Picturephone: a videochamada entre as novas e as velhas mídias

Em tempos de pandemia, com o isolamento social, as videochamadas têm sido um recurso para manter diversas atividades sociais.  Esta alternativa tem aproximado pessoas virtualmente, através da internet, em tempo real. Nesta direção, alguns eventos durante a pandemia se tornaram comuns, como as lives, reuniões de trabalho, bem como aulas e palestras continuaram sendo possíveis, de forma remota.

No entanto, um pensamento vem à tona…como seriam promovidos estes eventos sociais se a pandemia tivesse ocorrido em uma época em que não tínhamos os recursos tecnológicos que temos hoje? Que formas de interações sociais criaríamos com o auxílio dos aparelhos tecnológicos que possuíamos há 50 anos atrás, por exemplo? Da mesma forma, como seria nossa interação com os próprios dispositivos, se estivéssemos vivendo a pandemia nesta época? Os dispositivos tecnológicos foram sendo introduzidos no cotidiano, no ambiente doméstico e tornando assim parte de nosso contexto sócio-histórico. Desta forma, encontramos índices culturais nos aparatos tecnológicos, mesmo que aparentemente ocultos, como sublinha Erkki Huhtamo (2013).  

Considerando então a tecnologia dos dispositivos encontrados nos ambientes domésticos de 50 anos atrás, temos o aparelho televisor e o rádio através dos quais não era possível promover eventos sociais remotos, semelhantes aos que temos nos dias de hoje. Também já tínhamos o telefone, que conecta um número muito reduzido de pessoas simultaneamente, inviabilizando assim também, um evento remoto de porte maior, certamente.

Entretanto, é possível perceber, já nesta época, o interesse em utilizar dispositivos tecnológicos para conectar pessoas. Nos dias atuais, as videochamadas, ou videoconferências, cada vez mais tornam possível conectar um número maior de pessoas em uma mesma reunião, através de computadores e celulares. Deste modo, podemos observar de que forma algumas atualizações tecnológicas vêm ocorrendo na cultura, como as técnicas vêm se sobrepondo. E neste ponto lembramos o que diz Lev Manovich (2002) sobre o cinema antigo e os jogos de computador, que mesmo distantes temporalmente, vão compartilhando técnicas e estéticas entre si, ampliando e sobrepondo estes elementos entre as novas e velhas mídias (MANOVICH apud MACHADO, 2002).

Pensando retroativamente nas videochamadas, relembramos o Bell’s Mod I Picturephone, dispositivo que há 50 anos atrás viabilizava a primeira videochamada comercial. Este dispositivo possibilitava a videoconferencia entre duas pessoas através da tecnologia de codificação de sinais sonoros, já utilizada na telefonia.

O Picturephone proporcionou, então, o primeiro vislumbre de uma comunicação falada com recursos visuais em uma época pré-internet. Se tratava de uma videochamada entre dois pontos, diferente das videochamadas que conhecemos atualmente, que possibilita um número maior de participantes. No entanto, por se tratar de um recurso de alto custo na época, o Picturephone não alcançou os ambientes domésticos, sendo adquirido apenas por algumas grandes empresas. Sendo assim, em razão do insucesso das vendas, rapidamente o fabricante desistiu de seguir na sua fabricação. Podemos pensar que se houvesse nesta época uma situação de pandemia, quem sabe grandes empresas teriam apostado mais em maneiras de popularizar este recurso, como aconteceu com a internet, que inicialmente também se tratava de um recurso de alto custo para ambientes domésticos, vindo ainda a se popularizar aproximadamente duas décadas depois de seu surgimento. Quem sabe, se o Picturephone tivesse vingado, então, teríamos ainda outros imbricamentos tecnoculturais possíveis nas tecnologias comunicacionais, que tivessem seguido mais intensamente a partir da lógica sônica e eletromagnética, afinal, segundo Ernst:

A sonicidade inerente da imagem de vídeo é reminiscente da profunda ligação mídia-arqueológica entre o sinal televisivo e a transmissão vocal telefônica. A transmissão de expressões sonoras a distância serviu como um a priori técnico para a televisão; esta afinidade técnico-estrutural implícita se fez manifesta no desenvolvimento do Picturephone, dos Laboratórios Bell[1]. (ERNST, 2016, p.06)

Entretanto, podemos não utilizar mais videochamadas utilizando a mesma tecnologia do Picturephone, mas este é de fato um dispositivo mídia-arqueológico através do qual podemos observar como as tecnologias vêm se reinventando. Podemos perceber isto na readaptação de nossas videochamadas, a partir das novas mídias e sua utilização, desta vez através da internet, do computador e aparelhos celulares. Podemos pensar então, que, a partir desta visada que considerou anteriormente as possibilidades de comunicação sonora e visual, o Picturephone pode ter influenciado conceitualmente este recurso.

Nestes termos, tentando entender nossa presente tecnocultura, relembramos o conceito de screenology de Huhtamo, quando nos convida a pensar na “tela” como um fenômeno cultural complexo que escapa à simples generalização. A arqueologia das mídias pode nos auxiliar traçando os seus contornos e o palimpsesto de suas manifestações históricas. Ao escavar o passado, a arqueologia das mídias também joga luz no presente (HUHTAMO, 2013, p.4).

Texto: Bibiana de Paula

Referências:

ERNST, Wolfgang. Sobre a sonicidade. Revista Geminis, v. 10, n. 1, 2016

HUHTAMO, Erkki. Elementos de Screenologia: em direção a uma arqueologia da tela. Revista de Audiovisual Sala 206, n. 03, 2013.

MACHADO, Irene. Tudo o que você queria saber sobre as novas mídias mas não teria coragem de perguntar a Dziga Viertov. Galáxia, n. 3, 2002, p.219-225.


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