Uma ética colaborativa para uma época em trânsito

Acabo de ler um texto que me provocou a pensar sobre uma série de questões relacionadas a minha pesquisa e a outros assuntos que foram discutidos na última reunião do TCAv. Trata-se de uma entrevista que a Ivana Bentes concedeu ao IHU.

A entrevistada levanta algumas questões que reforçaram o que venho pensando sobre essa realidade socio-tecno-cultural que estou chamando de trânsitos e conectividades na minha pesquisa. Talvez seja necessário pensar uma nova e interessante ética que está emergindo, conectiva, descentralizada, móvel…

O trânsito e a conectividade ameaçam certos modos de operar mais corporativistas da sociedade. Explico.

Ivana se refere às mudanças no jornalismo. Todos hoje produzem notícias, informações, reflexões através das mídias sociais, ou melhor, do acesso a tantas tecnologias como blogs, twitter, facebook. “O jornalista hoje rivaliza com todo mundo que produz notícia. E, quando falo em todo mundo, é todo mundo mesmo. Cada um de nós, na sua rede, no seu microblog, no seu Facebook, tem uma produção relevante de notícias, de informação, de análise, de interpretação. E principalmente de expressão. Comunicar afetos“, disse Ivana. O jornalismo deve ser menos corporativista e mais colaborativo e flexível. Concordo e penso que não só o jornalismo. Esses comentários me importam menos pela reflexão sobre a profissão, também interessante e oportuna, que sobre o trânsito nos modos em que nos informamos pautado pelo novo meio. Há um novo ambiente que emerge disso tudo.

Ivana refere a recente demissão de dois jornalistas da Folha de S. Paulo por tuitar uma informação “interna” do jornal, “corporativa”, algo aparentemente irrelevante como é o fato de que os jornais já tem prontos os obituários de algumas pessoas (principalmente quem está doente há anos ou é idoso, como o ex-vice-presidente José Alencar). Os jornalistas tuitaram também um comentário irônico sobre a demora da Folha para fazer esse obituário.

Aí Bentes comenta uma série de questões que me levaram a pensar nas mídias digitais e a maneira como elas alteram nossos modos de nos organizar, mas não só para o jornalismo senão para outros fazeres sociais como a pesquisa acadêmica, por exemplo.

“Nós vivemos em uma sociedade de informação, em uma sociedade pós-WikiLeaks, justamente que vem eliminar a cultura do segredo. É muito discutível, e talvez uma insensibilidade em relação à nova ética no que se refere às relações que as corporações de comunicação vão ter, de agora em diante, com seus profissionais que têm acesso e que se expressam cotidianamente nas novas redes”.

” As corporações midiáticas acham que ninguém sabe que os obituários estão prontos, mas se não sabem deveriam saber. Quanto mais o leitor e o espectador tiverem o domínio dos procedimentos de uma redação de jornal e de televisão, mais ele estará qualificado, inclusive para fazer sua própria mídia. Pois todo mundo hoje é um virtual midialivrista. Parece que ainda há um descompasso das próprias corporações – que não estão acostumadas a ver expostos os seus procedimentos internos de uma redação. E isso, com as redes sociais, é explicitado. As pessoas comentam, as informações vazam, criticam, fazem uma nova comunicação.

A cultura do segredo corporativo é impossível de ser mantida no ambiente das redes sociais. E isso não é ruim, isso é bom, isso é transparência, é a? livre? circulação do conhecimento? sobre todos os procedimentos. Hoje em dia, com a cultura de rede, mais pessoas se informam sobre procedimentos médicos, de segurança, porque se informam mais sobre os procedimentos relacionados. Pesquisam, comparam. Isso é muito bom, isso é muito democrático. Essas questões são éticas, questões que devem estar em discussão para uma nova formação para essas redes”.

Até ali trechos da fala da Ivana Bentes na entrevista.

A partir disso, fiquei pensando muito numa ética da mobilidade, do trânsito, da descentralização, que ameaça todo e qualquer corporativismo (inclusive o acadêmico e de mercado) e afeta os modos de fazermos pesquisa, ameaça a propriedade e as fronteiras bem demarcadas. Relendo também os apontamentos da última reunião do TCAv, associei a essa ética em trânsito as necessidades apontadas na reunião para a formação dos pesquisadores e o alerta para a falsa ideia (e indesejável diria eu) de uma “pesquisa pura”. Foi apontada a necessidade do colaborativismo entre docentes e discentes, pesquisa e experimentação audiovisual, produção acadêmica e gestão. Um projeto coletivo. Está relacionado, de alguma maneira, à flexibilização da propriedade intelectual da que também fala a entrevista.

Não tenho conclusões, mas continuarei pensando essas questões levantadas que tem a ver com minha pesquisa (trânsitos e conectividades audiovisuais), com o ambiente, o meio dos novos meios, com a academia e com uma proposta colaborativa do TCAv de “fazer avançar a técnica”. Técnica no sentido dado por Benjamin e também por Ivana, diminuir as distâncias entre a produção e a recepção (seja na produção audiovisual, na produção acadêmica e em muitas outras produções entre ambas).