas, em 2015, a busca por similaridades entre filmes se tornou mais pulsante e específica. Agora, no mestrado, essa curiosidade a motivou a pesquisar sobre a recorrencialidade nas imagens de arquivo no documentário No intenso agora (2017), de João Moreira Salles.

O projeto, submetido inicialmente na linha de pesquisa, voltava-se para o impacto dos aparatos tecnológicos na construção de narrativas documentais de viés político. Contudo, no transcorrer do mestrado, houve o direcionamento para o campo da memória, articulando a partir das imagens a ideia de uma recorrencialidade presente nos objetos propostos.

A metodologia está estabelecida em três movimentos distintos: a partir das particularidades percebidas no movimento de flâneur pelas imagens; com avanço para uma abordagem mais consolidada, fazendo uso da cartografia; em seguida, apresenta de forma resumida e dedutiva os movimentos de dissecação que pretende executar na pesquisa.

Na visão da professora Sônia Montano o projeto está bem encaminhado, “é preciso falar da imagem e tudo o que ela tem a dizer e que nunca se esgota”, salienta.

Imagens técnicas de superexposição no cinema: montagem e construção de sentido (Maurício Borges de Medeiros)

A última pesquisa submetida à análise diz respeito a imagens de superexposição no cinema e como elas despertam sentimentos e emoções. Maurício se propõe a analisar filmes e desvendar o que é compreendido e pretendido ao fazer uso dessas narrativas imagéticas. 

A proposta metodológica consiste em constelações, incluindo fontes diegéticas, fontes especiais, flair, contraluz e silhueta, Vermeer, flashbacks, portais e elevações.

Para o professor Tiago Lopes, chega um momento em que é preciso se despir das armaduras técnicas para se expor aos desafios da pesquisa teórica. Com grande potencialidade de pesquisa, Maurício tem boas perspectivas até a qualificação. E é a partir das sugestões propostas pelos professores e colegas que as pesquisas seguirão para a banca de qualificação.


No dia 7 de abril ocorreu a segunda parte do Seminário, agora com os textos das discentes Andressa Thielly Machado Silveira da Silva, Bibiana da Silva de Paula e Clara Meira Moraes e com a participação e colaboração dos professores Dr. Gustavo Daudt Fischer, Dra. Sonia Estela Montaño La Cruz e Dr. Tiago Ricciardi Correa Lopes e discentes da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais. 

Submetidos à rodada de questões e sugestões, os textos foram:

Performance de gênero e videoarte: Masculinidades, feminilidades e violência de gênero no curta-metragem Pink or Blue (Andressa Thielly Machado Silveira da Silva)

Muito próxima do tema tratado, Andressa define uma linha de pensamento que movimenta-se entre as questões de gênero dentro de uma sociedade patriarcal para observar o audiovisual a partir da problemática da violência de gênero no curta-metragem Pink or Blue. O curta-metragem, escolhido como objeto empírico, aborda questões de representação de gênero e tensiona os padrões heteronormativos culturais que determinam o que é feminilidade e o que é masculinidade.

Com um viés epistemológico e de procedimentos metodológicos ancorados nos estudos das audiovisualidades e da tecnocultura, a discente apresenta em seu texto um referencial teórico que parte de estudos do cinema e da videoarte ao conceito de metáfora, abordado a partir de diferentes ângulos. Ao mesmo tempo, apresenta autores que perspectivam temas como gênero e sexualidade para, segundo este referencial teórico, propor uma pré-análise do curta a partir de procedimentos metodológicos como a dissecação, embasada em Kilpp (2003) e o método cartográfico, a partir de Molder (2010). 

Para Andressa a combinação destes dois tipos de procedimentos permitirá verificar primeiramente as figuras metafóricas enquanto construtos audiovisuais nos planos do curta Pink or Blue. Em um segundo momento, planeja analisar as imagens congeladas, os frames, a partir do exercício de dissecação, que permitirá adentrar a superfície dos objetos audiovisuais.

O artista parasita: a gambiarra como processo experimental em artemídias sonoras (Bibiana da Silva de Paula)

Bibiana apresenta sua proposta de investigação dentro do âmbito das artemídias sonoras vindo ao encontro das gambiarras vistas como processos experimentais. Embasando o conceito de artemídias em Parikka (2017), propõe observar em diferentes trabalhos de artemídias, ao operarem com processos híbridos de artesania e subversão de dispositivos eletrônicos dispersos na (tecno)cultura, as invenções de objetos sonoros. Nesse caso, definindo como objeto de estudo as gambiarras nas artemídias sonoras, Bibiana propõe que a qualidade artística que habita nas intenções destes trabalhos possa ser estabelecida como parasita, análoga ao processo de parasitismo estruturado no campo da biologia, porém, ao que interessa o parasitismo relacionado aos processos comunicacionais e artísticos (SERRES, 2012).

Como procedimento metodológico a discente propõe realizar uma cartografia de trabalhos artísticos e outras formas culturais que buscam na gambiarra formas de confecção de dispositivos sonoros. Além disso, visa como estratégia metodológica realizar procedimentos empíricos experimentais, o qual ela denomina de Laboratório de Hacking. Dentro disso pretende ‘escavar’ dispositivos técnicos/artísticos/comunicacionais, que segundo Bibiana (2021), tem como objetivo explorar suas materialidades “reproduzindo procedimentos técnicos empregados – sobretudo aqueles associados ao(s) conceito(s) de ‘gambiarra’ – para alcançar efeitos estéticos/comunicacionais observados em projetos de artistas das mídias”. A este conjunto de intenções metodológicas a discente dá o nome de Cartoescavação. 

A partir disso Bibiana propõe sua pré-análise segundo reflexões sobre alguns trabalhos artísticos como Homem do espaço/homem da caverna (coletivo artístico Chelpa ferro) e o trabalho autoral Objeto sonoro não-identificado, trabalho onde ela apresenta as primeiras tentativas de cartoescavação laboratorial.

Construtos de memória audiovisual do desempoderamento feminino (Clara Meira Moraes)

Com a preocupação de observar como a mulher é retratada nas telas de forma crítica, Clara busca em seu texto propor um entendimento sobre como os construtos de poder tomam forma através das personagens femininas, e, ao mesmo tempo, como este poder é extirpado destas mulheres, nas palavras da discente, como se não fosse pertencentes à elas. A partir da análise dos recursos técnicos, estéticos e narrativos empregados em algumas obras, propõe verificar como a perda do poder é produzida nas histórias de algumas personagens, enquanto construto tecnocultural. 

Propondo alguns procedimentos metodológicos como a flânerie, coleções, dissecações e constelações, escolheu seu objeto empírico a partir de uma pré-cartografia de narrativas que apresentam personagens femininas que passam por situações onde são empoderadas e logo depois perdem este poder. Esta perda de poder pode ser apresentada como a loucura, o sacrifício, a morte, o silenciamento, a mutilação, entre outros. 

Apesar de ficar evidente as potências de cada uma das pesquisas apresentadas no Seminário nos dias 5 e 7, conforme as sugestões dos professores e comentários dos relatores entre ver o que são as audiovisualidades na pesquisa e olhar para o objeto empírico para ver o que as imagens técnicas dizem sobre a tecnocultura, os discentes poderão refletir sobre o que foi proposto durante os dois dias de Seminário e encaminhar seus textos para a qualificação de mestrado.


Texto: Priscila Boeira e Flóra Simon da Silva

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