Adaptações audiovisuais criativas em tempos de pandemia

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Como sabemos – e, também, comentamos por aqui no site – a pandemia tem impactado diversos setores da vida em sociedade. No campo da produção audiovisual, houve quem optou por suspender as gravações de filmes, séries, clipes, entre outros, em razão dos protocolos sanitários da COVID-19. Outros optaram, alternativamente, por adaptar as produções das mais diversas formas.

Como o trabalho nas produções audiovisuais é realizado em equipe com diversos equipamentos, foi preciso que se pensasse em como produzir com um número reduzido de aparelhos de forma que não comprometesse a qualidade do produto audiovisual. Para isso, algumas produções optaram por apropriar-se esteticamente de elementos visuais amplificados na pandemia, como as interfaces dos softwares de videoconferência, filmagens caseiras com câmeras de celular, imagens feitas das janelas de casa, entre outros. Além disto, tal como é permitido em videodocumentários que usam diferentes qualidades estéticas de filmagem num mesmo filme, quando registros de câmeras amadoras são utilizadas por vezes, em razão de seu valor de registro inesperado, como imagens de uma câmera de segurança, ou registros feitos por celulares. Estes artifícios acabam por superar a preocupação por uma “estética limpa” no audiovisual que é difundido massivamente. Essas contingências imagéticas – que mesclam estéticas – acabam por confundir a dicotomia habitual entre o sinal e ruído, uma vez que a imagem contingente quebra um esperado padrão de qualidade standard.

Podemos observar que as técnicas audiovisuais vão sendo incorporadas, inventadas e reinventadas a partir da necessidade. E neste ponto, talvez seja possível entendermos estes arranjos técnicos como gambiarras audiovisuais. Isto porque dizem respeito a uma elaboração técnica que visa solucionar um problema a partir de ferramentas experimentais que se possui em um determinado contexto restritivo, como diz Giuliano Obici: “invertem-se através da gambiarra as hierarquias que os objetos, mídias, tecnologias e serviços nos propõem. Dizendo de outra forma, a gambiarra institui, mesmo que temporariamente, a inversão dos desígnios embutidos na tecnologia, revelando o avesso da ordem que ela instaura” (OBICI, 2014, p.54). No caso do audiovisual, isso acontece por adaptações de técnicas alternativas e conceituais que por fim acabam por, também, conceber novas estéticas.

Em alguns destes experimentos audiovisuais podemos perceber que diferentes telas que conhecemos convergem-se. Como aponta Huhtamo (2013) em Screenology, a tela é um dispositivo tecnológico em constante transformação. Historicamente as telas e as técnicas vão evoluindo e se sobrepondo sequencialmente, como a televisão e as telas interativas. Cada um destes dispositivos carrega consigo seus próprios discursos midiáticos, que vão interagindo na cultura em suas diferentes temporalidades. Sendo assim, essa interação, do indivíduo com o dispositivo, vai se readaptando na sociedade.

Aqui podemos observar como exemplo alguns produtos audiovisuais em que estas forças maiores – imposições pelo isolamento na pandemia – se misturaram com apropriações estéticas, como no caso dos videoclipes Living In A Ghost Town e Phenom, das bandas Rolling Stones e Thao & the Get Down Stay Down, respectivamente, e em sketches de humor do canal Porta dos Fundos.

Thao & the Get Down Stay Down é uma banda americana, que em virtude da pandemia teve a sua turnê de shows cancelada. A tour visava a divulgação de seus novos trabalhos. Por esta razão, a banda gravou o clipe para divulgar o single Phenon inteiramente no aplicativo de videochamada Zoom. O clipe da música, que trata sobre reunião de pessoas, precisou ser filmado separadamente com cada pessoa em diferentes ambientes utilizando o aplicativo. O clipe inicia com uma videochamada comum em grupo e segue no mesmo ambiente virtual, no qual são realizadas coreografias sincronizadas. As telas são apropriadas de modo lúdico, representando uma composição simultânea. É possível também vermos as várias opções de tela desta interface e a sua organização visual sendo aproveitada.

Living In A Ghost Town é o novo clipe dos Rolling Stones, que foi gravado em condições semelhantes. A música, que tem como tema o lockdown e a necessidade de isolamento social na pandemia, foi gravado com imagens caseiras feitas pelos próprios músicos. As tomadas externas foram realizadas pelo diretor Joe Connor e amigos seus de diferentes cidades. A pedido de Connor, as imagens deveriam ser das cidades vazias e de tomadas seguindo a estética de registros comuns de celulares, utilizando lentes ‘olho de peixe’, cujas imagens se assemelham à perspectiva de um “olho mágico”. Segundo o diretor, em entrevista ao site GQ Magazine, utilizados dessa forma os dispositivos expressam “olhos arregalados e oprimidos”, sendo coerentes com o momento vivido e compartilhado mundialmente.

O canal de humor Porta dos Fundos também teve suas atividades pausadas, principalmente em 2020. Foi então que o grupo resolveu criar alternativas para seguir as gravações. O canal adaptou em várias de suas sketches a interface dos softwares de videochamada e, da mesma forma, explorou esteticamente as falhas de sinal, delays, glitches e demais contingências recorrentes do ambiente virtual. O canal ainda se valeu de temáticas do cotidiano na pandemia em vários de seus roteiros.

O que vemos nestas produções emergenciais são sobreposições de algumas das diversas telas que conhecemos, cujas interfaces eram vistas normalmente apenas em determinados ambientes virtuais. Agora as vemos ressignificadas criativamente em diversas produções audiovisuais, acabando por fazer emergir estéticas alternativas.

Texto: Bibiana de Paula

Referências

HUHTAMO, Erkki. Elementos de Screenologia: em direção a uma arqueologia da tela. Revista de Audiovisual. Sala 206, n. 03, 2013.

OBICI, Giuliano. Gambiarra e experimentalismo sonoro. Tese (Doutorado em Música) – Universidade de São Paulo, Escola de Comunicação e Artes, São Paulo, 2014.

GQ Magazine. How The Rolling Stones’ new music video was made in lockdown.Disponível em: https://www.gq-magazine.co.uk/culture/article/rolling-stones-living-in-a-ghost-town-music-video. Acesso 29 jun. 2021.

GQ Magazine. How The Rolling Stones’ new music video was made in lockdown.Disponível em: https://www.gq-magazine.co.uk/culture/article/rolling-stones-living-in-a-ghost-town-music-video. Acesso 29 jun. 2021.

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