“As imagens são insubordinadas e estão sempre nos desafiando”

A imagem é um território complexo, arredio, insubordinado, desafiador. Alguns autores se debruçaram particularmente sobre esta insubordinação e, é sobre eles e suas formas de pensar as imagens que a professora do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC), GABRIELA REINALDO, falará na sua palestra na Semana da Imagem na Comunicação, no dia 16 de maio às 20h. Gabriela recuperará o pensamento de autores que contribuíram para os estudos da imagem numa perspectiva tecnocultural e do design com o assunto Walter Benjamin e Aby Warburg – algumas notas sobre Atlas Mnemosyne e Passagens. A seguir, ela antecipou algumas questões que serão tratadas no evento. A entrevista concedida por Gabriela Reinaldo, terceira convidada da Semana da Imagem deste ano à jornalista e integrante do Grupo TCAv, Lorena Risse.

Tendo em vista que Vilém Flusser e Walter Benjamin foram pensadores que investiram na ideia de suspensão do movimento do curso linear da História, e que apresentaram outras formas de apontar acontecimentos no tempo, como você vê a natureza das imagens contemporâneas, enquanto agentes de pontos de virada importantes como esse diante da história?

A imagem tem se mostrado “arredia” aos enquadramentos que as teorias propõem. As imagens são insubordinadas e estão sempre nos desafiando. Primeiro porque o que chamamos de imagem corresponde a um número muito grande (e com alta capacidade de auto-geração) e díspar de elementos. Há imagens físicas, imagens mentais, quando sonhamos – Freud já sabia disso – o fazemos por imagens, assim como nossos delírios também podem ser imagéticos. Além disso, há imagens acústicas, imagens sonoras, táteis. A materialidade, o suporte que veicula uma imagem, o seu media, também gera possibilidades semânticas diferentes. Uma imagem impressa no papel é diferente da imagem que tem a pele como superfície e da que está projetada numa nuvem.

O Atlas de Imagens Mnemosyne foi um componente essencial da obra de Aby Warburg, assim como o Projeto das Passagens foi para Walter Benjamin, dois homens que se dedicaram aos métodos de como demonstrar seu pensamento em relação às imagens do mundo. Pensando nessas práticas, no “fazer” da pesquisa, como poderíamos repensar as nossas próprias formas de ver as imagens em nossas investigações?

Passagens e o Atlas Mnemosyne são projetos inacabados, seus autores morreram antes de considerá-los concluídos. Mas entendo que esse inacabamento não diz respeito apenas à irrupção do acaso. Penso que o inacabamento de Passagens e do Atlas está na essência de suas produções. É como um convite aos seus leitores a se juntar a eles em suas análises. Seus autores não fingem respostas nem se contentam com as que encontram. Em O narrador, Benjamin compara a narração com o trigo e seu poder de germinação – assim como é a capacidade fertilizante das ideias warburguianas e benjaminianas. Além do inacabamento e da montagem como proposta de conhecimento, como experiência metodológica e heurística, há outros encontros que podemos estabelecer entre Warburg e Benjamin. Há um modo poético de enxergar a realidade, com presença intensa do componente onírico e, embora se atenham a objetos de análise que estão no mundo, são autores muito autorreferenciais. No seu discurso sobre a dança com a serpente das populações indígenas do oeste americano (que ele proferiu na clínica Bellevue, onde esteve internado por anos), Warburg reflete sobre a esquizofrenia da sociedade ocidental e sobre seu próprio adoecimento psíquico.
Flusser propõe uma epistemologia fabulatória, faz uso de uma linguagem poética e reflete sobre sua própria experiência, de estrangeiro, de exilado. Acho importante essa postura para um pesquisador. A postura de quem se sente deslocado, de quem não se acomoda, de quem reage com sinceridade aos problemas do mundo a partir de suas próprias e mais honestas dúvidas e curiosidades. Temos discutido esses temas no Imago – laboratório de estudos da estética e imagem, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará.

Por fim, quais as contribuições desses pensadores para o estudo da imagem e seu estatuto atual?

O legado de Benjamin, Flusser e Warburg é, obviamente, diverso. Mas há muitas similaridades, para além do fato de serem judeus. Vilém Flusser, assim como Walter Benjamin, se interessa por uma vasta gama de assuntos. Flusser escreve sobre política, fotografia, nacionalismo (e os perigos do patriotismo – o que infelizmente tem se tornado tão atual), linguagem, poesia, tradução, jogos, sobre a sua condição de exilado e sobre a imagem. Mas me parece que Flusser tem um único tema: a liberdade.
Entre Warburg e Benjamin, sobre o que me proponho a discorrer no encontro, muitos pontos se tangenciam. Contemporâneos [Aby Warburg (1866-1929) e Walter Benjamin (1892-1940)], eles partilham da ideia de suspensão do movimento do curso linear da História e ambos têm uma visão estética e crítica das técnicas. Razão, imaginação e memória andam juntas. Mesmo com as tentativas de Benjamin, eles nunca chegaram a se encontrar. Curiosamente, Warburg deve seu reconhecimento também ao legado benjaminiano.
Wolfgang Kemp foi o primeiro a tentar estabelecer as correspondências entre B. e W. – ele investiga as tentativas de Benjamin de se aproximar do círculo de warburguiano via Hugo van Hofmannsthal. Também Didi-Huberman, em Devant le temps, estabelece essas correlações. A concepção inicial de Passagens (1927-29) é contemporânea do Atlas Mnemosyne (além dos experimentos de Eisenstein e do surrealismo de Bataille). Outros autores, como Maria João Cantinho (2008), na mesma toada de Huberman, querem saber da relação entre a fórmula pathos ou pathosformel, de Warburg, e o conceito de imagem dialética de Benjamin. Ao contrário do otimismo dos seus contemporâneos, Warburg e Benjamin (assim como Flusser, posteriormente) estavam conscientes da fragilidade da noção de progresso na modernidade.

Lembramos que A 16a. Semana da Imagem na Comunicação acontece entre os dias 14 e 17 de maio, das 20 às 22h, no Auditório Bruno Hammes e tem como tema central o tema Design, Imagem e Tecnocultura. O evento é gratuito.

 

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