Arqueologia das Mídias 101: Os Métodos Indisciplinados das Arqueologias

postado em: Atualizações | 0

Dando continuidade a série de lives realizadas pelo projeto Arqueologia das Mídias 101, mediado pelos professores Gustavo Fischer (TCAv-Lab.Mem / Unisinos) e Marcio Telles (Escola de Comunicação / UFRGS), no segundo encontro, promovido no dia 29 de julho, os pesquisadores comentaram a respeito dos diferentes caminhos metodológicos presentes dentro do campo da pesquisa em Arqueologia das Mídias. O projeto tem em seu intento fomentar discussões acerca desse campo, colaborando e expandindo a rede de pesquisadores inseridos nos estudos em âmbito nacional e internacional.

Dado o fato que o campo das arqueologias define-se como um estudo com entradas múltiplas, de forma que incita constantemente o pensamento para com as mídias a ser expandido para novos horizontes, a pluralidade de autores que incorporam a arqueologia das mídias em seus processos metodológicos de escrita e pensamento é vasta, de modo que pesquisadores como Parikka, Kittler e Huhtamo articulam sistemáticas particulares em relação às mídias que estudam e observam.

Arqueologia(s) da(s) mídia(s) e seus métodos (in)disciplinados

Conforme foi conduzida na primeira edição da live, sendo apresentadas noções mais conceituais em torno desse “protocolo de pesquisa” da arqueologia das mídias, Gustavo Fischer ressalta a importância de se enfatizar que as entradas múltiplas não servem para fazermos um relativismo total. Elas possuem relevância na medida em que deixam de promover uma espécie de fechamento do raciocínio a respeito do que seria uma definição da própria arqueologia da mídia. Especialmente ao entrarmos em discussões acerca do método, a premissa em si permanece: “há movimentos que são variados como um modo da gente pensar vários ingressos”.

A discussão realizada entre Fischer e Telles teve como ponto introdutório o movimento organizacional feito por Telles em seu artigo publicado no periódico Dispositiva. Nele, o pesquisador toma como ponto inicial as processualidades executadas dentro das arqueologias como ações que buscam descrever, escrever e reescrever as histórias incrustadas nos meios midiáticos. Conforme Telles coloca:

Se podemos desconstruir o discurso de qualquer indivíduo com base no dispositivo técnico utilizado, é possível desconstruir o próprio discurso do meio.

Desse modo, Telles observou tendências metodológicas presentes nas produções de pensamentos de pesquisadores do campo. A partir disso, a discussão se direciona para a compreensão das articulações desenvolvidas pelos autores em suas pesquisas, exemplificando e elucidando as formas que as materialidades midiáticas são percebidas e expandidas.

Fischer irá convocar os pensamentos de Kittler em sua fala, apontando para uma outra maneira de entender esses movimentos (e pensamentos) arqueológicos, a partir da presença do hardware associada a ideia de discurso, pensando em uma espécie de metáfora mais geológica. Em nossa formação em Comunicação, somos instruídos a refletir em torno do que está na ordem da superfície, como narrativas, discursos – o texto em um sentido mais pragmático da palavra. Fischer nos aponta para a seguinte reflexão:

O convite teórico metodológico da Arqueologia da Mídia portanto é talvez interrogar o pesquisador: até onde você quer escavar para pensar a respeito de um objeto? E o quanto você vai considerar a profundidade do terreno no qual determinado fenômeno se apresenta?

A escavação dos objetos com os quais nos deparamos não corresponde apenas a ser realizada de maneira onde nos aprofundamos em camadas de discursos que estão presentes dentro do objeto. Ou seja, também é instigada a realização desse movimento, como que ele se dá, a partir dos círculos que permeiam o objeto analisado.

Desse modo, a pesquisa que toma a arqueologia das mídias como possibilidade, vai organizar tanto as profundezas quanto às amplitudes da escavação. Para os pesquisadores, isso é muito produtivo, pois de um lado retiramos a ideia do objeto midiático em si “conter as respostas”, e de outro passamos a produzir de algum modo uma certa cena que ajuda nessa ideia de reescrita. Pensar na noção de cena a partir de Walter Benjamin, conforme aponta Telles, é muito interessante e valiosa para refletir o que é a arqueologia das mídias.

Lançando vistas e pensando em termos metodológicos, é importante perambular ao redor do objeto: notícias, relatos, as patentes técnicas, os diagramas etc. A percepção de diagrama na arqueologia das mídias tem uma ideia bem particular, conforme aponta Telles:

Entende-se como toda forma de conhecimento que pode ser diagramada, posta em gráfico. Quando vinculada a ideia de planta baixa, por exemplo, entende-se que a planta acaba por exercer um papel de diagramação, uma vez que esta mostra a funcionalidade de um dispositivo, mostrando as condições de possibilidade do que é executável com aquela máquina.

Fischer acredita que o que há nesse lugar indisciplinado da arqueologia das mídias é uma certa brecha proposital para que se manipule, no melhor sentido da palavra, os materiais que se está escavando com diferentes profundidades, conforme foi sendo refletido em sua discussão. Ou seja, é tentar se colocar em um lugar diferente ao habitual de narrar as coisas de um mesmo jeito.

Por fim, a discussão se encaminhou para um olhar mais atualizado a respeito das mídias, considerando os caminhos e impactos que as metodologias arqueológicas exercem na extensão do olhar acerca de mídias contemporâneas. Telles e Fischer também disponibilizaram um documento com uma curadoria dos autores que trabalham com a ideia de arqueologia das mídias, sendo uma forma de fomentar ainda mais o debate deste campo teórico-metodológico.

Próximos movimentos arqueológicos

Com próximo encontro divulgado para o dia 26 de agosto, o terceiro encontro do projeto contará com a participação de Marcelo Conter, professor de produção fonográfica no IFRS, discutindo o efeito nostalgia e a arqueologia das mídias na música pop. Para assistir a gravação desta live e da anterior, é só se inscrever no canal da Escola de Comunicação, e acompanhar as redes sociais da própria Escola de Comunicação e do LabMem – Laboratório de Memória das/nas Mídias Online para demais informações referentes a Arqueologias das Mídias.

Texto: Julia Pinto de Souza e Camila de Ávila.

Deixe uma resposta