Cobertura 2º dia da XVIII Semana da Imagem – João Martins Ladeira – Blockchains e criptomoedas: ruído onipresente e arquivo infindável

O segundo dia da XVIII Semana da Imagem na Comunicação contou com a presença do Prof. Dr. João Ladeira, da UFPR. A conversa, mediada pelo prof. Dr. Tiago Lopes, do PPGCC UNISINOS, teve como título “Blockchains e criptomoedas: ruído onipresente e arquivo infindável”, onde Ladeira abordou aspectos técnicos sobre uso de dados e os impactos do tipo de arquivo que promete armazenamento infinito.

Ao abrir a palestra, Prof. João Ladeira fez uma provocação questionando os participantes sobre o quanto estavam familiarizados sobre o uso de blockchains. Nesse sentido, sua fala abordou conceitos introdutórios sobre a ferramenta buscando estabelecer uma conexão entre as características do blockchain e os debates realizados dentro do TCAv, principalmente aspectos concernentes ao uso de arquivos. Como que o blockchain pode ser importante para a comunicação tem a ver intrinsecamente com as ferramentas digitais de comunicação. E se apropriar disso dentro das conversas sobre o que o digital é: isso envolve arquivos – as ferramentas mais indispensáveis do digital – e esses arquivos como armazenamento de memória.

Tiago Lopes e João Ladeira

Segundo Prof. João Ladeira, blockchains são como uma rede “que não esquece de nada e não perde nenhum registro, um arquivo gigantesco em que você não perde nada, não esquece nada, nada deixa de ser registrado. São ferramentas de arquivo para armazenar informações – isso é blockchain!” De forma complementar, Ladeira traz a perspectiva do autor alemão Friedrich Kittler, e sua visão arqueológica dos meios, para dar suporte na proposta de que esse formato de arquivo lida com uma rede menos óbvia como o ruído onipresente, e busca em Kittler a proposta da história própria de cada ferramenta de comunicação e como se desenvolveram.

João comentou que o blockchain ganhou visibilidade recentemente a partir de um formato, as criptomoedas, devido a popularidade no imaginário do público sobre as transações realizadas no mercado financeiro digital. Também explanou sobre as formas de banco de dados, sendo estruturados e não estruturados, como ferramentas de gestão de campanhas publicitárias digitais, por exemplo, ou até mesmo uma planilha de dados no Microsoft Excel.

João Ladeira na XVIII Semana da Imagem

Além da coleta de dados e mensuração dessas informações, Ladeira traz a necessidade da discussão sobre as ferramentas que fazem com que essas informações sejam visíveis aos olhos do público a partir da gestão de um banco de dados.  Os blockchains funcionam como uma série de blocos com informação de qualquer coisa conectado com uma gigantesca cadeia. O blockchain é como se fosse uma árvore genealógica, conectando os pontos em comum. Uma informação de uma arvore genealógica é um banco de dados, a corrente é aquilo que une esses blocos dispersos, ou seja, dá alguma estrutura a algo que não tinha estrutura nenhuma.

João Ladeira na XVIII Semana da Imagem

É como se essa tecnologia tornasse o segredo inviável, ou seja, qualquer dado pode ser acessado de qualquer modo, é um registro público distribuído para todos envolvidos. Uma rede de trânsito rigorosamente global, registrando tudo. Uma ferramenta de monitoramento sofisticada. Nesse sentido, João traz como inspiração a cartografia de Walter Benjamin e evoca Michel Foucault, possibilitando um mapeamento da vigilância e monitoramento de outro nível, agora descentralizado. Porque o que está em jogo aqui é desconstruir aqueles espaços de anonimato que se estabeleceram a partir da cidade moderna, uma estrutura que se torna possível saber quem é quem nesses pontos da rede.

João Ladeira reforça que sua pesquisa está extremamente relacionada com o pensamento sobre os objetos técnicos de Kittler – a partir da obra Gramofone, Filme, Typewriter (2019), onde cada um deles ocupa um lugar nesse ecossistema de meios e impera uma especificidade pela maneira que nos relacionamos com eles. Nesse sentido, João reforça que todos os objetos técnicos têm a capacidade de guardar informação, e o blockchain radicaliza o passo do acesso ao segredo. Estabelece arquivos que lidam com a possibilidade que se aproprie do Real, ou tudo aquilo que não se resume ao imaginário ou simbólico. Ao final de sua fala, João produz uma relação com dois ensaios de Kittler: “Drácula’s Legacy” e o texto sobre o Pink Floyd, “Deus nos Ouvidos” que conta a história de desenvolvimento das mídias num certo sentido.

Há, portanto, uma dimensão burocrática nessa ferramenta não estética em grande medida. João não vê a pretensão nessa ferramenta de tudo lembrar, reter e produzir esse arquivo infindável a partir de um ruído constante. Os dados que são retidos não dizem nada, só dizem depois da interface para entender todas aquelas informações que o outro lado fez. O blockchain nesse sentido é radical porque oferece a possibilidade para levar isso ao extremo. Ao final da palestra, João Ladeira faz uma provocação, ao trazer como os arquivos podem ser pensados como objeto tecnocultural? Qual o sentido que isso tem para uma cultura?

Prof. João Ladeira complementou a palestra com materiais que podem ser acessados através dos links abaixo:

https://en.wikipedia.org/wiki/Hyperledger

https://www.adledger.org/

https://en.bitcoin.it/wiki/Electrum?fbclid=IwAR2wBWnpVeoCxyYWyZHmo5Hm1SmJqAkCC4IrCxQzadnKFfvB4Aw9aLWBC0Q

https://bitcoin.org/en/bitcoin-core/?fbclid=IwAR23383NcNBB90wDhOaROHq61GOdcIAMCv-VryMtJbLFZ7gCq1TWxk7_4FY

Gostou dos principais pontos do debate, então acesse a  gravação da palestra completa que está disponível no nosso canal do YouTube e no Facebook do TCAv.

A 18a Semana da Imagem na Comunicação segue até amanhã, 19 de novembro de 2020 e contará com a presença de Ma. Ines Aisengart Menezes. Acompanhe as palestras via página do Facebook ou YouTube do TCAv, das 17h às 19h.

Texto: Roberta Krause.

Deixe uma resposta