Mídias e a Pandemia – 20ª live da Cátedra Intercom

Para encerrar o projeto Lives Cátedra Intercom, desenvolvido pela Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação, o tema escolhido foi Mídias e a Pandemia. Os palestrantes convidados, Antonio Hohlfeldt (PUCRS), Mágda Rodrigues da Cunha (PUCRS), Cristiane Finger (PUCRS), Ana Cláudia Munari (UNISC) e Juliana Tonin (PUCRS), trouxeram no dia 07 de julho, aspectos importantes para debater em torno do papel do jornalismo, das telas/interfaces e da educação a partir das mídias e dispositivos que operam a realidade comunicacional durante o distanciamento social imposto pelo coronavírus.

Antonio Hohlfeldt (PUCRS) abre o debate na Live
Antonio Hohlfeldt (PUCRS) abre o debate na Live Mídias e a Pandemia promovida pela Intercom em 07 de julho via streaming.
Fonte: Facebook

O tema proposto pelo Prof. Antonio Hohlfeldt, ao abrir a palestra, traz uma abordagem acerca do papel do jornalismo e a pandemia, e principalmente como os jornais impressos estão tentando retomar o seu papel como uma mídia que tem o poder de reivindicar, afirmar e confiar a relevância da informação para a sociedade. O Professor apresenta dois materiais empíricos durante a palestra, anúncios institucionais  de sobrecapa assinados pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) que veicularam nos jornais gaúchos como o Correio do Povo (um dos jornais mais antigos do Brasil, impresso desde 1895), sob o título: “Vamos juntos derrotar a covid-19”.e também no Jornal do Comércio, com a chamada “Apurar. Checar. Rechecar. Informar. Combater a desinformação, para combater o coronavírus”. Segundo Hohlfeldt, essas peças demonstram a reação do setor sobre a nascente pandemia no país ainda em março de 2020, reforçando o papel fundamental da imprensa em informar a população. De fato, conforme o Prof. Hohlfeldt, as manchetes do Brasil têm a covid-19 como pauta permanente, que provoca uma discussão sobre a importância e o desafio da renovação de conteúdo abordando o agendamento da doença, para encarar a realidade decrescente de venda de jornais.

Esse aspecto direciona a discussão para a dificuldade de sobrevivência da imprensa na última década, principalmente os veículos impressos, que viram o hábito das novas gerações começar a migrar para os ambientes digitais como principal fonte de informação. Portanto, para o Professor Hohlfeldt, as mídias durante a pandemia voltaram a reivindicar um espaço central de afirmação e confiabilidade.

O papel do rádio

Paralelamente, o rádio também vem se reinventando, como apresenta a Professora Mágda Rodrigues da Cunha (PUCRS), que vê o momento atual como oportunidade para estudar as mídias, suas camadas históricas e um ecossistema a partir da interação entre os elementos. Como forma de tangibilizar esse aspecto, a Professora desenvolve uma pesquisa a fim de monitorar as transformações a partir do consumo das mídias durante a pandemia, para verificar como as famílias estão se organizando.

Professora Mágda Rodrigues da Cunha (PUCRS)
Professora Mágda Rodrigues da Cunha (PUCRS) apresenta debate sobre o rádio.
Fonte: Facebook

Para contextualizar seus interesses de pesquisa e as descobertas nos dados que está levantando atualmente, ela realiza um resgate da relação da mídia impressa com a história do rádio, afirmando que este representou uma ruptura na maneira de consumir informação, principalmente por se tratar de inaugurar a transformação do papel para mídia eletrônica. Mas a Professora defende um ecossistema altamente complexo de relação das mídias, não uma sobreposição de camadas históricas, mas interconexões entre os meios. Nesse sentido, a confiabilidade jornalística reforça a responsabilidade atual já que é característico que as pessoas passem a viver ainda mais em função das mídias, tendo uma vida mais mediada, e a partir do protagonismo da imagem, desafiando, então, o rádio em relação aos demais meios. Mas, apesar de sua estabilidade representada por uma audiência fiel, a adaptação do rádio para formatos que derivam via internet como o podcast, assistentes pessoais, o uso de smartphones como rádio em potencial, demonstram uma resiliência ao se reinventar. Um exemplo, no caso da pandemia, aconteceu em uma cidade a 120km de Fortaleza (CE) onde o diretor de uma escola utilizou a rádio comunitária para transmissão de conteúdo de aula para estudantes de uma zona rural. De acordo com a Professora Mágda Rodrigues da Cunha, isso mostra a perspectiva de um ecossistema entre as mídias a partir da educação.

A televisão e o telejornalismo

Dando sequência ao debate e os meios, a Professora Cristiane Finger aborda sua fala a partir de estudos de televisão e telejornalismo. Em sua percepção, ela diz que o jornalismo cresce em tempos de crise, como foi dito previamente em relação aos formatos impressos e a afirmação do rádio na pandemia, e com isso, a televisão repete esse comportamento. A televisão, que foi o meio hegemônico do século XX, é um meio doméstico, e nesse momento onde grande parte da população encontra-se em isolamento domiciliar, a televisão reafirma a sua força. “Na verdade, estamos em uma ecologia dos meios, mais complexa e sem mortes e sem fases”, ela cita. Nesse sentido, a pesquisa da Professora Cristiane Finger atualmente está direcionada à televisão e ao uso das telas, e a nossa conexão com a mídia tem sido fortemente pelas telas. Segundo ela, há uma televisão que “transborda”, que vai para outros dispositivos e plataformas, se reinventando. O “transbordamento” da TV traz essa ubiquidade entre os meios, como exemplo o jornal Folha de São Paulo que tem a TV Folha, as rádios que também possuem vídeos na internet, mostrando como o vídeo é sedutor nesse sentido.

Cristiane Finger (PUCRS)
Professora Cristiane Finger aborda sua fala a partir dos estudos de televisão e telejornalismo. Fonte: Facebook

Mas voltando ao tema sobre a centralidade da televisão nos lares brasileiros, a retomada da tv é comprovada pelo aumento de audiência durante o isolamento social. Segundo dados reportados durante a fala de Cristiane, o Jornal Nacional cresceu 47%, onde a média em telejornalismo é 30%. Outro dado relevante sobre o consumo de tv na pandemia é a afirmação do jornalismo 24h em tv por assinatura, onde pela primeira vez o canal Globo News superou o de entretenimento infantil Discovery Kids na liderança de audiência, com a média de 150 mil pessoas por minuto.

“Mas o que mudou no telejornalismo na pandemia? O que há de mais importante no mundo hoje para se debater senão o combate à doença?” Se o telespectador não aguenta mais as más notícias, então, segundo a Prof. Cristiane Finger, “prefiro jogar ao público a responsabilidade de quanto se deve estar conectado, independente do meio.”

          Outra questão que a Prof. Cristiane retoma é o que o home office traz sobre o cenário que mudou no telejornalismo, ou seja, as casas dos jornalistas e sua intimidade se transformaram em cenário, em estúdio, migrando o que se tinha de tão valioso à estrutura necessária para uma TV dita de qualidade, envolvendo custos altíssimos de produção.           Nesse aspecto, impossível não fazer relação com os estudos de televisão da Professora Suzana Kilpp no livro “O impacto das novas mídias no estatuto da imagem” (2012), onde ela fala de um referencial imagético criado a partir das mídias: ” De um lado assistimos à expansão funcional da imagem fora das mídias (para um fim) e sua apropriação por elas (para outro fim), como é o caso daquela que, por exemplo, é captada por câmeras de segurança e comparece no fluxo de um telejornal. […] Em algum momento, restos de tais imagens – a princípio restritas a uma área e a uma funcionalidade bem determinada – se inscrevem no fluxo de alguma mídia chamada de massa (cinema, TV), nos fluxos da internet ou nos das chamadas mídias moveis, locativas (telefone celular e aparelhos similares). Quando isso ocorre instaura-se um verdadeiro curto-circuito em nosso referencial imagético. Esses usos e apropriações, tão ao gosto de nossa época, como se explicam? (KILPP, 2012, p. 224).

Para complementar, de acordo com a prof. Cristiane Finger, a televisão já estava acostumada a levar as pessoas como uma janela por uma diferença de tempo, ou seja, agora é possível entrevistar pessoas em lugares longínquos, ao vivo com uma simplicidade incrível. Nesse sentido, são as próprias fontes que estão captando essas imagens, mostrando a sua visão de mundo. É possível verificar isso através de outras imagens como câmeras de segurança, celulares que viram televisão, que viram uma câmera, ou seja, todos falando com todos. A Professora Cristiane encerra sua fala afirmando que a tv aberta passa a ser um laço social, e que a web e a internet são extremamente importantes, mas estão restritas a uma camada da população, isso se traduz a partir do entendimento que nenhuma universidade federal do Brasil tenha conseguido manter suas aulas na modalidade online durante a pandemia.

As mídias e a educação

Por fim, os últimos debates são liderados pelas professoras Ana Cláudia Munari (UNISC) e Juliana Tonin (PUCRS), e ambos tomam a temática da relação das mídias na pandemia estritamente a partir de suas apropriações na área da educação e sua migração para o modelo remoto desde março, tanto no ensino superior quanto fundamental. São tratadas as dificuldades de adaptação ao ambiente online, tanto dos professores (que não são seres midiáticos como os jornalistas da globo News e suas orquídeas), os alunos que não necessariamente possuem acesso a computadores ou dispositivos adequados ao ensino online, e também as crianças que dependendo da idade não têm competências exigidas para conseguir acompanhar e compreender essa modalidade que exige uma dupla mediação – a necessidade de um envolvimento familiar nesse ponto que é essencial.

O projeto Lives Cátedra Intercom contou com 20 encontros virtuais, de maio a julho, via Zoom, e foram transmitidos ao vivo pela página oficial da Intercom no Facebook. No total foram 2595 inscrições realizadas previamente para ter acesso ao conteúdo via streaming, 68 pesquisadores participantes de todas as regiões do Brasil, contando com 32 instituições de ensino superior públicas e privadas, além da participação de empresas como SBT, Globo e Record, reforçando a importante aproximação da academia com o mercado da comunicação.

A partir dos debates realizados durante os vinte encontros nos últimos 3 meses, o projeto Lives Cátedra Intercom será transformado em um e-book intitulado “Desafios da Comunicação em tempos de Pandemia”.

Para ter acesso aos vídeos e todo o conteúdo desenvolvido no projeto, acesse o site:

https://www.portalintercom.org.br/centro-cultural/eventos-catedra-intercom.

Texto: Roberta Krause

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