A intimidade doméstica e a pandemia imagética

Devido a pandemia de Covid-19, as pessoas transferiram as suas atividades para dentro das suas residências e, através de videochamadas e lives, passaram a compartilhar mais da sua intimidade. Diferentemente do exibicionismo, ostentação e exposição nas redes sociais digitais, o mergulho forçado na intimidade do lar exigiu nos reinventarmos em nossa forma de lidar com dispositivos audiovisuais, além da adaptação do espaço doméstico para outros fins.

Giselle Beiguelman, no artigo “Minha Casa, Meu Cenário”, publicado na Piauí, afirma que “a pandemia da Covid-19 é também uma pandemia das imagens” pois, no cenário pandêmico e com isolamento social, somos transformados “em imagens que se comunicam por meio das telas”. Na mesma esteira, lembramos do escritor francês Guy Debord (1967), quando afirma que é como se toda “a vida se […] apresentasse como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação através das imagens”.


“O que você diz não é tão importante quanto as estantes atrás de você”

Dentre as inúmeras montagens possíveis a partir do vídeos que habitamos em videochamadas, Beiguelman chama a atenção especialmente para as prateleiras recheadas de livros que compõe o cenário. Não é para menos que há um perfil no Twitter, a “Bookcase Credibility”, que se dedica em “catalogar” registros de lives, entrevistas, videochamadas etc., que trazem uma espécie de biblioteca enquanto cenário –  uma imagem enquanto construto sobre o que de fato ela mesma representa a si mesma.

Fonte: Bookcase Credibility

É interessante observar as diferentes montagens imagéticas, geralmente uma representação do self, pautada pelos nossos gostos (por exemplo, um intelectual irá preparar um cenário com livros a mostra, um artista dará ênfase às pinturas, o médico deixará estetoscópios à vista, outros se mostrarão mais despojados ou, ainda, a utilização de fundos de papelão, como é o caso da falsa biblioteca vendida a 150 euros, que transmite um ar de “intelectualidade casual”). Ainda, muitos utilizam o recurso de chroma-key, para criar um cenário digital – estático ou animado – esse é um recurso técnico onde, para o autor Philippe Dubois (2004), encontramos a chave de uma estética do vídeo: ou seja, o chroma-key é um não-espaço que permite ser preenchido com outros espaços. Empresas estão explorando esse novo nicho, especialmente as do ramo do entretenimento, como é o caso da Pixar e Marvel, que disponibilizaram, para download, alguns cenários digitais utilizados em suas produções. Vemos também a proliferação de tutoriais de organização de cenário, dicas de iluminação, ângulos de câmera, etc.


Ser e ser visto

Como Beiguelman bem aponta em sua reflexão, passamos a viver uma experiência de termos “acesso à intimidade do outro por meio da imagem”. Na condição de voyeur, as janelas que nos invadem, através das telas dos dispositivos que manuseamos, atuam em certo grau em nos fazer crer que temos a permissão de ver tudo o que é transmitido/mostrado – o que, de algum modo, nos passa a sensação de que é possível controlar tudo o que está acontecendo e quem está do outro lado da tela faz ou fala, nessas imagens que interagimos.

Fonte: Bookcase Credibility

Por estarmos cada vez mais habitando telas, condicionados atualmente por uma situação pandêmica, nos tornamos cada mais não só observadores vigilantes (voyeur), mas também observados. Como espectadores, somos portadores de um olhar curioso, onde podemos instituir o sujeito a partir do momento que esse depende do olhar do Outro para ter sua imagem projetada/construída. Uma especularidade que é esperada e aceita, por ambas as partes: há uma intenção de permitir que se entre na intimidade daquele universo, mesmo que imagético.


Pistas acerca de uma “pandemia imagética”

Entendemos que vivemos tempos que nos forçam a estar em constante reinvenção e, no caso brasileiro, isso evidencia o abismo social e cultural em que nos inserimos para além de todas as telas. Algumas reflexões surgiram a partir da construção do presente texto que poderão ser exploradas e tensionadas a posteriori: o que essa imagem representa nos dias de hoje? É possível problematizarmos a imagem em função de seu suporte (dispositivo), bem como entendermos de que imagem estamos falando? Qual imagem desejamos exibir aos outros?

Como aponta Raymond Bellour (1993), “cada vez menos sabemos o que é imagem, uma imagem, o que são as imagens” – isso em função de que cada vez mais temos uma multiplicação de telas e de diferentes mídias em nossas rotinas. Em uma “pandemia das imagens”, nos afastamos fisicamente, porém nos tornamos (também) imagens que dialogam por entre múltiplas e variadas telas.


Texto: Aline Corso e Camila de Ávila.

Deixe uma resposta