#TecnometodologiasTCAv – Desconexão e Scanning Sonoro em “A Mulher Sem Piano”

Os textos que compõem esta seção constituem uma investigação dos procedimentos técnico-metodológicos utilizados nas pesquisas de mestrado e de doutorado de integrantes e de egressos do Grupo TCAv.

Título do trabalho: A presença sonora no constructo cinematográfico: análise dos sons acusmáticos no filme A Mulher sem piano
Nível: Mestrado
Autor: Luiz Henrique Gehlen
Orientador: Dra.  João Damasceno Martins Ladeira
Ano de defesa: 2017
Tags: Presença sonora. Acusmática. Aurático. Cinema espanhol. Cinema moderno.

Luiz Henrique Gehlen é Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), técnico de Som e cineasta formado em 2012 pela Escuela Internacional de Cine Y TV de San Antonio de Los Baños, sediada em Cuba. Jornalista formado desde 2009 pela Uniderp/Anhanguera de Mato Grosso do Sul e autor do livro “José Octávio Guizzo – Um Nome em Registro Eterno”, publicado em dezembro de 2011 pela Fundação de Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul. Atualmente, é Assistente de Direção e Produção, na TV Universitária vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN desde 2018.

Sua dissertação se debruça sobre os aspectos sonoros do filme A Mulher Sem Piano, a partir do qual busca identificar de que maneira a presença sonora se atualiza na obra, colocando em seu horizonte a contribuição estética das sonoridades técnicas ao cinema moderno. Metodologicamente, o autor constrói um arranjo que agrega o método intuitivo bergsoniano, o scanning (Flusser), ao qual inclui o termo “sonoro”, elaborando um scanning sonoro, além da cartografia e da desconexão, esta última a partir de Chion.

Primeiro movimento: cartografar sequências

Gehlen descreve que seu primeiro movimento metodológico foi a realização de uma cartografia a partir do filme, buscando perceber quais seriam as sequências mais significativas para o estudo sonoro que propõe. Esse movimento permitiu desconstruir o filme, reagrupando as sequências por afinidades, o que o ajudou a perceber três blocos produtivos, o dia, a noite e o alvorecer do novo dia. Ao mesmo tempo, esses três blocos também revelaram oposições técnicas entre o apartamento e a rua, já que o primeiro se dá nos trechos diurnos do filme, e a rua nas horas noturnas. Essas “divisões” percebidas pela cartografia e desconstrução são úteis para o estudo de som que propõe, uma vez que os recursos sonoros vão acentuar a dualidade entre espaço interno do apartamento e sequência externa.

Ao fim, a cartografia e a desconstrução que realiza, leva à formulação das três categorias de análise que propõe em sua pesquisa:

  • Tinnitus: dimensão da escuta como presença;
  • O fragmento e a dimensão sonora do corpo;
  • A presença sonora: potência de atualização do corpo.

Operacionalizando o Scanning Sonoro e a Desconexão

“Assumindo o som como um componente da imagem, percebemos, conforme o scanning realizado nos frames colecionados, que um signo sonoro específico, problematizado a seguir, não apenas procede de moda a influir no encadeamento de imagens como também reflete o tempo em sua essência durante. Nesse sentido, descrevo a coleção dos fragmentos cartografados que dão a ver a presença sonora do Tinnitus, como um elemento sonoro indispensável para a constituição do constructo em A Mulher Sem Piano e trato ainda de evidenciar suas dimensões atual e virtual, a partir do scanning sonoro aplicado aos frames” (GEHLEN, 2017, p. 88)

Os procedimentos empregados por Gehlen são evidenciados ao longo da sua análises, que é dividida nas categorias supracitadas. A partir da descrição sonora, articulada aos frames colecionados, sua análise e procedimentos são revelados. Por exemplo, na primeira categoria apresentada, que busca analisar a presença sonora do tinnitus, o autor identifica três planos nos quais esse som se faz presente, e descreve, a seguir, os sentidos que produz e seu efeito estético no filme.

Segundo o autor, o tinnitus é um ruído constante no ouvido, gerado pela perda de audição de algumas faixas de frequência, o que acaba por produzir um ruído contínuo, produzido pelo próprio corpo. Assim, esse som agudo está presente no filme, e é descrito em cada um dos planos acima, por Gehlen, como sobreposto aos outros sons do ambiente, agenciando o estado subjetivo da personagem, configurando um som interno (CHION, 2008, p. 64), que não é, simplesmente, nem in, nem foda de campo e nem off. Além disso, sua análise o leva a perceber esse som específico enquanto elemento que condiciona o encadeamento das imagens que são, aparentemente, desconexas. Nesse sentido, o som do tinnitus condiciona também a estrutura do filme.

Chion utiliza o fragmento inicial do filme Persona de Ingmar Bergman para mostrar como a imagem direciona o olhar sobre o material de uma forma diversa a proposta pela banda sonora ao sentido da audição. Nesse sentido, quando ouvimos os dois atrelados, há uma compreensão possível da obra audiovisual totalmente distinta de quando observamos a banda sonora da cena, sem o apoio da imagem visual. Embora este procedimento não seja tratado pelo autor como uma metodologia, nos pareceu produtivo inseri-lo em nossa metodologia para esmiuçar as sonoridades (des)articuladas pela composição dos enquadramentos. (GEHLEN, 2017, p. 29)

Assim sendo, compreende-se que Gehlen passou a uma escuta da banda sonora do filme, desvinculando-a do aspecto visual. Essa prática, além de descrita do modo acima posto, também se releva nas descrições textuais que faz ao longo do texto.

Nessa esteira, na segunda categoria de análise, o autor explora como o som acaba construindo a presença dos corpos. Uma vez que identifica a fragmentação estética do filme – como, por exemplo, a noção de que os planos não são continuamente conectados entre si e a unidade do tinnitus constitui a “unicidade”, em determinadas sequências – percebe também a fragmentação do corpo. Como fragmento empírico de análise, traz quatro frames em que, visualmente, pouco aparece o corpo da protagonista do filme (Rosa), e a seguir, descreve como é o som que a subscreve nos planos.

Para dar a ver o som na pesquisa, Gehlen o descreve em relação aos frames acima:

“A primeira imagem apresenta o enquadramento inicial do plano, no qual são reveladas: a parede de madeira no centro da imagem; além de uma pintura, duas cadeiras e as caixas de correspondência dos condôminos, recortados pelas bordas do quadro. Nesse instante, ouvimos o desenrolar da cena no extracampo da imagem: ouvimos o ruído do elevador em seu movimento derradeiro, as portas se abrindo, os sapatos de alguém que o ocupava e agora se aproxima. Na medida em que Rosa sai do elevador, a câmera inicia um vagaroso movimento panorâmico em sua direção como se tratasse de “ver os objetos que soam”. Rosa cruza momentaneamente o quadro em direção à caixa de correspondências, no sentido contrário ao movimento da câmera, tendo seu rosto cortado pelo enquadramento (segunda imagem). Vemos a janela de vidro da recepção refletindo as caixas de correspondência que agora se encontram situadas no extracampo. Ao sair do plano, Rosa aparece refletida no vidro, diante das correspondências (terceira imagem). A Câmera continua a mapear o espaço até chegar ao lado oposto do enquadramento inicial (quarta imagem), mostrando apenas um pequeno quadro de avisos e um interruptor de energia fixados contra a textura amadeirada. Seguimos, então, ouvindo rosa manipular as chaves, abrindo e fechando a pequena caixa e, em seguida, seus sapatos, denunciando sua aproximação, Ela volta a cruzar o quadro que, uma vez mais, privilegia seu dorso em detrimento de suas feições” (GEHLEN, 2017, p. 97 – 98)

Articulado aos frames e descrições dos sons e movimentos presentes nos planos que analise, estão as elaborações teóricas a partir dos autores em que se fundamenta a pesquisa. Desse modo, a análise do trabalho não se constitui apenas como uma análise de conteúdo ou descrição do que é visto e/ou ouvido, mas como um scanning sonoro de fato – e aqui cabe destacar que o scanning pode ser descrito, também, como o scanning conceitual, ou seja, perceber e descrever o que é visto é de fato central neste procedimento, mas é fundamental também sua articulação e tensionamento em relação aos conceitos trabalhados.

Na última categoria, o autor realiza também estes movimentos metodológicos, encontrando imagens de presença relacionadas às personagens, como por exemplo o ritmo constante dos passos e timbres dos sapatos de Rosa andando na rua, mesmo a imagem não exibe seu corpo e/ou rosto. Desse modo, há uma conexão de planos que apresentam fragmentos da cidade, na rua.


Texto: Juliana Koetz

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