Ines Aisengart Menezes discute preservação e memória no encerramento da XVIII Semana da Imagem

A XVIII Semana da Imagem encerrou com a palestra “Cultura digital, a cadeia produtiva e o patrimônio audiovisual” apresentada pela Ma. Ines Aisengart Menezes e mediada pela Profa. Dra. Cibely Moraes, onde a discussão girou em torno da preservação do audiovisual brasileiro e a forma como a memória desse patrimônio é tratada no país.

A mediadora da apresentação, Dra. Cibely Moraes e palestrante Ines Aisengart Menezes

Ines abriu sua fala comentando a atual crise da Cinemateca Brasileira, responsável pelo maior acervo de audiovisual da América do Sul, entre filmes matrizados em diversos suportes tecnológicos, cartazes, fotos e demais documentos a respeito dessa produção, um episódio que de alguma forma resume a maneira pela qual a preservação audiovisual é tratada historicamente no país. Com todos os funcionários dispensados, a Cinemateca Brasileira está desde Agosto de 2020 sem o devido acompanhamento técnico, o que pode ser determinante para a perda irreversível de boa parte desses materiais.

A pesquisadora e preservacionista procurou mostrar como o problema da preservação é estrutural no país, pois não se limita a episódios isolados, estando ligado a uma mentalidade que abrange toda a cadeia produtiva do audiovisual de maneira geral. Destaque para a falta de formação no setor, lembrando que a maioria dos cursos universitários que oferecem graduação em audiovisual não preveem a preservação em seus currículos, o que obriga os interessados na matéria a buscarem qualificação fora do país, como foi o caso da própria Ines, formada mestre em Preservation and Presentation of the Moving Image pela Universiteit van Amsterdam na Holanda. No Brasil, o destaque fica por conta de poucas iniciativas, como o LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF (http://www.cinevi.uff.br/lupa), um programa pioneiro que trabalha não só com a produção discente mas também com o material proveniente de Niterói e de toda a região fluminense.

Quando a questão recai sobre as políticas públicas da área, o panorama não se revela menos desanimador, uma vez que não há nem mesmo o reconhecimento do Ministério do Trabalho a respeito da profissão. Ines destaca o abismo de investimentos proporcionados pelo FSA – Fundo Setorial do Audiovisual, responsável nos últimos anos pelo financiamento de boa parte da cadeia audiovisual brasileira, mas cujos valores dispensados à projetos e programas de preservação é infinitamente menor daqueles destinados à produção, revelando uma enorme negligência do Estado para com o assunto, baseado numa ideia clara de que a memória da produção vale muito menos do que a própria produção em si.

Gráficos que relatam o abismo de investimento entre produção e preservação no Brasil

Se a atual crise, que não permite nem ao menos se ter certeza do quanto está sendo perdido na construção da memória audiovisual brasileira, Ines ainda ressalta a necessidade novas abordagens de preservação para os novos formatos que passam a ganhar importância com o digital como games, realidade virtual, cinema interativo, etc. Nesse sentido, a pesquisadora destaca iniciativas como o Internet Archive (https://archive.org), que organiza não só arquivos de livros, filmes, softwares e afins, como também um banco de dados de websites e diversos endereços online publicados ao longo do tempo e o Museum of Moving Image de Nova Iorque (www.movimimage.us), que entre outras coisas, organiza uma coleção de GIFs.

Ainda sobre a questão digital, Ines demonstra a preocupação sobre o viés preservacionista a respeito do lxo eletrônico que é produzido a partir da obsolescência de hardwares e aparelhos em geral. Outro ponto importante passa a ser o desafio provocado pelo advento das “deepfakes” (vídeos falsos produzidos com alto grau de realismo) para a preservação e memória, além da questão ética provocada pelo capitalismo de vigilância que rodeia a internet, principalmente as redes sociais e como isso se reflete para o uso que passa a ser dado a partir daquilo que está sendo armazenado pelas grandes corporações de mídia.

Iniciativas de preservação na era digital

Ines encerrou sua fala reafirmando a necessidade não só no fortalecimento de políticas públicas que se voltem para a memória do audiovisual nacional como as parcerias entre o setor de formação, especialmente as universidades, e as instituições de preservação nacional, ressaltando o benefício mútuo que pode daí advir como forma de instigar o assunto e transformar a realidade da caeia audiovisual nacional, que hoje está estruturada de uma maneira que não parece se interessar pela sua própria memória.  

Para ver mais sobre essa discussão ou para assistir às demais apresentações que rolaram durante a XVIII Semana da Imagem na Comunicação, acesse as gravações do evento que já estão disponíveis no canal do YouTube e no Facebook do TCAv.

Texto: Augusto Ramos Bozzetti

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