#Arte e espaço em tempos de pandemia

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Em tempos de pandemia, diante de um cenário totalmente atípico, surgem necessidades de (re)adaptações em vários aspectos da vida. No entanto, como se adaptar ao isolamento social? Talvez seja uma questão em que não encontramos uma resposta objetiva, mas talvez alternativas criativas. Alguns artistas buscam, como possibilidade, recriar seus ambientes de isolamento social, como é o caso dos fotógrafos Bruno Alencastro e Karman Verdi.

foto:Bruno Alencastro

A fotografia não está limitada apenas ao registro bruto de imagens e sendo assim, um dos papéis da arte na fotografia é promover reflexões em forma de poesia visual. Bruno Alencastro faz uma provocação tautológica entre o dispositivo da câmera e seu ambiente de isolamento. A proposta remete ao princípio da fotografia, quando o fotógrafo transforma seu quarto em câmara obscura, trazendo o ambiente externo pra dentro de casa. A imagem, que se projeta na parede de forma invertida, tanto exprime a sensação de “mundo de cabeça para baixo” como relata o fotógrafo, quanto propõe pensar o modo como convivemos e interagimos com as imagens e como estas também nos olham. Neste contexto é possível ponderar acerca das imagens síntese de Bellour, quando o autor diz que as imagens geradas pelos dispositivos simulam uma analogia com o mundo real, e, ao mesmo tempo o modificam, “uma criação imitada e uma recriação recomeçada” (Bellour, 1993).

Novos contextos sociais vêm surgindo nesta situação de pandemia e convergências entre conhecimentos tecnológicos, arte, cultura acabam por produzir diferentes fenômenos tecnoculturais, nas palavras de André Parente, (1993, p.15):

Se cada sociedade tem seus tipos de máquinas é porque elas são o correlato de expressões sociais capazes de lhes fazer nascer e delas se servir como verdadeiros órgãos da realidade nascente. Cada tecnologia suscita questões relativas à sua consciência enunciativa específica que, em última instancia, se articula com a produção discursiva de uma sociedade num determinado contexto (PARENTE, 1993).

foto: Karman Verdi

Nesta dimensão, o vídeo e a fotografia se tornam intermediários das artes. A relação entre os modos de fazer imagens e de como estas se afastam do real, por meio das artes, permite o funcionamento de máquinas de imagens. (Bellour, 1993). Também se enquadra nesta conjuntura outro trabalho fotográfico. Karman Verdi apropriou-se de elementos sensoriais das tecnologias de forma que estes se aliassem ao seu imaginário, no que diz respeito a trazer a projeção fílmica para seu ambiente de isolamento a fim de transformá-lo em um ambiente interativo, assim, reinventando também, o uso dos aparelhos tecnológicos. As imagens gravadas pela câmera e reproduzidas eletronicamente, remetem ao que Flusser chama de nova imaginação, “a nova imaginação é a capacidade de fazer quadros a partir de cálculos” (FLUSSER, 2004). Deste modo, bits e lúmens transformam a ausência em presença, de modo que aparelhos técnicos e poesia confluem através das materialidades das imagens.

Texto: Bibiana de Paula

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