Audiovisualidades na pandemia: o RPG de mesa nas telas

Muitas experiências do viver foram transformadas durante esse período pandêmico. Talvez uma das que mais tenha sido afetada seja a experiência de jogar RPG, que de certa forma foi digitalizada e audiovisualizada. Para falar disso vou dar uns passos atrás para relatar de que experiência é esse de que estou falando para depois tratar das transformações que se deram nesse processo de audiovisualização.

Os RPGs (Role-playing game), são jogos de representação em que os participantes dão vida a personagens ficcionais nos mais diversos tipos de cenário. Possivelmente o mais conhecido do mundo seja Dungeons & Dragons (D&D), que além do RPG de mesa possui: jogos digitais e de tabuleiro, filmes, séries animadas, peças publicitárias e serviu de inspiração para muitos mundos de fantasia.

Explicando a grosso modo, os jogos de RPG tem em geral uma pessoa que narra a história e expõe os conflitos os quais as outras pessoas terão de se confrontar, um sistema de regras e alguma forma de simular a imprevisibilidade da vida – no geral dados, mas também existem sistemas com cartas e outros que até dispensam esse tipo de solução. No caso de D&D são usados vários tipos de dados m situações descritas pelas regras do sistema de jogo.

Representação do Narrador ou Mestre do Jogo na série animada

As sessões de jogo se dão normalmente na volta de uma mesa, e o jogo se constrói a partir de quem narra (Mestre do jogo). È nasse narrar que a história toma forma no imaginário que está participando de uma sessão de jogo. No geral todos os elementos são imaginados, quem joga parte de uma representação matemática das características da sua personagem, mas ela se materializa no próprio jogar, onde os dados definem acertos e erros, mas os efeitos destes são descritos e narrados. Claro que é possível contar com diversos materiais de apoio, como ilustrações, presentas tanto nos livros de jogo quanto de outras fontes, mapas táticos de combate, miniaturas e até trilha sonora. A utilização destes materiais geralmente fica a critério do grupo ou de quem está narrando, sendo que nenhum é imprescindível.

Mesa de RPG com mapas e miniaturas – Fonte O Globo

Jogar RPG é uma experiência essencialmente presencial, em alguns casos, como nos LARPs, com interpretação de papeis, para além da representação, tomando quase uma forma teatral. Mesmo que alguns jogos digitais se apresentem como RPGs, a experiência é absolutamente distanta da vivenciada na volta da mesa. Também existem vários sistemas digitais que tentam emular a experiência do jogo presencial e é aqui que este texto se direciona para a discussão das audiovisualidades na pandemia.

Seria natural imaginar que uma prática de jogo, que é essencialmente presencial, sofreria dramaticamente em um contexto, entretanto, foi um dos melhores anos de vendas para Dungeons & Dragons1, e isso se deu parcialmente pela utilização de sistemas de mediação digital2, além de outros elementos que atravessam o mundo do jogo3.

A experiência de jogo então passa por um processo de audiovisualização onde acontece uma hibridização de experiências. A mesa de jogo passa a ser virtual, entretanto é feita uma tentativa complexa de emular essa experiência. Dependendo do sistema utilizado (aqui estou falando do Fantasy Grounds) todos os processos parecem tentar se aproximar da experiência of-line, desde o preenchimento das fichas, quanto da rolagem de dados, que é acompanhada do som característico dos dados repicando em uma mesa de madeira.

Rolagem de dados no Fantasy Grounds – Fonte Kickstarter FGU

O narrar de quem mestra também continua sendo um elemento fundamental, mas outros elementos começam a fazer parte desse jogar e que mudam dramaticamente essa experiência. Os mapas que antes eram material de apoio, agora servem para, além de ajudar no posicionamento das personagens, mostrar o que se está enxergando, escondendo o que está atrás de obstáculos ou que não está iluminado. Também é possível usar efeitos visuais de clima, como chuva ou névoa. Elementos que antes estão intrinsecamente ligados à capacidade de ambientar de quem narra, juntamente com a imaginação de quem joga, passam a ser performado imageticamente pelo software.

Efeitos visuais no Fantasy Grounds – Fonte Kickstarter FGU

Outro elemento interessante é que essa passa a ser uma experiência multiplataforma, com pessoas conectadas via FGU para movimentação das personagens e acesso as fichas e regras, mas também conectadas ao Discord para as conversas. Essa também é uma experiência que pode se dar em múltiplos dispositivos, já que frequentemente é utilizado o computador para uma coisa e o celular para outra. É importante também ressaltar que existem outros agentes que podem estar envolvidos nessa mediação, como Bots (responsáveis por procurar e tocar as trilhas sonoras) e que algumas dessas plataformas podem estar integradas (como o sistema de fichas do site/app D&D Beyond com o chat do Discord). Para além disso, essa também passa a ser uma experiência compartilhada, já que diversos grupos se reúnem para transmitir seus jogos via Youtube e Twitch.

Live de D&D jogado no FGU transmitido pelo Youtube – Fonte Meeple Maniacs

Parece impossível afirmar que essa experiência de jogo é a mesma de estar reunidos em torno da mesa, ao mesmo tempo que é impossível afirmar que é o mesmo que jogar um jogo digital. Não é mais um jogo de mesa e também não é um jogo digital. Esse tipo de apropriação, que é realizada pela própria mídia, assim como por seus usuários, pensada de tanto em suas técnicas, quanto suas estéticas são características da tecnocultura em que estamos inseridos.Talvez as mesas virtuais de RPG tenham uma característica única nessa relação do jogar, e possivelmente, durante a pandemia de Covid-19, tenham se tornado responsáveis por manter diversos grupos reunidos, além de propiciar vários outros.

Texto: Leonardo de Mello

1https://www.cnbc.com/2021/03/13/dungeons-dragons-had-its-biggest-year-despite-the-coronavirus.html

2https://www.enworld.org/threads/roll20-rpg-usage-stats-growth-everywhere-during-pandemic.673773/

3https://www.polygon.com/2021/1/8/22178462/board-games-rpgs-2021-magic-dungeons-dragons-pandemic-black-lives-matter

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