Defesa de mestrado da pesquisa: “CORPOS RURAIS: Paisagens, sexualidades e transcendência em filmes de paiol”

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No dia 22 de março de 2021, a pesquisadora Analu Favretto defendeu sua dissertação de Mestrado, intitulada “CORPOS RURAIS: Paisagens, sexualidades e transcendência em filmes de paiol” e orientada pelo Prof. Dr. Tiago Ricciardi.

SOBRE A PESQUISA

Para Analu, sua pesquisa nasceu por uma necessidade de posicionar o seu próprio corpo como imagem-central que percebe imagens de Ruralidades ao seu redor. A pesquisadora vem de uma família de agricultores e interiorana, portanto ela traz imagens de sua vida e de sua família, e também de construtos midiáticos de Ruralidades que foram presentes na sua vida, como o sertanejo, Jorge e Mateus, Mazzaropi, etc.

Após assistir ao filme de Nathália Tereza, chamado A Outra margem (2015), foi estimulada a procurar seus objetos empíricos de pesquisa, que são os curtas A Vez de Matar, A Vez de Morrer (2016, Giovani Barros) e A Retirada para um coração bruto (2017, Marco Antônio Pereira).

Fonte: PPT de Analu Favretto

No curta de Giovani Barros, ela destaca algumas marcas que duram nele, como: a paisagem, o faroeste, masculinidade em locais públicos e a questão religiosa do fantasma. Ela também destaca marcas que se atualizam nele, como o desejo e da inserção de elementos religiosos. No segundo curta, ela percebe as Ruralidades durando: na paisagem, na ida do rural para a cidade, no longe. E como atualização desse rural, destaca a aparição do óvni, o rock e metal como a música que está presente.

Fonte: PPT de Analu Favretto

O problema da pesquisa é construído através do método bergsoniano, formando o questionamento central: Como Ruralidades se atualizam no cinema brasileiro contemporâneo? O objetivo geral da pesquisa é autenticar os processos diferenciantes de atualização da filmografia de temática rural brasileira, a partir dos construtos elaborados pelos curtas metragens selecionados. Ademais, com essa pesquisa pretende-se compreender memorialmente as tendências que caracterizam a produção de filmes brasileiros de temática rural; assimilar os impactos que técnicas e tecnologias podem surgir nessas produções de filmes rurais; criar um espaço de invenção que articule a Memória dos corpos (pesquisadora, realizadores, corpos fílmicos) existentes nessa pesquisa para fins metodológicos.

Para Analu, ainda, os ditos “filmes de paiol” são elaborados a partir do tensionamento entre novas tecnologias – como câmeras DSLR, computadores pessoais – e a estética que emerge do espaço rural: o distanciamento entre as locações, o sol estourando o plano e a utilização de ferramentas do campo enquanto modo de superar a precariedade material. Ela evoca outros lugares de invenção que são percebidos no cinema brasileiro, como as bordas e a garagem.

Fonte: PPT de Analu Favretto

ARRANJO METODOLÓGICO

Segundo ela, sua metodologia pode ser definida em “amarrar, costurar, bater, construir”. Utiliza dos seguintes movimentos metodológicos: a imagem-central; flânerie; cartografia; constelações. Analu utiliza de seu corpo como imagem-central, e consequentemente das suas memórias, como as imagens de sua infância, dos seus rurais que marcaram sua vida. E também, o corpo dos realizadores, que evocam muitas memórias do rural para construir seus filmes, dessa forma, posicionando o corpo deles como imagem-central. Em seguida, utiliza-se do movimento da flânerie, que é a figura que perambula por todos esses espaços, notando essas imagens que se repetem. A partir desse movimento anterior, se montam as cartografias. O quarto movimento metodológico, consiste nas constelações, que após olhar e perceber esses curtas, formam-se três tendencias.

A primeira tendência é intitulada de Paisagens. Essa tendência é dividida em três. A primeira, se chama A travessia. Nela, observa-se o “rural” procurando algo, a travessia do espaço rural em direção a outro espaço para suprir alguma falta. Como em Dois Filhos de Francisco (2005), onde eles precisam fazer uma travessia pelo campo para chegarem ao sucesso. A segunda, que chama-se O Sol, percebe-se que o sol castiga os corpos, castiga o solo, representando o sol de forma a estourar o filme através da superexposição. A terceira, é A guitarra, que representa a sociabilidade enquanto forma de superar o cansaço, que geralmente é um estado inscrito no corpo do rural.

O SOL. Fonte: PPT de Analu Favretto

A segunda tendência é chamada de Sexualidades e também se divide em três subcategorias. A primeira chama-se Moitas, que refere-se ao espaço preenchido pelo breu, pelo desejo proibido e, grosso modo, ao “comer quieto”. A seguir, temos A casa dos homens, que define-se por exibir a performance da masculinidade no espaço público, como no bar, jogando sinuca, na rinha de galo, recortando imagens dos peitorais e músculos masculinos. A terceira intitula-se A mulher como ausência, que refere-se a mulher ser utilizada como uma muleta para a história do homem, se mostrando ausente dos espaços fora de casa e presente dentro do lar.

A CASA DOS HOMENS. Fonte: PPT de Analu Favretto

Por fim, a terceira tendência é intitulada de Transcendência. A primeira subcategoria chama-se O corpo do Lázaro, e diz respeito a recorrência da ressurreição, a presença do fantasma, do fantástico e invisível. A segunda, tem por nome O mal ou o desejo, e nela observa-se os chifres, o diabo, o mal sendo visto como um desejo animalesco (elucidado na homossexualidade como pecado, por exemplo). Por último, temos O clarão que vem do céu, que refere-se ao milagre, aos extraterrestes, à nave espacial, representado de forma que o clarão afeta a técnica da fotografia.

O CLARÃO QUE VEM DO CÉU. Fonte: PPT de Analu Favretto

Concluindo, a pesquisadora acredita que o espaço de invenção é criado para suprir a ausência de lugares de fala, e espera que com a democratização dos equipamentos de captação e edição, cada vez mais sejam filmadas Ruralidades que cercam a muitas pessoas. E então, transformando essas diversas Ruralidades em imagens centrais que se chocam e que podem criar suas próprias constelações.

COMENTÁRIOS DA BANCA

O trabalho de Analu foi muito elogiado pelos membros da banca Roberto Cotta e Sônia Montaño. Roberto enfatiza que os problemas encontrados na qualificação, foram contemplados e sanados nessa versão do trabalho. Ele elucida que a forma como a pesquisa é escrita por Analu, permite com que o leitor se sinta pertencente da pesquisa e próximo das Ruralidades, já que ela coloca seu próprio corpo e experiência na escrita. Ele destaca que o “corpo de Analu se coloca como mote central, é através dele que a gente vai ser guiado”.

Roberto salienta que o olhar de Analu e dos realizadores dos curtas em relação as Ruralidades não vão ser concluídos neste instante, e sim, que vai continuar recebendo novas perspectivas, olhares e novas caras a medida que essa história vai se transformando. Ele enfatiza: “O que a Analu faz de antemão é entender que a história do cinema brasileiro rural ela não é uma história cristalizada, é uma história em constante transformação, em constante reinvenção.” Roberto até mesmo propõe uma definição para a pesquisa, de que é necessário colocar esse mundo rural em choque, de que seriam através dos atritos que esses corpos manifestariam afetos, raivas e emoções.

 A professora Sônia também elucidou o fato do corpo da pesquisadora estar colocado como imagem-central e carregar muitos afetos e imagens na escrita, o que faz a leitura ser bastante prazerosa. Ela também destaca que Analu se mostra didática em suas explanações durante o trabalho, mesmo para quem não conhece nada sobre o tema nem sobre os autores.

Sônia avalia que há um extenso esforço em relação aos movimentos metodológicos da pesquisa, pois parece que a metodologia está costurada como “uma roupinha em um corpo específico, que não fica nem grande nem pequena”. Sônia aponta que sentiu um potencial literário na dissertação, com possibilidade de se tornar um relato não acadêmico, o que ressonou para a pesquisadora pois posteriormente ela pontuou que sempre foi o sonho de sua vida ser escritora.

Os professores também fizeram algumas sugestões. Roberto sugeriu que se tivesse uma maior tentativa de definição conceitual sistemática a respeito da masculinidade, para sedimentar esse conceito. Sônia pontua que o resumo está conciso demais e sugere que se explique mais profundamente o “autenticar” presente no objetivo geral da pesquisa. Ademais, o trabalho foi indicado para publicação e ambos professores acreditam que essa pesquisa pode se desdobrar para uma continuação no doutorado.  

Fonte: PPT de Analu Favretto

A pesquisa “CORPOS RURAIS: Paisagens, sexualidades e transcendência em filmes de paiol”, de Analu Favretto, está integrada no grupo de pesquisa TCAv (Audiovisualidades e Tecnocultura: comunicação, memória e design). A defesa ocorreu às 14h, no dia 22 de março de 2021, online. A banca foi composta por Sonia Estela Montaño La Cruz (UNISINOS), Roberto Cotta (UFPEL) e Tiago Ricciardi (Orientador).

Caso queira saber mais sobre o processo da pesquisa de Analu, temos aqui o link da cobertura da banca de qualificação e do perfil criado por ela no Instagram chamado “Corpos Rurais”.

Texto por: Clara Moraes

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