Do erro à arte: a estética do glitch como forma de driblar a tecnologia

Uma das pioneiras da arte digital no Brasil, Giselle Beiguelman, começou a trabalhar com glitch art por conta de um erro. Numa tentativa de expor seu trabalho, uma videoinstalação do Minhocão de São Paulo, deparou-se com as imprevisibilidades da tecnologia. Pela incompatibilidade dos arquivos com o dispositivo onde deveriam rodar, as imagens eram corrompidas, apareciam ‘com defeito’. Depois de sucessivas tentativas, enfrentando diferentes problemas técnicos, Giselle decidiu transformar o defeito em arte. A estética do ruído passou a ser característica de suas obras que se configuram, conforme a artista, como “um desrespeito crítico à tecnologia”. A pesquisadora e professora da Faculdade de Arquitetura da USP esteve presente na segunda noite da Semana da Imagem na Comunicação, nesta terça-feira, dia 16.
Em palestra com o tema “Imagens Ruidosas”, Giselle compartilhou sua experiência acadêmica e artística com os estudantes de graduação e pós-graduação em comunicação, traçando um panorama histórico da relação entre Imagens e Memória, tema do evento. Segundo ela, a memória tornou-se um tema emergente na arte e na mídia a partir dos anos 1990 com a globalização, mas, como experiência estética, ela já está presente há muito tempo. Existe desde o período do Renascimento até a modernidade, quando entra em vigência a monumentalização de personagens. Giselle usa o Retrato do Papa Leão X com dois cardeais (Raphael, 1518) para demonstrar que a ligação entre memória, estética e tecnologia, é antiga. Nesta obra, uma série de técnicas foram desenvolvidas para dar ao papa um ar de sabedoria.

A ascensão da arte urbana inicia nesta mesma perspectiva, com a construção de monumentos históricos em homenagem à “heróis nacionais”, obras que, assim como nos livros, contam uma história oficial. “É na arte contemporânea que encontramos um fôlego crítico em relação as estéticas da memória, colocando-se em outro lugar”, destaca Giselle. Surgem, portanto, novos formatos de infiltração das paisagens urbanas, como o grafite, e outras formas de intervenção não autorizadas. Um dos movimentos citados por Giselle foi o 3NÓS3, ocorrido no período da ditadura. Três jovens artistas cobriam estátuas com sacos de lixo durante a madrugada e avisavam a imprensa pela manhã como forma de protesto às torturas realizadas na época. “Foi um misto de intervenção urbana e midiática”, destaca Giselle.

De acordo com Giselle, “vivemos a era do capitalismo fofinho, uma estética muito infantilizada, onde tudo é redondinho em tons de azul, palavras onomatopéticas”. Além disso, ela acredita que, por uma “incapacidade de conviver com o envelhecimento”, a tendência dessa geração é plasticizar as coisas, corpos e imagens, numa tentativa de invisibilizar o passado. Ela destaca que as imagens e memórias hoje são constituídas por dados, dos quais não temos controle absoluto, “não é mais um paradigma humano, é uma memória que não é nossa”, completa. A saída, para a pesquisadora, está em “aprender a desobedecer às tecnologias”. Uma arte crítica que questione as configurações sociais. Este é o princípio do ruído, do glitch, ou da tecnofagia, formas artísticas que se contrapõe aos padrões estéticos, às dicotomias de feio e belo, de velho e novo. É nisso que visa seu trabalho, que, além de paisagens ruidosas, produz memória.

A Semana da Imagem continua nesta quarta-feira (17) com a presença do pesquisador Massimo Canevacci, quem falará aos alunos e convidados sobre Memória Ubíqua. A noite de encerramento, 18, quinta-feira, será com a palestra de Roberto Tietzmann, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), sobre A televisão no Brasil antes de Chateubriand: a construção de um imaginário sobre o meio através da imprensa. O evento está sendo exibido simultaneamente por streaming no canal da Semana da Imagem, onde também estão disponíveis os vídeos completos das palestras anteriores.


Foto: Marcelo Gomes

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