Audiovisualidades na Pandemia: novos sentidos de conectividade na plataforma Twitch.tv

Já é um fato esclarecido que entre tantas mudanças trazidas por 2020 e a pandemia do COVID-19, a reinvenção dos espaços comunicacionais e hábitos de consumo de informação foram aspectos que tiveram uma transformação significativa. O ato de se conectar com outras pessoas ao frequentar espaços como festivais, shows, parques e eventos, além de migrar para o âmbito virtual, acabou por revelar novas formas de interação mediadas por websites de streaming.

Como levantado na matéria a respeito de rituais e pandemia, simples momentos vivenciados com estranhos acabam adquirindo uma nova roupagem. O ato de iniciar uma conversa com desconhecidos na fila para um evento, ou o sentimento de pertencimento incorporado no ato de assistir uma performance ao vivo de algum artista de sua escolha manifestam-se de formas distintas no âmbito virtual, e a plataforma Twitch.tv vem exercendo uma forte participação nesse processo.

Surgindo como espécie de spin-off do website Justin.tv no ano de 2011, a plataforma ganhou seu devido destaque após o interesse pela categoria de jogos crescer significativamente dentro do Justin.tv, cujo propósito inicial era voltado para usuários transmitirem ao vivo suas vidas, similar a proposta de um reality show.

Ainda que a plataforma tenha crescido e se estabelecido no mercado por meio do streaming de playthroughs de múltiplos jogadores, desde 2014, e especialmente durante a pandemia – o Twitch.tv vem apresentando uma quantidade de conteúdo divergente a dos games. A aproximação com a proposta inicial do Justin.tv é considerável, de modo que  transmissões do cotidiano dos usuários em suas casas na quarentena ganhou espaço no site, como também a produção de conteúdos veiculados a música, desenho e até mesmo festas.

Em maio, a Open Pit – empresa de engenheiros especializada na organização de eventos virtuais, especialmente dentro do universo do jogo Minecraft -, em conjunto com a casa noturna Elsewhere, sediada no Brooklyn, recriaram o espaço da festa dentro do jogo, contando com a performance de artistas como Pussy Riot e Pabllo Vittar. O evento arrecadou a participação de 2.400 usuários no espaço virtual, e cerca de 30 mil espectadores da transmissão do evento via Twitch.tv.

Já em territórios brasileiros, de julho a setembro o músico Marcelo D2 compartilhou pela sua conta na plataforma todo seu processo criativo e de produção do novo álbum “Assim Tocam Meus Tambores”. Da arte da capa do álbum, até a gravação com outros artistas, os fãs do músico não apenas puderam acompanhar todo o avanço do projeto via Twitch.tv, como aqueles que eram assinantes puderam também participar e interagir com Marcelo D2 via chat. 

Com a participação do público realizando comentários a respeito do processo e dando ideias que acabaram sendo incorporadas em “Assim Tocam Meus Tambores”, a cultura de apropriação que permeia o gênero do hip-hop, como disse D2, acabou por estender seus sentidos por toda a construção de sua obra mais recente.

Captura de tela realizada pela autora

Conforme já foi colocado em outras matérias desta série do TCAv, é curioso que a busca por conforto e lazer durante este período pandêmico permaneça vinculado a telas e dispositivos, ainda que o tempo o qual passamos em frente as mesmas trabalhando e estudando tenha aumentado significativamente. Muito disso se deve, é claro, as possibilidades limitadas que temos em gerar conexões com outros indivíduos em diferentes coletivos. Considerando que estas conexões encontram-se tão atreladas e dependentes do âmbito virtual,  muitas das estruturas sociais, culturais e laborais foram alteradas.

Por outro lado, este olhar atento ao papel das plataformas de transmissão ao vivo em proporcionar espaços de movimento e conexão com terceiros não é algo exclusivo da pandemia. Conforme Kilpp e Montaño (2012) colocaram:

As plataformas de vídeo já nos oferecem várias experiências de conectividade (com outro usuário, outra tecnologia, outra imagem); e de trânsito (principalmente nas abundantes molduras link, aquelas que apelam sempre a uma opção do usuário por clicar ou não no que lhe é oferecido para seguir navegando). Assim, embora não saiamos de lugar algum nem nos direcionemos a lugar nenhum, transitamos; e isso é assim por estarmos o tempo todo tendo que decidir para onde ir: em qual das molduras desenhadas nas páginas devemos clicar para prosseguir a navegação.

Ou seja, o trânsito e a conectividade, enunciados como tais, são, na verdade, as mais decisivas experiências de imersão na informação que nos são ofertadas na web. A imobilidade e a mobilidade física tornam-se irrelevantes diante da experiência da ubiquidade, que permite estarmos em todos os lugares ao mesmo tempo.

Esta conectividade e trânsito proposta neste artigo faz referência às possibilidades de navegação presentes na interface de sites de streaming como o Justin.tv e o Twitch.tv. Contudo, ainda que a proposição feita pelas autoras permaneça significativa e presente na forma de agir dentro dessas redes, cabe aqui salientar que com a presença do COVID-19 no cotidiano, os sentidos presentes dentro desses termos acaba por adquirir um significado mais profundo.

Considerando que estas plataformas tomam um espaço importante na web há mais de 10 anos, sua relevância no papel de reinvenção de audiovisualidades televisivas está distante de desaparecer. Cabe, portanto, atentar o olhar para o tipo de protagonismo que o Twitch.tv terá a partir daqui. Não sabemos o que irá acontecer após o período de pandemia em que vivemos.

Fala-se muito sobre um “novo normal”, uma vez que o cotidiano que tínhamos como  sociedade não deverá voltar a ser o mesmo com o que estávamos familiarizados. Resta saber quais serão os próximos passos dados pelas plataformas de streaming em reinventar nossos movimentos no âmbito virtual e no real.

Texto: Julia Souza.

Referências:

KILPP, SUZANA; MONTAÑO, SONIA. Trânsitos e conectividades na web: uma ecologia audiovisual. Matrizes, vol. 6, núm. 1, julio-diciembre, 2012, pp. 129-143.

Links:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2020/08/entenda-como-marcelo-d2-pediu-ajuda-aos-fas-e-fez-um-album-em-lives-na-twitch-ckdn8vphi00dp01h8v71wkwce.html

https://gq.globo.com/Tecnologia/noticia/2020/09/twitch-plataforma-antes-restrita-aos-gamers-e-agora-ponto-de-encontro-para-musica-e-festas.html

Deixe uma resposta