#TecnometodologiasTcav: Ecologia Audiovisual da Web

  • Os textos que compõem esta seção constituem uma investigação dos procedimentos técnico-metodológicos utilizados nas pesquisas de mestrado e de doutorado de integrantes e de egressos do Grupo TCAv.
Título do trabalho: Apontamentos para uma ecologia do audiovisual da web na contemporaneidade
Nível: tese de doutorado
Autor: Sonia Estela Montaño La Cruz
Orientador: Dr. Suzana Kilpp
Ano de defesa: 2012
Tags: ecologia audiovisual, molduras, constelações, imagem dialética, audiovisualidades web, plataformas de vídeo, youtube, justintv;
Link da tese: http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/3478

Sonia Estela Montaño La Cruz é professora e pesquisadora no PPGCCOM da Unisinos e nos Cursos de Comunicação Digital e Jornalismo da mesma universidade. Em sua tese de doutorado “Apontamentos para uma ecologia do audiovisual da web na contemporaneidade”, defendida em 2012 no mesmo programa, sob orientação da professora Dra. Suzana Kilpp, ela busca construir uma ecologia audiovisual da web, atravessando metodologias  mestiças e procedimentos metodológicos para criar diferentes coleções de imagens que compreendem o meio na relação com um ambiente por ele transformado, tendo como objeto de interesse vídeos produzidos para a internet (ou por ela cooptados) de forma profissional e também aqueles originados por usuários em posse das ferramentas de produção democratizadas pelas novas mídias, em especial nos sites “YouTube” e “Justin TV”.

Montaño destaca três movimentos de ordem metodológica que acompanham a pesquisa do início ao fim, pensados a partir de alguns dos inúmeros personagens que permeiam a obra de Benjamin: o flâneur, o colecionador e o trapeiro.

Do primeiro, vem o movimento da flânerie, que traz consigo a ideia de perder-se, de vagar ou “flanar” em algum lugar (neste caso, navegar pela internet) sob influência de uma curiosidade lúdica para perceber os elementos (vídeos, usos, montagens, interfaces) que capturam a atenção do flâneur.

Do segundo, surge a ideia das coleções, ou seja, de catalogar e organizar objetos de acordo com os desejos e princípios próprios do colecionador e não do objeto em si, que se vê, assim, destituído de sua função original e tornado contemporâneo dos demais objetos catalogados, formando constelações cujos sentidos são criados pelo próprio colecionador.

Finalmente, vem do trapeiro, uma espécie de catador de lixo, a ideia de juntar os destroços, os cacos, as ruínas dos objetos para que nada seja esquecido. O objetivo é dar sentido a tudo o que foi deixado de lado como algo de menor importância. Conforme descrito por Agamben, estes restos servem como ele daquilo que foi e daquilo que hoje é.

Assim, Montaño flana pela web, coleciona os objetos que lhe captam a atenção e reúne os restos evidenciados pelas constelações por ela criadas, traçando um paralelo entre o ato de pesquisar e o ato de se mover por esse meio como um usuário que acessa páginas, clica em links para acessar outros endereços, retorna, avança, coleciona vídeos e amigos, compartilha, reutiliza, remixa os vídeos, criando novos vídeos e/ou novas listas de exibição.

Atravessados pela ideia de audiovisualização da cultura (nunca tantas imagens foram produzidas e postas em circulação), Montaño constrói o seu Objeto: o audiovisual da web na contemporaneidade, nos modos como ele se atualiza no YT e JTV, cujo Problema é: qual a natureza do audiovisual na web? Na intenção de aproximar os estudos da TV com os da web, são utilizados dois procedimentos metodológicos (que se somam aos três movimentos já descritos) que são a metodologia das Molduras e a formação das imagens dialéticas em Constelações, utilizadas para dar forma a quatro coleções diferentes que colaboram com a ideia de dar a ver tanto os modos do audiovisual se atualizar na web, quanto os modos de organização da sociedade e da cultura neste meio.

Para a primeira coleção, são selecionados vídeos produzidos no âmbito da mídia (profissional em termos técnicos e estéticos) onde algumas características se destacam: um mix de tecnologias diferentes, simulação de imagens analógicas pelo digital e a intervenção nas imagens através da técnica de cromaqui. Abaixo, um exemplo do comercial dirigido (e performado) por Michel Gondry para a campanha HP – the computer is personal again, onde são usadas diversas técnicas como stop motion, live action e CG.

O comercial é aqui uma moldura que dá sentido às relações entre o computador, a marca e o próprio Gondry, que por sua vez moldura a marca e a ethicidade do computador ao mesmo tempo em que é moldurado pelo computador, pelo audiovisual e pela própria HP.

Ainda nesta primeira coleção, destaca-se o projeto “True Skool” da dupla de DJs Cold Cut.

Em uso de um software VJ, é possível recriar ao vivo audiovisuais inteiros, através de um jogo de formas que se dá no uso de trocas entre figuras e fundos para reciclar e descontextualizar essas imagens, cujo valor não está mais na sua simples exibição  sim no seu uso, através de ilimitadas intervenções.

Para a segunda coleção, Montaño faz uma constelação de interfaces para perceber os elementos que acompanham os vídeos no ambiente web, analisando prioritariamente as interfaces do YouTube e do Justin TV, plataformas de vídeo online onde não existe mais uma uma programação (nos moldes da TV) e sim interfaces que “programam” o usuário. Uma guinada do espectador (imóvel) para esse usuário (em trânsito). Fazer login no YouTube, “dar play” em um vídeo, seguir para outros vídeos relacionados, criar listas, acessar perfis, etc., são ações próprias desse meio que pensa o mundo através de palavras-chave motivadas por uma busca que aciona uma geração espontânea de uma séries de vídeos.

Montaño destaca as ações e acessos possibilitados pelo ato de fazer login e tornar-se um usuário mais ativo do YouTube, adentrando ao universo Google cujo conjunto muito maior de conectividades e trânsitos permitidos está exemplificado na figura acima. Assim, a ethicidade usuário ganha um conjunto de molduras que formam o canal, além de novas ações permitidas em molduras já existentes (como a barra de navegação).

Adiante, na então nova home (de 2012) do YT, ocorreram mudanças significativas nas formas de moldurar o usuário/canal e o vídeo, conforme a figura abaixo revela.

Assim, todo usuário logado passou a possuir um canal personalizado, dispondo de uma visibilidade bem maior do que anteriormente, destacado nas diferentes molduras que compõem a interface desta home.

Já o Justin TV intencionava proporcionar uma experiência de conectividade em tempo real (a audiovisualização da vida) ao transmitir vídeos ao vivo que possibilitasse também um bate-papo (chat) entre os usuários, produtores de conteúdo e espectadores.

Nas molduras identificadas na imagem acima, destaca-se o link “próximo canal”, que durante o processo de pesquisa deixou de permitir a navegação direta entre um canal e outro e passou a retornar para a página dos “canais ao vivo” disponibilizados pela plataforma, reforçando a lógica global-local-global, presente no percurso entre a página com todos os canais disponíveis e a do próprio usuário, que assim se constrói em um sentido triplo: proprietário de canal, broadcaster e espectador.

Já a terceira coleção faz menção aos usos feitos pelos usuários dessas plataformas, gerando novas narrativas, montagens colaborativas, remixagens. A ideia de uso inspirada em Certeau, nega um consumo de ideias, valores e produtos feito por sujeitos anônimos como uma ação passiva, indicando haver sempre nessa relação algum tipo de apropriação e ressignificação não prevista na origem. A imagem abaixo destaca um dos vídeos “em alta” no YouTube em um momento em que o site de compartilhamento de arquivos Megaupload, que disponibilizava, entre outros conteúdos, filmes de forma a violar as leis de antipirataria, foi tirado do ar, em 19/01/2012.

O título do vídeo faz menção ao fechamento do site Megaupload e o que ele mostra é um adolescente que entra no quarto aos berros, demonstrando enorme irritação com alguma coisa. O usuário que postou o vídeo não foi o produtor do mesmo no sentido de filmar as ações, mas sim de gerar apropriações e atribuir sentido ao inserir um título (que geram comentários e outros vídeos relacionados) num conjunto de acontecimentos que não mais tem a ver com a real revolta do adolescente, mas com o fechamento do site.

Por fim, a quarta coleção reúne ambientes audiovisuais relacionados ao usuário, ou seja, aquilo que muda com o surgimento de um meio. Assim, a ambiência web, onde as plataformas YouTube e Justin TV se encontram, não é a mesma da TV tradicional, cuja moldura da grade de programação endereça seus conteúdos a quem está em casa em determinado momento (programas de culinária para donas de casa, desenhos animados para crianças e o jornal para a família, por exemplo). Há na web um trânsito que atravessa espaços antes delimitados, como mostra a figura abaixo.

Essa figura mostra como o canal Tvthudinha, no Justin TV, retransmite o programa Big Brother Brasil da rede Globo de maneira pirata. Para além do nome do canal, que evoca uma espécie de sentido identitário que mais tem a ver com um estado de ânimo ou de espírito e não com o CPF ou CNPJ do broadcaster, há uma janela de chat onde os espectadores debatem a respeito de quem deveria deixar o programa, transformando o reality show, estendendo e ampliando a imagem televisiva ao cruzarem esta com imagens de sus próprias vidas e com as imagens do player.

Atravessam a metodologia das Molduras (molduras, ethicidades e imaginários) utilizada por Montaño, os conceitos de intuição, elan vital, duração e memória de Bergson e os de imagicidade e cinematismo de Eisenstein. Montaño fez montagens  utilizando o software Prezi, capturando as telas das plataformas e rodeando-as com as páginas cujos links estão nelas (passando da montagem temporal para espacial). O conjunto final dos procedimentos metodológicos (molduras e constelações) possibilitou o que se pode chamar de uma ecologia do audiovisual da web.

Texto: Augusto Ramos Bozzetti

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