A Moçambicidade Audiovisual: Entre os Vestígios do Kuxa Kanema e os Construtos Televisivos das Emissoras TVM, TV Miramar E STV de Moçambique

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Na última quarta feira (24.03.2021), o pesquisador Fulgêncio Muchisse defendeu sua tese de doutorado sob o título “A Moçambicidade Audiovisual: Entre os Vestígios do Kuxa Kanema e os Construtos Televisivos das Emissoras TVM, TV Miramar E STV de Moçambique”.

Fonte: apresentação de Fulgêncio Muchisse

SOBRE A PESQUISA

A pesquisa propõe um olhar a respeito dos construtos de moçambicidade nas emissoras televisivas TVM (pública), TV Miramar e STV (privadas), enfatizando a relevância do Kuxa-Kanema (1976) – série de cinejornais – na disseminação de rastros na criação póstuma da Televisão Pública, em 1981, e na constituição das grades de programação das emissoras do país.

Arquitetando o texto de forma bastante didática, Fulgêncio apresentou um olhar inicial a respeito da história da comunicação audiovisual em Moçambique e sua relevância na construção identitária do país, avançando para questões referentes aos conceitos de ethicidades, imaginários e memória para construir a ideia de moçambicidade, a qual norteia o trabalho. Segundo a definição apresentada pelo pesquisador, a ideia está relacionada “[…] aos sentidos identitários, éticos, culturais, políticos, burocráticos, democráticos, religiosos e pertencimentos que se encontram ancorados na cidadania e construídos com base no imaginário das imagens audiovisuais (construções televisivas – imagens em movimento).”

Fonte: apresentação de Fulgêncio Muchisse

Para compor a compreensão do que compõe a Moçambicidade Audiovisual e Televisiva desenvolvida na metodologia, fez-se um levantamento dos aspectos históricos, políticos, demográficos e culturais de Moçambique, avançando em direção ao histórico audiovisual cinematográfico do país, até chegar no Kuxa-Kanema. A partir da didática na pesquisa sobre a trajetória de libertação e democratização dos meios comunicacionais do país, Fulgêncio apresenta as imagens produzidas no Kuxa-Kanema como base significativa na construção televisiva do país até os dias atuais.

ARRANJO METODOLÓGICO

Partindo de uma composição abrangente em sua metodologia, e fazendo uso de movimentos recorrentes em pesquisas desenvolvidas no TCAv, Fulgêncio apropriou-se das metodologias da intuição, cartografia, molduras, dissecações e rastros para aportar os movimentos executados dentro da pesquisa. 

Contudo, o pesquisador enfatizou a presença de uma constelação das imagens-televisivas e do Kuxa-Kanema no processo de observação das imagens. Promovendo uma convergência entre o presente e o passado, a análise do corpus da pesquisa atentou-se a observar os gêneros e programas televisivos de três emissoras de televisão sob o recorte temporal de 1976 a 2020 (primeiro semestre).

Fonte: apresentação de Fulgêncio Muchisse

Com base nesse recorte, o pesquisador pôde perceber as tendências e similaridades presentes na composição da grade de programação das três emissoras, havendo um predomínio de programas de gêneros vinculados à educação, cultura, e informação. Dentre os gêneros televisivos, Fulgêncio destacou a telenovela – especialmente as novelas brasileiras – na construção da Moçambicidade estudada, assim como a emissora TVM. Segundo o pesquisador, a emissora revela uma essência ancorada no Kuxa-Kanema, com programas que exaltam a comunicação de produção moçambicana voltada para moçambicanos.

Por fim, em suas considerações finais, Fulgêncio conclui como a Moçambicidade manifesta-se como uma identidade moderna e múltipla, sendo composta pelo meio audiovisual e ancorada na televisão do país.

COMENTÁRIOS DA BANCA

Em termos gerais, o corpo da banca foi bastante enfático em seus elogios. Para o Prof. Dr. Claudio Jone, o conceito da Moçambicidade o instigou bastante, apresentando-se como ousado e instigante, sendo um olhar diferenciado para os moçambicanos.

Já segundo o Prof. Dr. João Miguel, sendo um pesquisador externo à linha de pesquisa e aos autores e conceitos convocados e mobilizados por Fulgêncio, a construção teórica foi diferenciada e revelou-se relevante para a compreensão da abordagem utilizada pelo doutorando.

Em seu momento de fala, a Profa. Dra. Magda Rosi trouxe provocações relacionadas às sonoridades na televisão e audiovisualidades moçambicanas. Ressaltando a importância que microfones, oralidade, musicalidade e afins desempenham no contexto histórico e político de países do continente africano, a professora realizou apontamentos sobre uma perspectiva sobre o som ser um aspecto que enriqueceria a pesquisa.

Sendo a última da banca a tecer seus comentários, a Profa. Dra. Cybeli Moraes, assim como os demais integrantes da banca, ressaltou a estrutura do texto de Fulgêncio como bastante didática e bem construída. Para Cybeli, foi instigante o apontamento feito pelo doutorando do Kuxa-Kanema como pré-televisivo, ao invés de um produto documental e do gênero cinematográfico, fazendo uma indicação para que Fulgêncio publicasse um artigo em relação a este aspecto de seu trabalho.

Fonte: apresentação de Fulgêncio Muchisse

O pesquisador Fulgêncio Muchisse realizou sua pesquisa por meio da bolsa PEC-PG (Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação) da CAPES. Integrada ao grupo de pesquisa TCAv, a tese “A Moçambicidade Audiovisual: Entre os Vestígios do Kuxa Kanema e os Construtos Televisivos das Emissoras TVM, TV Miramar E STV de Moçambique” foi orientada pelo Prof. Dr. Gustavo D. Fischer e teve sua banca composta pelo Prof. Dr. João Miguel (UEM – Moçambique), Prof. Dr. Claudio Jone (Escola Superior de Jornalismo – Moçambique), Profa. Dra. Cybeli Moraes (UNISINOS), e  pela Profa. Dra. Magda Rosi Ruschel (UNISINOS). A banca ocorreu em formato remoto e pode ser assistida na íntegra aqui.

Texto: Julia Souza

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