As Audiovisualidades e a Chamada para REBECA nº 18.

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Está aberta chamada para o número 18 (Jul. – Dez. 2020) da Rebeca – Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, publicação da SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual). Os textos devem compor o dossiê temático “Cinemas e audiovisualidades queer/kuir/cuir no Brasil e na América Latina”.

Se faz produtivo refletirmos acerca da chamada, com o destaque para o termo audiovisualidades que é apresentado. Afinal, o conceito está presente no nome de nosso grupo e é fundante na perspectiva da linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais do PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos, que

[p]esquisa as mídias audiovisuais em perspectiva tecnocultural, filosófica e arqueológica. Desenvolve estudos teóricos e metodológicos sobre a natureza dos meios e dos processos midiáticos que mobilizam áudios e imagens de qualquer origem e de qualquer época, inclusive os que se disfarçam à percepção nas materialidades estudadas. (UNISINOS, 2018).

O conceito de audiovisualidades, com o qual trabalhamos, está centrado na obra de Suzana Kilpp. A autora o entende como um objeto comunicacional que se manifesta de forma específica em diferentes mídias. As audiovisualidades, desse modo, seriam qualidades comunicacionais as quais habitam o mundo, mas que melhor se dão a ver na medida em que se atualizam em mídias audiovisuais.

O DOSSIÊ “Cinemas e audiovisualidades queer/kuir/cuir no Brasil e na América Latina

A chamada para a publicação contextualiza o dossiê nos âmbitos mundiais, latinos e brasileiros no entorno do cinema e audiovisualidades queer/kuir/cuir. Assim, se volta tanto à produção audiovisual e artística, quanto às acadêmicas, abordando também a consolidação de comunidades de pesquisas sobre os temas. Nesse sentido, aponta autores importantes para a temática, movimentos de fortalecimento e criação de grupos de estudos e pesquisas na COMPÓS, INTERCOM e SOCINE.

Assim, o dossiê “busca reunir textos que contemplem essas múltiplas formas de se refletir sobre os cinemas queer/kuir/cuir brasileiros e latino americanos”. Também aceita formatos autorais e/ou experimentais, na esteira da submetodologia indisciplinada (MOMBAÇA, 2016) e da desobediência epistêmica (MIGNOLO, 2010).

Prazo: 15 de agosto de 2020 
Mais detalhes sobre a chamada em: https://rebeca.socine.org.br/1/announcement/view/20

As audiovisualidades: Rebeca e SOCINE

A atual chamada em aberto da Rebeca conta com uma mudança no enunciado do que compreende como audiovisual. Nesta edição, toma como manifestação do audiovisual as audiovisualidades. 

O conceito é trabalhado no âmbito do TCAv como central. Com certeza, para o grupo, essa compreensão alargada do audiovisual em ambientes tão importantes para a pesquisa brasileira, como a Rebeca e a Socine, se mostra relevante. Afinal, aproxima-o de outros grupos, linhas e perspectivas de pesquisa do audiovisual brasileiro. Isso ocorre um ano depois da realização do encontro SOCINE na Unisinos, apontando para certa importância do caráter “itinerário” dos encontros acadêmicos. Com isso, produz tanto a visibilidade de diferentes conceitos e perspectivas, quanto uma produção de conhecimento diversa e duradoura como tal.

Por outro lado, a chamada da revista também dá a ver as constantes transformações e exigências que o audiovisual demanda dos acadêmicos que o investigam.

Os dossiês anteriores da revista, desde seu número 1:

  1. Cinema e Audiovisual na primeira década de 2000;
  2. Consolidação e ruptura dos gêneros cinematográficos;
  3. A memória da expressão audiovisual;
  4. Documentário I;
  5. Documentário II;
  6. Documentário III;
  7. Cinema latino-americano I;
  8. Cinema, baixo orçamento, inovação;
  9. O som no audiovisual;
  10. Africanidades;
  11. Convergências do | no cinema;
  12. Cinemas em português;
  13. Pedagogias da Montagem;
  14. Sem dossiê;
  15. Atualizando o pós-cinema;
  16. Cinema e Espaço Urbano;

Percebemos nas diferentes abordagens sobre o entendimento de audiovisual e potências audiovisuais ideias e conceitos que se aproximam das audiovisualidades, conforme são trabalhadas no TCAv. Mas percebendo a abordagem como inédita na revista, reunimos aqui alguns apontamentos que podem auxiliar na articulação do conceito a quem possa interessar, e registrar a potência das audiovisualidades como perspectiva sobre a multiplicidade de manifestações audiovisuais – especialmente no Brasil e América-Latina, em que as produções se dão nos mais diferentes formatos, contextos e estéticas, os quais, nos parecem, demandam uma flexibilidade conceitual para pensá-los.

Percebendo, também, que as audiovisualidades aparecem pela primeira vez, mas não se colocam como temática: ao invés disso, são formatos diversos de audiovisuais, ressonando também a proposta formal dos textos a serem submetidos, autorais e experimentais.  Assim, o referencial da chamada se volta, evidentemente, para a sua proposição temática queer/kuir/cuir, então buscamos aqui trazer algumas abordagens no entorno das audiovisualidades.

Por que (ou o que são) ‘audiovisualidades’?

Ao passo que os conceitos são apropriados e trabalhados por diferentes autores e articulados à diferentes perspectivas, compreendemos que as audiovisualidades podem aderir às diferentes abordagens de trabalhos. Entretanto, selecionamos aqui algumas explicações trabalhadas no grupo ao longo da última década.

Em 2009, ainda como GPAv (Grupo de Pesquisa Audiovisualidades), o grupo publica o MANIFESTO AUDIOVISUALIDADES, assinado por Alexandre Rocha da Silva, Miriam de Souza Rossini, Nísia Martins do Rosário e Suzana Kilpp.

O manifesto parte de uma divisão em três dimensões do conceito:

1. encontrar e analisar audiovisualidades em contexto não reconhecidamente audiovisuais, fundamentando-se em Eisenstein (que reconhece a presença do cinema antes da indústria cinematográfica) e em Deleuze e Bergson, a partir da imagem-movimento;

2. a compreensão o audiovisual como espaço contemporâneo de convergência de formatos, resguardando as especificidades de cinema, televisão, vídeo e mídias digitais, e como a convergência instaura linguagens;

3. a dimensão das linguagens, que estuda e analisa “construtos audiovisuais como modos singulares de expressão e significação da experiência no mundo”.

Para tanto, é necessário pensar as audiovisualidades como uma potência, uma qualidade. Não o audiovisual enquanto objeto dado imediatamente à consciência, mas como características intrínsecas à ele, que podem ser verificadas nos lugares mais inusitados. Nesse sentido observamos os livros publicados pelo grupo, Audiovisualidades da Cultura (2010) e Audiovisualidades nas Mídias (2009), que contém produções de pesquisas discutindo a qualidade de audiovisualidades em espaços mais reconhecidos e tradicionais como a televisão, o cinema e o vídeo na web, mas também em outros territórios que não parecem ser, imediatamente, audiovisuais, como a fotografia, o corpo, o graffiti, o jogo, a identidade visual (logo) de marcas, etc.

Assim, Kilpp chama atenção para o fato de que as audiovisualidades, e as abordagens a partir delas, tornam o audiovisual “irredutível a qualquer mídia”, independente do formato, mídia ou suporte em que seja encontrado.

Tais dimensões e princípios não determinam e encerram o conceito, que se realiza, atualiza e alarga a cada pesquisa.

A televisualidades na Intercom

Além do conceito de audiovisualidades presente na chamada da SOCINE, destacamos também sua centralidade no GP Estudos de Televisão e Televisualidades, no Intercom.

O grupo já contou com coordenação da professora Suzana Kilpp, uma das pesquisadoras fundantes do TCAv e que desenvolve largamente o conceito de audiovisualidades em suas pesquisas, especialmente debruçada sobre sentidos identitários televisivos (ethicidades) brasileiros. Kilpp lançou, inclusive, o livro Imagem-Duração e Teleaudiovisualidades na Internet.

Atualmente o GP é coordenado por Gustavo Daudt Fischer, que também compõe a coordenação do TCAv. 

“Considerando televisualidade enquanto mimetização ou lembrança de aspectos televisuais em outras mídias, suportes e fluxos, assim como o comparecimento, a ingerência ou a lembrança das lógicas operacionais, das estéticas e da linguagem da TV nesses outros dispositivos, o GP compreende os estudos de televisão como mídia e como televisualidade replicada (em produtos cinematográficos, de vídeo, internet, dispositivos móveis ou outras materialidades).” LEIA MAIS SOBRE O GRUPO EM: https://www.portalintercom.org.br/index.php?/eventos1/gps1/gp-estudos-de-televisao-e-televisualidades

Texto por:

Juliana Koetz e Camila de Ávila

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