PASSAGENS POR TERRITÓRIOS DO YOUTUBE: Sentidos identitários de América Latina na plataforma e imagens da tecnocultura contemporânea

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O pesquisador Jardel Orlandin defendeu seu título com o texto “PASSAGENS POR TERRITÓRIOS DO YOUTUBE: Sentidos identitários de América Latina na plataforma e imagens da tecnocultura contemporânea”

A pesquisa de Jardel teve como intuito descobrir como a plataforma Youtube constrói sentidos identitários e como a mesma se comporta diante da interação entre usuários e a mesma. Suas inquietações desenham um contexto sócio-político de mudanças que se inicia com a eleição de Donald Trump, em 2016. A promessa de um muro que visa impedir a  entrada de latinos nos Estados Unidos é separado por um ano do vídeo com mais visualizações da história do Youtube: em 2017, Despacito (Luis Fonsi), de um cantor latino é postado na plataforma. Hoje o vídeo já bate a marca de 6 bilhões de acessos. 

O ponto de virada da dissertação é a incorporação do conceito de ethicidades (Kilpp, 2003). Para o pesquisador, a forma com que estamos nos deparando com muitas formas de tensionar e compor nossa identidade é atravessada por um mundo instável e de infinitas mudanças. Por isso, a importância de evocar teóricos como Zygmunt Bauman – e sua liquidez das relações , e Gilles Deleuze – e seus escritos sobre a falência do processo de representação. Para Kilpp, as ethicidades são construtos midiáticos, seja de eventos, personas, fatos e etc. Ainda, é através dos sentidos suscitados pelas ethicidades que podemos pensar sobre imaginários e como as mensagens são reforçadas ou modificadas pelo mesmo. “Sendo assim, o que é enunciado é, muitas vezes, mais importante que a “realidade”, porque constrói um imaginário que pode imperar sobre o universo físico – que acessamos por meio da percepção que temos dele” (ORLANDIN, 2020, p. 25)

Entre a escrita e as descobertas

O processo para Jardel foi de momentos de encontros e inseguranças, “Quando me inscrevi no mestrado, enviei o projeto para duas linhas de pesquisa. Fui chamado para três entrevistas. Passei na linha um, de mídias e processos audiovisuais, e fiquei como suplente em outra linha de pesquisa.

Pensei, então, no que isso significava, porém resolvi seguir em frente e fazer o mestrado na linha um, como parte do TCAv. Com isso, me senti um tanto inseguro, pois me diziam que, via de regra, eu não passaria “de primeira” em um curso de pós-graduação, porque é um degrau considerável entre o bacharelado e o mestrado. Além disso, ao mesmo tempo em que eu conhecia os autores que são lidos pelo grupo de pesquisa – Benjamin e Flusser, por exemplo –, a leitura que é feita no PPG é muito mais profunda do que aquela com a qual eu estava acostumado na graduação. O degrau existe, de fato. E é bastante grande.

Agora, pouco a pouco, eu me acostumei, também por conta da aproximação com os colegas, os professores e os conceitos do grupo de pesquisa e do PPG. Cabe ressaltar que, por vezes, me senti um estranho no ninho, pensando que eu não seria capaz de concluir a dissertação com a qualidade esperada – por mim ou por terceiros. Imagino que isso se deve, em parte, a um processo intenso de aprendizagem. É difícil crescer na zona de conforto.

Além disso, é aquela história: nunca se sabe – ou, ao menos, não se deveria saber – para onde a pesquisa nos levará. O mais legal do processo é, justamente, o imprevisível. Então existe uma certa tensão acerca dos objetos e dos percursos escolhidos. Ao fim e ao cabo, todavia, vale a pena.”

Procedimentos e movimentos

A metodologia da pesquisa se construiu a partir de procedimentos nos empíricos. O autor utilizou de postulados dos autores Walter Benjamin e Suzana Kilpp. 

Jardel, como um flâneur, explorou a plataforma Youtube. A partir das explorações, imagens dialéticas foram se formando e gerando sentidos, destas imagens vemos tanto os sentidos, quanto as molduras que os estruturam. No processo de flânerie, o pesquisador revela que explorou o Youtube “enquanto cidade: seus principais vídeos, aqueles que destacam, são boulevards, largas avenidas nas quais estão reunidas uma infinidade de pessoas – ou usuários”, o autor continua descrevendo o espaço e para ele “os perfis dos usuários são os bairros dessa cidade e agrupam algumas das suas ruas; e, enfim, as listas de reprodução são mapas criados por outros viajantes” (Ibidem, p. 61)

A metodologia das molduras, de Suzana Kilpp, é utilizada na plataforma através da dissecação: disseca-se molduras e moldurações em busca de ethicidades, emolduramentos e imaginários. A dissecação acontece em sites da internet, que são mídias que ultrapassam as concepções iniciais de Kilpp, cujo objetivo era o de reunir técnicas que permitisse analisar material audiovisual televisivo. Na internet, a dissecação é realizada de maneira diferente, através de aceleração e montagens das páginas, realçando seus elementos e relações com os demais: dissecar é revelar o que há de invisível e escondido nas páginas.

Para manipular e mexer nas imagens, o autor utilizou uma ferramenta nativa do MacBook e, para editar as imagens, o Adobe Photoshop.

Outro procedimento do pesquisador foi o de alterar sua localização, para assim conseguir resultados sobre a mesma pesquisa de diferentes locais do globo. 

Por fim, são pontuadas as quatro passagens do Youtube: (i) Página inicial, configurações e links, (ii) Barra de busca, variáveis e resultados, (iii) Canais e páginas imprevistas e dispersas e (iv) Mais vistos e vídeos derivados. 

Na imagem acima, o pesquisador dá a ver: (i) Territórios de experiência englobam o player, o anúncio e os conteúdos relacionados. (ii) Territórios de significação abrangem as legendas e os dados acerca do vídeo, como a descrição e a avaliação da página e as informações do canal. (iii) Territórios com fronteira difusa estendem-se da caixa de comentários até os demais
vídeos da lista de reprodução.

O processo pós-banca

Ao ser indagado sobre os possíveis caminhos posterior a banca, o autor informa que “Fui convidado a falar sobre ela em aulas de duas turmas de especialização da Unisinos, por exemplo, e estou tentando transformar a dissertação em artigos. Pretendo, sim, seguir a trajetória acadêmica e cursar um doutorado algum dia, mas prefiro não definir metas e prazos no momento, mesmo tendo sido convidado – ou convocado? – a propor um novo projeto de pesquisa. Penso que isso surgirá de maneira quase natural no tempo mais adequado e oportuno.

No entanto é interessante dizer que me parece muito difícil não pesquisar depois de um curso de pós-graduação. Digo isso porque acredito que o “modo de olhar” daqueles que pesquisam é bastante singular. Portanto um curso de pós-graduação – de mestrado ou doutorado –, não se encerra em si, tampouco tem como fim apenas o trabalho, a dissertação ou a tese. Uma pesquisa transforma o pesquisador para além dos seus próprios limites.”

A pesquisa “PASSAGENS POR TERRITÓRIOS DO YOUTUBE: Sentidos identitários de América Latina na plataforma e imagens da tecnocultura contemporânea”, de Jardel Orlandin está integrada ao grupo de pesquisa TCAV (Audiovisualidades e Tecnocultura: comunicação, memória e design). A defesa ocorreu no dia 11 de maio de 2020, online. A banca foi composta por Sonia Montaño (Orientadora), Tiago Ricciardi (UNISINOS) e Michael Kerr (UFPel), por webconferência. 

Texto por: Analu Favretto

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