Audiovisualidades na Pandemia – Desbloqueando memórias audiovisuais com o TikTok.

A pandemia que se originou do surgimento do vírus COVID-19 provocou diversas mudanças sociais e culturais na comunidade internacional. Dentre estas mudanças, as medidas de isolamento e distanciamento social se tornaram regra e apresentaram novos modelos de trabalho, de estudo, de entretenimento e de socialização. Estes âmbitos da sociedade precisaram se virtualizar e o formato encontrado por muitos se deu nas plataformas digitais, representadas pelos aplicativos de smartphones.  

Neste contexto, observamos o crescimento do TikTok, um aplicativo de rede social que tem o objetivo de facilitar a produção e o compartilhamento de vídeos curtos, tendo entre 15 segundos e 3 minutos de duração. Ele combina ferramentas de edição de vídeos facilitadas além da inserção de músicas e arquivos de áudio em um banco de dados próprio. 

Diferentemente de outras plataformas, o TikTok possui em sua base de usuários, uma grande parcela de produção de conteúdo feita por pessoas anônimas. Isso acontece, pois o algoritmo de recomendação é diferente do encontrado em outras plataformas. Logo após o cadastro, são apresentados cerca de dez vídeos de diferentes tendências que estão populares naquele momento. À medida que o usuário interage com esses conteúdos, o algoritmo define os interesses do usuário e passa a oferecer conteúdos relacionados, independente de quantos seguidores os criadores possuam. 

Esse modelo mais amplo viabiliza que, tecnicamente, qualquer usuário da rede social possa se tornar famoso no aplicativo, basta que o seu vídeo possua algo cômico, interessante, ou inesperado, que o torne um viral. Essa característica somada com o aumento do tempo em casa propiciado pelas medidas de isolamento social torna o aplicativo um terreno fértil para o surgimento dos Challenges. 

São vídeos que consistem em uma reencenação de algum viral que é repetida pelos participantes utilizando a sua própria imagem. Ainda nesse âmbito, observamos os construtos de games que emergiram da pandemia através do #ChooseYourCharacter.  

Dado este contexto, partimos para o caso de “Memory Unlocked”, ou “Memória Desbloqueada”, em português. Trata-se de um desafio onde os usuários da plataforma compartilham um vídeo em que, a partir de uma música, são trazidos de volta para a adolescência. 

A estética jovem em suas respectivas épocas de Paramore, em 2007 e Olívia Rodrigo, em 2021.

A música em questão é “Good 4 U”, da cantora adolescente Olívia Rodrigo. Lançada em 14 de maio de 2021, a canção possui uma cadência e entonação que a aproximam do estilo musical Pop Rock, que era bastante popular entre os jovens na década de 2000.  

Essa semelhança foi percebida por um TikToker e compartilhada na plataforma três dias depois do lançamento de Rodrigo. O usuário @nikjaay criou um mashup utilizando o trecho anterior ao refrão da composição de Olívia em justaposição com o refrão da música “Misery Business”, lançada em 18 de junho de 2007 pela banda de Rock adolescente Paramore. O resultado é uma improvável combinação que exerce muito bem sua função enquanto mesclagem. Nick deu o nome de “Misery 4 U”, combinando também os nomes das faixas. 

@nikjaay

🚨 New Sound Alert 🚨

♬ misery 4 u – Nick
Fonte: TikTok @nikjaay

Ao observar os comentários da postagem, foi possível notar uma menção aos vídeos de “Memory Unlocked” ou “Memória Desbloqueada”, em português. A partir desse termo, dezenas de vídeos surgiram na busca e ao assisti-los era possível encontrar um padrão do que viria a se transformar em um challenge.  

O desafio em questão se dá em dois momentos: No primeiro, os atores se auto representam ouvindo a música de Olívia Rodrigo pela primeira vez em alguma situação corriqueira (como dirigir ou maquiar-se), quando acontece a transição para a música da banda Paramore, observamos o surgimento do texto “Memory Unlocked” na tela. Os TikTokers então fazem uma expressão de surpresa e é feito um corte para uma cena que se passaria em 2007, representando a adolescência ou a infância destes atores, ouvindo entusiasmados a música da banda de Rock estadunidense. 

Fonte: TikTok @celeste__nicole__

A encenação do “desbloqueio da memória”, protagonizada no challenge em questão, serve como uma representação audiovisual para Bergson quando diz que “O passado se atualiza no presente, estar diante de um concreto evoca lembranças.” (BERGSON, 2006). O concreto aqui sendo a música recém-lançada, que involuntariamente rememora o passado de seus ouvintes. Memória que é reconstruída no presente por seus atores, mas deixa de habitar o imaginário íntimo sendo extrapolado para a mídia através de ferramentas e repertórios inexistentes originalmente, originando uma atualização da representação daquela época.  

A forma utilizada pelos TikTokers para retratar o ano de 2007 é de grande significância para o estudo das audiovisualidades. Usa-se, ainda que inconscientemente, muito do dispositivo cinematográfico de Parente (2007). São empregados os códigos de enquadramentos, de cortes, e principalmente, de montagem cinematográficos.  

A caracterização dos atores reforça o papel narrativo da produção e remete à moda da época, representada pela estética do Emo, composta por maquiagens escuras e marcadas, cabelos lisos com franjas diagonais compridas escondendo um dos olhos.  

Por último, os usuários se apropriam das ferramentas de edição que o TikTok oferece para inserir filtros que remetem à estética dos vídeos caseiros gravados com filmadoras conhecidas como camcoders, que frequentemente eram utilizadas naquele período. 

Fonte: TikTok @celeste__nicole__

Acostumados com as efemeridades proporcionadas pelo grande fluxo de conteúdo gerado na web, poderíamos dar o assunto por encerrado. No entanto, cerca de dois meses após o lançamento da faixa, houve uma alteração na creditação da canção. Os músicos compositores de “Misery Business”, do Paramore, Harley Williams e Josh Farro, passaram a ser creditados como compositores de “Good 4 U” e receberão 50% do lucro com royalties da faixa de Rodrigo, evitando assim um possível processo por plágio.  

Transações como essa, bem como acordos entre gravadoras não são novidade no mundo da música, mas esse caso em específico se destaca ao ter sido originado, materializado e propagado na plataforma do TikTok através das memórias dos fãs da banda de rock estadunidense em seus Challenges.  

Texto: Gabriel Palma 

Revisão: Camila de Ávila


Referências:

BERGSON, Henri. A memória ou os graus coexistentes da duração In: Memória e Vida. São Paulo: Martins Fontes, 2006. 

PARENTE, André. Cinema em trânsito: do dispositivo do cinema ao cinema do dispositivo. In: PENAFRIA, Manoela; MARTINS, Índia Mara. Estéticas Do Digital. Lisboa: LabCom, 2007. 

TikTok @nikjaay (https://www.tiktok.com/@nikjaay/video/6963337007179336965)

TikTok @celeste__nicole__ (https://www.tiktok.com/@celeste__nicole__/video/6970065052829338886)

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